Cat — Hiroshi Suzuki e o poder discreto do jazz japonês (1975)

Cat — Hiroshi Suzuki e o poder discreto do jazz japonês (1975)

De Hiroshi Suzuki Gato — o intemporal álbum de jazz japonês cujo calor, contenção e atmosfera o tornam um dos favoritos nos bares de música de todo o mundo.

Por Rafi Mercer

Há álbuns que não se anunciam. Não chegam acompanhados de alarido, de fanfarra cultural ou com o peso de um movimento por trás. Entram no mundo discretamente — e depois, anos mais tarde, as pessoas descobrem-nos como se tropeçassem numa sala escondida. «Cat», de Hiroshi Suzuki, é uma dessas salas: acolhedora, aveludada, impecavelmente organizada e, de alguma forma, espaçosa e íntima ao mesmo tempo.

A primeira coisa que se nota não é uma melodia. É uma sensação — a atmosfera de um estúdio a altas horas da noite, o tipo de lugar onde o tempo parece abrandar e os músicos deixam de tocar «numa faixa » para começarem a tocar «dentro dela». O trombone de Suzuki conduz não com força, mas com timbre: redondo, sem pressa, com confiança suficiente para deixar espaço que outros músicos possam preencher. É nessa contenção que reside o luxo do álbum.

«Shrimp Dance», a faixa de abertura, traz uma mudança imediata de atmosfera. O contrabaixo avança com aquele tipo de autoridade descontraída que só o jazz japonês dos anos 70 conseguia evocar, enquanto o Fender Rhodes cintila como a luz sobre um chão envernizado. O trombone de Suzuki não domina; desliza. Apresenta a tese central do álbum: clareza sem agressividade, presença sem imposição.

Mas é na faixa-título, «Cat», que o álbum revela toda a sua dimensão. A faixa flui com a graça do seu homónimo — linhas fluidas, transições elegantes, uma secção rítmica que nunca se apressa. O ambiente é acolhedor, mas não suave; refinado, mas nunca estéril. Parece uma atuação privada, do tipo que se ouviria num canto de um bar mal iluminado, onde um punhado de pessoas se reuniu não pelo espetáculo, mas pelo som.

«Walk Tall» traz um tipo diferente de confiança — um ritmo mais dinâmico, mas ainda assim impecavelmente controlado, ainda assim espaçoso, ainda assim ancorado no tom inconfundível de Suzuki. O que caracteriza este álbum do início ao fim é o equilíbrio. Nada é exagerado. Nada é forçado. Cada nota parece ter sido colocada com o mesmo cuidado que se dedicaria à decoração de uma divisão.

E talvez seja por isso que «Cat» se destaca nos bares onde se ouve música. É um álbum concebido para ambientes onde a atenção é a moeda de troca — onde o sistema de som, a iluminação e a temperatura da noite se combinam para tornar a música uma experiência física. Quando reproduzido num bom sistema de som, o álbum desenrola-se como uma conversa: discreto, elegante e absolutamente cativante.

Hiroshi Suzuki gravou «Cat» numa altura em que o jazz japonês estava a florescer e a tornar-se algo distinto — inspirando-se nas tradições americanas, mas infundindo-lhes uma precisão, uma amplitude e uma pureza tonal que viriam a tornar-se a sua marca distintiva. O que ele captou não foi apenas uma sessão, mas um estado de espírito. Um estilo de escuta que estava a surgir muito antes de a expressão «bar de escuta» existir.

Ouvir o álbum hoje — especialmente através da perspetiva de um bar de música em Paris, como um leitor o descreveu esta semana — faz-nos lembrar o poder duradouro de um som bem trabalhado. A forma como um único disco pode marcar um momento. A forma como a música consegue congelar o tempo o tempo suficiente para nos darmos conta de que estamos dentro dela.

«Cat» não é apenas um disco de jazz. É uma atmosfera.
Uma sala em que se entra.
Uma memória à espera do seu próximo ouvinte.


Perguntas rápidas

O que torna o Cat tão especial?
A sua contenção, o seu calor e a clareza arquitetónica dos seus arranjos — uma verdadeira lição de elegância do jazz japonês.

Porque é que funciona tão bem em bares de audição?
Porque recompensa a atenção: um som rico, um espaço equilibrado e um ambiente que se intensifica em sistemas de alta fidelidade.

Ainda é relevante?
Sem dúvida. Parece intemporal — moderno na textura, clássico na estrutura e que dá para jogar infinitas vezes.

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Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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