O Estalo que Não Quer Desaparecer - Faixas e Histórias

O estalido que se recusa a desaparecer

Por Rafi Mercer

O vinil é um dos grandes sobreviventes da cultura musical — descubra mais na nossacoleção «Listening Bar».

Para um formato que foi dado como perdido mais vezes do que se consegue contar, o vinil revelou-se notavelmente resistente. Outrora descartado como plástico ultrapassado, uma relíquia das caves empoeiradas do século passado, encontra-se agora novamente no centro das atenções culturais. A questão não é se o vinil regressou — a questão é por que razão regressou de forma tão enfática, por que razão o chiado da agulha se tornou uma espécie de ritual secular para uma nova geração que cresceu a ouvir streaming.

Há quem diga que é nostalgia, e há alguma verdade nisso. O vinil oferece uma porta de entrada para o passado, para os dias em que a música era algo que se podia segurar, examinar e apreciar. Uma capa de 12 polegadas é tanto uma afirmação de estilo como uma embalagem — arte gráfica, notas explicativas, créditos, o índice físico de um movimento cultural. A nostalgia, porém, não explica por que razão pessoas na casa dos vinte — que, para começar, nunca cresceram com o vinil — fazem agora fila para edições limitadas, nem por que razão as editoras lutam para acompanhar a procura por reedições. Há algo mais profundo a acontecer aqui.

No fundo, o ressurgimento do vinil tem a ver com a sensação tátil. Vivemos numa era de acesso infinito: a música flutua por todo o lado, sem peso e sem atrito, armazenada em servidores a milhares de milhas de distância. A abundância é extraordinária, mas pode parecer superficial, intangível. O vinil oferece o oposto: peso, resistência, o teatro lento de escolher um disco, retirá-lo da capa, colocá-lo no gira-discos e ouvir aquele primeiro desabrochar do som. É uma forma ritualizada de ouvir música. O formato faz-nos abrandar, obriga-nos a viver no presente.

E que som é este! Os audiófilos discutem incessantemente sobre o calor do som, sobre a forma como o vinil reproduz os graves, sobre a sua característica atenuacão das frequências altas. Muito disso é subjetivo, parte é verificável, tudo é fascinante. Mas, para além dos pormenores técnicos, a verdade é simples: o vinil convida-nos a ouvir de forma diferente. Os sulcos não permitem saltos infinitos; o ato de virar um disco exige atenção. Não é música de fundo. É música em primeiro plano.

É esta valorização que explica o sucesso do vinil no movimento dos bares dedicados à música. Por toda a cidade de Londres, Tóquio, Berlim, Nova Iorque e Paris, surgiram espaços dedicados onde este formato não é apenas fetichizado, mas celebrado como elemento central da experiência social. Estas salas estão adaptadas às necessidades do vinil: acusticamente precisas, com iluminação suave e geridas por curadores que tratam o gira-discos como um altar. As pessoas sentam-se, bebem um copo e ouvem música. O próprio disco torna-se o protagonista da noite.

Há também uma perspetiva económica a considerar. O streaming tornou a música mais acessível e, ao mesmo tempo, menos valiosa. Pelo preço de uma sanduíche, é possível aceder a quase todas as gravações da história. O vinil inverte essa equação. A produção de discos de vinil é dispendiosa e os compradores estão dispostos a pagar 25 libras ou mais por um único álbum. Numa indústria em que a maioria dos artistas ganha apenas alguns cêntimos com as reproduções digitais, as vendas de vinil proporcionam não só rendimentos, mas também dignidade. Lançar um álbum em vinil é uma forma de demonstrar seriedade, empenho e permanência. É a diferença entre um esboço num ecrã e uma pintura numa tela.

