Como montar um bar de audição em casa

Como montar um bar de audição em casa

A tradição japonesa que ensinou o mundo a ouvir — e a levar isso para casa

Há uma sala em Osaka que está aberta desde a década de 1960. É pequena, tem alcatifa e é iluminada por uma fonte de luz que não se consegue identificar com precisão. Tira-se o casaco à porta. Pede-se algo, em silêncio. Depois, senta-se, e o proprietário retira um disco da capa, coloca a agulha e, durante os quarenta minutos seguintes, a sala cumpre a função para a qual foi concebida.

Ninguém fala. Ninguém verifica nada. A música toca no volume a que foi gravada para ser ouvida, através de equipamento escolhido ao longo de décadas precisamente para este fim, numa sala cujas superfícies foram todas aperfeiçoadas por anos de utilização. Quando o lado termina, sente-se isso.

Trata-se de uma «kissa»«kissaten», na forma completa, que significa salão de chá ou café — e surgiu no Japão do pós-guerra, numa altura em que os discos de vinil eram caros e os amplificadores eram raros. A única forma de a maioria das pessoas ouvir Miles Davis ou Thelonious Monk com algum volume era encontrar um espaço onde alguém tivesse passado anos a reunir os meios necessários para o fazer como deve ser. O proprietário da kissa não era propriamente um anfitrião. Era mais um guardião. Era ele quem escolhia o que se tocava. Controlava o ambiente. E o espaço recompensava-te por teres chegado sem mais nada para fazer.

Essa tradição já tem setenta anos e continua a emocionar. Não porque a nostalgia esteja na moda — embora esteja —, mas porque o formato «kissa» responde a uma pergunta à qual o mundo moderno já não consegue responder de outra forma: qual é, afinal, a sensação de dedicar toda a nossa atenção à música?

A resposta, cada vez mais, está a ser construída em casa.

Vê o que as pessoas vêm aqui procurar. Elas procuram Modal Soul — o álbum de 2005 de Nujabes, construído a partir de samples de jazz e de uma arquitetura hip-hop, concebido para ser explorado em vez de consumido. Encontram Donald Byrd, três álbuns seus, cada um deles com um espaço nos arranjos que só se revela quando se aumenta o volume. Leem sobre *Cat*, de Hiroshi Suzuki, gravado em Tóquio em 1975, e sobre Terry Callier, e sobre *Blue Lines* — um álbum que precisa de baixas frequências que se sintam através do chão.

Estes não são discos feitos para ouvir no trajeto para o trabalho. Foram feitos para uma sala em que o próprio espaço faz parte do instrumento.

Criar essa sala em casa começa com uma única decisão: deixar de a tratar como um efeito secundário de ter um bom altifalante e passar a considerá-la o objetivo principal. Um espaço dedicado, por mais pequeno que seja. Uma cadeira posicionada corretamente. Superfícies que absorvam o som em vez de o refletirem de volta para si — um tapete, prateleiras com discos, algo macio na parede oposta às colunas. Os «kissas» originais de Quioto e Osaka entendiam isto não como tratamento acústico, mas como atmosfera. A sala deve dar a sensação de ter sido construída para receber o som.

Depois vem o equipamento, e aqui a disciplina é a moderação. A tradição dos bares de audição — desde os «kissas» de jazz originais até às salas que agora estão a abrir em Copenhaga, Seul e Lisboa — não assenta no maximalismo. Trata-se de um sistema, escolhido cuidadosamente, a funcionar no volume para o qual foi concebido. Duas colunas com personalidade. Um único amplificador integrado. Uma fonte. As colunas que aparecem nas salas que importam não foram escolhidas com base nas especificações. Foram escolhidas porque têm uma voz própria.

Depois da sala e do sistema vem a coleção, e é a coleção que distingue uma sala de audição de uma loja de hi-fi. O «cânone da Kissa» — jazz pós-bop, ECM, fusão japonesa, discos de soul com espaço sonoro — foi reunido por pessoas que ouviram atentamente durante décadas. É um bom ponto de partida porque foi concebido precisamente para isto: uma audição demorada, em volume elevado, numa sala onde não há outro lugar para onde ir. Os cinquenta álbuns por onde vale a pena começar não são peças de coleção. São discos para salas de audição.

A última coisa — e aquilo que a maioria dos guias sobre áudio doméstico ignora por completo — é o ritual. O kissa não se destacava pelo seu equipamento. Destacava-se pelo seu comportamento. Sentava-se quando a música tocava. Não se chegava a meio da faixa. Deixava a conversa para depois. Em casa, a versão disto é mais simples: senta-se quando carrega no «play». Não abre também o portátil. Deixa a faixa tocar até ao fim. Vira o disco.

É isso mesmo que a prática consiste. Não custa nada e muda tudo.

O«listening bar» não é uma ideia nova no mundo da roupa vintage. Trata-se de uma prática japonesa com setenta anos que o resto do mundo está, aos poucos, a reconhecer como uma solução para um problema genuinamente contemporâneo — a dificuldade de nos concentrarmos na música quando tudo o resto está concebido para a interromper.

As pessoas que criaram os primeiros «kissas» compreenderam algo que está agora a ser redescoberto em bares desde Madrid a Barcelona e Atenas: que a música precisa de uma arquitetura. Que a fidelidade não é apenas uma qualidade técnica. É uma qualidade de atenção.

Não precisas de um bar. Precisas de uma sala, de um disco e da determinação para ficares quieto.

O que é um «kissa» e em que difere de um bar de audição?

Um «kissa» — do japonês«kissaten», que significa «sala de chá» — é o café de audição original que surgiu no Japão do pós-guerra, onde o principal objetivo do espaço era tocar música para os clientes sentados. Um «bar de audição» é o termo moderno mais abrangente para qualquer espaço concebido em torno da audição atenta. Todos os «kissas» são bares de audição. Nem todos os bares de audição são «kissas». A história completa está aqui.

Com que álbuns devo começar a minha coleção de música para ouvir em casa?

Os discos que mais frequentemente se destacam nas salas de audição exigentes têm uma característica em comum: revelam-se lentamente, em volume elevado e numa sala com boa acústica. Modal Soul, Places and Spaces, Cat, Linhas azuis. Os cinquenta, na totalidade, constituem um cânone razoável.

Onde posso encontrar bares de audição para visitar antes de construir o meu próprio?

Guias urbanos «Tracks & Tales» abrangem bares de música ao vivo em mais de cem cidades. Osaka e Quioto continuam a ser o ponto de origem. Copenhaga, Lisboa, e Seul são o próximo passo na evolução deste formato.

Todos os meses, o The Listening Club reúne-se em todo o mundo.Inscreve-te aqui.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

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