Cinco álbuns que nunca vou deixar de ouvir
Por Rafi Mercer
A música é uma coisa estranha. Tratamo-la como o ar — está em todo o lado, é constante, descartável — mas o álbum certo, ouvido da forma certa, pode ficar connosco para toda a vida. O segredo não está apenas no que ouvimos, mas também na forma como o fazemos.
Estes cinco álbuns não foram escolhidos apenas pela sua posição nas tabelas nem por pura nostalgia. Estão aqui porque, sempre que os ouço, abrem-me uma porta. E se estiveres disposto a atravessá-la — de preferência num espaço digno de, pelo menos, ★★ no sistema de classificação por estrelas do Tracks & Tales —, talvez os ouças como se fosse a primeira vez.
1. Miles Davis –Kind of Blue
Todos os clichés sobre este disco são verdadeiros e, mesmo assim, nunca são suficientes. «Kind of Blue» é o que há de mais próximo da atmosfera pura que um álbum pode alcançar. Não se trata de o ouvir; trata-se de deixar que ele nos penetre.
A primeira vez que ouvi isto num sistema de três estrelas — colunas Klipschorn numa sala com acústica perfeita — percebi o quanto de subtileza me tinha escapado. O espaço entre as notas, a respiração no saxofone de Coltrane, a forma como as escovas de Jimmy Cobb parecem fazer tique-taque mesmo atrás da orelha.
Isto não é música de fundo para um jantar com convidados. É uma aula magistral de contenção, e recompensa-te por te deixares envolver.
2. Joni Mitchell –Hejira
«Hejira», o álbum mais nómada e livre de Mitchell, vagueia por paisagens — físicas e emocionais — com o baixo sem trastes de Jaco Pastorius a serpentear como um rio.
É um disco ideal para viajar, mas a riqueza dos detalhes exige uma sala silenciosa e boas colunas. Num sistema de som de ★★, consegue-se ouvir a textura dos slides do Jaco, o ar na voz da Joni e o brilho suave dos pratos, que quase desaparecem em sistemas de menor qualidade.
Esta é música para quem compreende que o espaço numa mistura é tão importante quanto as próprias notas.
3. Massive Attack –Mezzanine
O coração sombrio do trip-hop, «Mezzanine» é todo sombra e textura. Cada batida parece deliberada, cada frequência baixa está exatamente onde deve estar.
Quando ouvido num sistema de som adequado, este álbum ganha uma dimensão física. O baixo em «Angel» não se limita a vibrar — faz o ar à tua volta mover-se. As vozes sobrepostas em «Teardrop» pairam como fumo.
Já ouvi isto em locais com ★ e ★★★ e, embora os primeiros consigam captar o ambiente, só os segundos proporcionam a imersão total, do chão ao teto, que esta música merece.
4. Talk Talk –Spirit of Eden
A obra-prima de Mark Hollis não é apenas um álbum — é uma paisagem sonora que não se deixa apressar.
Num sistema de som de qualidade, vai perceber como o silêncio neste disco é tão intenso quanto o som. Os instrumentos surgem e desvanecem-se como o tempo. Os harmónicos estendem-se pelo ar. É o oposto da experiência auditiva da era da compressão — cada faixa respira.
Já levei pessoas a salas de espetáculos só para ouvirem isto em vinil. A forma como a música se desenvolve num espaço com acústica tratada faz-nos perceber o quão radical era em 1988 — e continua a ser.
5. Kamasi Washington –The Epic
Se *Kind of Blue* é sinónimo de contenção, *The Epic* é sinónimo de uma abundância gloriosa e maximalista. Com quase três horas de jazz moderno, orquestração e coro, é um álbum que exige espaço — tanto físico como sonoro.
No sistema errado, fica tudo difuso. No sistema certo, cada instrumento tem a sua própria atmosfera e a escala ganha um carácter cinematográfico.
É o tipo de álbum que nos faz sentir gratos por ainda haver salas de espetáculos que instalam sistemas capazes de reproduzir este nível de detalhe e esta escala.
Por que razão os álbuns são importantes na era dos singles
Haverá quem pergunte: para quê dar-se ao trabalho de ouvir álbuns completos quando se pode ouvir uma lista de reprodução em streaming? Eis a resposta: os álbuns são arquitetura. Os singles são divisões; os álbuns são edifícios.
Um espaço ★★★ compreende isso. Proporciona-te o ambiente ideal para percorreres o álbum tal como foi concebido — faixa a faixa, ambiente a ambiente.
Estes cinco são apenas os meus. Não pretendem ser uma lista definitiva. Pretendem ser um lembrete de que a riqueza da tua experiência auditiva depende dos espaços onde a vivências. E quando encontrares o espaço certo, guiado pelas estrelas do Tracks & Tales, começarás a criar a tua própria lista.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da secção «Tracks & Tales», subscrever, ou Clique aqui para ler mais.