Os colecionadores têm sido, naturalmente, os principais impulsionadores desta dinâmica. A emoção de vasculhar caixas de discos nunca desapareceu — limitou-se a migrar para a cena underground enquanto o grande público declarava o vinil morto. Mas o que mudou foi que essa atividade ressurgiu como capital cultural. O Instagram está repleto de DJs a exibir as suas descobertas, o Discogs tornou-se uma economia global por direito próprio e as editoras de reedições prosperam graças à procura por jazz obscuro, disco esquecido ou singles de 45 rotações de pós-punk que outrora acumulavam pó em lojas de caridade. O instinto do colecionador já não é um fenómeno de nicho; é algo a que todos aspiram.

E depois há a cultura DJ que nunca abandonou o vinil. Mesmo quando os controladores digitais, os CDJs e as pen USB tomaram conta das cabines em todo o mundo, certos seletores insistiram no vinil. Para eles, o formato não é uma limitação, mas sim uma marca distintiva — prova de curadoria, prova de intenção. Quando um DJ arrasta uma caixa de vinis para dentro de uma discoteca, o público sabe o que está em jogo: cada disco foi escolhido, transportado, arriscado. Há suor envolvido, e o som transmite esse esforço. O ressurgimento da cultura do vinil deve muito a estes seletores, aqueles que mantiveram o formato vivo durante os anos difíceis.

A dinâmica geracional também tem o seu papel. Comprar um disco é tomar uma posição contra a efemeridade. Para os ouvintes mais jovens, criados na esteira das playlists algorítmicas, o vinil representa a autenticidade. É uma rebelião analógica. Não é por acaso que as feiras de discos estão agora repletas de estudantes e jovens na casa dos vinte à procura de reedições dos Joy Division ou de importações japonesas de city pop. O vinil tornou-se o símbolo daqueles que querem ouvir, e não apenas escutar.

É claro que o renascimento do vinil não está isento de problemas. As fábricas de prensagem têm dificuldade em acompanhar a procura. Os atrasos são comuns, os custos são elevados e as questões ambientais permanecem. Afinal, o vinil é feito de PVC, que não é propriamente a substância mais amiga do planeta. Mas mesmo neste contexto, a inovação está a ganhar força. Fábricas independentes estão a experimentar compostos reciclados, materiais alternativos e práticas mais ecológicas. O desafio é real, mas também o é o compromisso de tornar o vinil sustentável a longo prazo.

O que se depreende de tudo isto é mais do que uma tendência. O regresso do vinil não se resume apenas ao formato; trata-se de valores. É um sinal de um anseio pela lentidão, pela intencionalidade, pela profundidade numa cultura viciada na velocidade e na superficialidade. Trata-se de voltar a enraizar a música nos corpos e nos objetos, nas capas e nos sulcos, na comunidade e no lugar. Colocar um disco a tocar é declarar que este momento é importante, que os próximos 20 minutos não serão varridos pela próxima recomendação algorítmica.

Talvez seja por isso que o vinil tem um impacto tão forte hoje em dia. Numa época em que tudo pode ser copiado, replicado, transmitido em streaming e esquecido, as imperfeições do vinil — o chiado, o estalido, o salto ocasional — parecem mais humanas do que a perfeição alguma vez poderia ser. Cada reprodução é ligeiramente diferente. Cada sulco desgasta-se com o tempo. O vinil lembra-nos que a música, tal como a vida, é frágil, finita e preciosa.

Assim, quando nos perguntamos por que razão o vinil está a regressar em grande, talvez a melhor pergunta seja: por que razão alguma vez pensámos que tinha desaparecido? O formato pode ter perdido alguma visibilidade, mas nunca perdeu o seu apelo junto das pessoas que mais se preocupavam com a música. O seu regresso não é uma ressurreição — é um reconhecimento. O reconhecimento de que algumas coisas se recusam a desaparecer porque apelam a algo essencial em nós: a necessidade de nos reunirmos, de ouvir, de segurar o som nas nossas mãos.

O vinil não é o futuro da música, nem o seu passado. É o seu pulso. A agulha pousa, o disco gira e, durante alguns minutos fugazes, lembramo-nos de que ouvir — ouvir de verdade — continua a ser o ato mais radical.


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