Blue Lines – Massive Attack (1991)
O peso por baixo do sulco
Por Rafi Mercer
Às vezes, quando um disco começa a tocar, a conversa simplesmente cessa. Não porque esteja alto ou seja avassalador, mas porque a sala parece sucumbir à sua gravidade. É isso que acontece quando começa a tocar «Blue Lines ». Pode até nem dar por isso à primeira vista — a linha de baixo entra suavemente, lenta, sem pressa, confiante — mas, em poucos segundos, a sala parece diferente. As pessoas recostam-se um pouco. As cabeças balançam. Alguém sorri. O ambiente torna-se mais denso, mas no bom sentido.
O álbum «Blue Lines», dos Massive Attack, é um daqueles álbuns que redefiniu a forma como a música moderna poderia ser sentida, sem nunca o proclamar aos quatro ventos. Lançado em 1991, chegou discretamente de Bristol, trazendo consigo algo que era ao mesmo tempo antigo e novo — soul, dub, hip hop, música eletrónica, tudo fundido num som que parecia chuva a cair sobre betão quente. Era um ritmo no qual nos podíamos imergir, música que não avançava, mas que afundava, procurando o peso em vez da velocidade.
O trio por trás deste projeto — Robert «3D» Del Naja, Grant «Daddy G» Marshall e Andrew «Mushroom» Vowles — não estava a seguir tendências. Estavam a criar uma atmosfera. Isso percebe-se logo na primeira faixa, «Safe From Harm», com a sua linha de baixo profunda e repetitiva e a voz de Shara Nelson a destacar-se como a luz através do nevoeiro. Não é apenas uma canção; é um ambiente. Cada batida da caixa tem espaço à sua volta, cada sample parece respirar.
«One Love» e «Be Thankful for What You’ve Got» transmitem essa mesma sensação de um ritmo firme — reggae, soul e ritmos de rua fundidos num só. Não há nada de apressado. Os Massive Attack nunca tiveram pressa. O seu sentido do tempo é a sua genialidade: cada faixa assenta na sua própria gravidade, lenta mas inevitável, como um batimento cardíaco contra o qual não se pode argumentar. «Unfinished Sympathy» continua a ser a obra-prima — as cordas a elevar-se, a voz de Nelson a doer, a batida a avançar firmemente por baixo de tudo. É simultaneamente monumental e frágil, uma das poucas canções capazes de encher uma sala e partir-te o coração ao mesmo tempo.
O álbum foi criado com os instrumentos da época — samplers, sequenciadores, gravadores de cassete —, mas o que o distingue é a contenção. Há espaço por todo o lado. Os silêncios são tão importantes quanto os sons. Trata-se de música construída não com base no virtuosismo, mas na curadoria: como se combina, onde se coloca, o que se omite. É isso que faz de *Blue Lines* não apenas um disco da sua época, mas um modelo para as décadas que se seguiram.
Se ouvirmos com atenção, percebe-se uma ligação discreta entre este álbum e muitos dos que se seguiram — desde a introspecção com ritmos fragmentados de *In Colour* até à melancolia textural de *Untrue*. Tanto Jamie xx como Burial devem algo ao espaço que os Massive Attack criaram aqui: música que se move através da contenção, da atmosfera e do peso subjacente ao groove.
No bar de audição, «Blue Lines» tem o seu próprio sistema meteorológico. Os graves são pesados, mas nunca excessivos. A bateria parece ter sido construída à mão, como se fosse feita de madeira em vez de circuitos eletrónicos. A voz de Nelson em «Unfinished Sympathy» flutua entre as colunas com uma graciosidade quase física. É um álbum que se aprecia melhor numa sala com pouca luz — o tipo de espaço onde todos ouvem sem dar a impressão de que estão a esforçar-se para o fazer.
Há também uma verdade cultural neste álbum. Bristol, no final dos anos 80 e início dos anos 90, era uma encruzilhada — a cultura dos sound systems, o punk DIY, o pós-soul e o reggae. Os Massive Attack pegaram nessa identidade local e transformaram-na numa atmosfera global. O que outros poderiam ter chamado de trip-hop, eles chamavam simplesmente de «casa». O termo nunca lhes assentou bem. A música deles não era um género; era geografia.
Ao ouvi-lo agora, o «Blue Lines» continua a parecer surpreendentemente moderno. Os seus ritmos lentos e as texturas repletas de dub anteciparam toda a geração do downtempo — os Zero 7, os Tosca, os Bonobo. Mas enquanto muitos desses álbuns posteriores parecem flutuar, o «Blue Lines» tem peso. Sente-se no peito, no pulso de «Five Man Army», no estrondo de «Lately». É tátil. É físico.
Já ouvi este álbum em tantos sítios que nem consigo contar, e todas as vezes que o faço, a atmosfera muda. Talvez seja esse o verdadeiro teste do groove: não precisa de ser rápido para nos tocar profundamente. «Blue Lines» é música lenta para pessoas em movimento — o batimento cardíaco da cidade às 3 da manhã, ruas mal iluminadas, a chuva a refletir as luzes de néon.
E talvez seja por isso que ainda adoro isto. Faz-me lembrar que o ritmo pode ser suave, que a intensidade pode ser serena e que os melhores discos não gritam para chamar a atenção — criam um espaço, e a gente simplesmente entra nele.
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