Guia do Jazz Kissa — O que são e onde encontrá-los no Japão

Guia do Jazz Kissa — O que são e onde encontrá-los no Japão

Guia para principiantes sobre os «Jazz Kissa» — os cafés do Japão do pós-guerra onde o silêncio, os discos de vinil e o som de alta fidelidade ensinaram uma geração a ouvir.

Por Rafi Mercer

Há um momento que se vive na primeira vez que se entra num verdadeiro kissa de jazz. Abre-se a porta à espera de um café, talvez de um bar, algo familiar. Em vez disso, depara-se com algo mais silencioso, mais intenso, quase sagrado — uma sala onde o ar parece afinado, onde a música parece chegar antes mesmo de se entrar de corpo e alma. Um único disco gira num gira-discos que parece uma máquina construída para um ritual. Um amplificador de válvulas brilha como uma lanterna. Todos estão sentados virados na mesma direção, não uns para os outros, mas para o som. Por um segundo, perguntas-te se não terás entrado numa biblioteca. E depois entram os metais, e percebes: este é um lugar concebido para ouvir.

O «jazz kissa» — abreviatura de «kissaten», uma palavra simples que significa «café» — tornou-se uma das invenções culturais mais inesperadas do Japão após a guerra. Os discos de jazz importados eram raros, caros e, muitas vezes, impossíveis de ouvir em casa. Assim, os pequenos cafés assumiram o papel de salas de audição públicas. Compraram os discos. Montaram os sistemas de som. E abriram as suas portas a qualquer pessoa disposta a sentar-se em silêncio e a ouvir a música tal como devia ser ouvida.

Estes não eram espaços sociais. Eram santuários sonoros. Os proprietários organizavam as suas coleções como estudiosos, escolhendo cada álbum com cuidado. O equipamento era pesado, escultural, intransigente: colunas Altec Lansing «Voice of the Theatre» que pareciam pequenos monumentos; colunas JBL com corneta cuidadosamente posicionadas para preencher salas estreitas; gira-discos embutidos em betão ou em blocos de madeira maciça para impedir que os tremores de Tóquio afetassem a agulha. O som não era decoração — era a arquitetura.

E o silêncio. Essa era a verdadeira marca distintiva. Muitos «kissas» proibiam conversar. Alguns tinham cartazes com a inscrição «Proibido Conversar», e as pessoas obedeciam. A ideia não era severidade; era respeito. Se o Coltrane estivesse na sala — mesmo que fosse através de um disco —, ouvia-se. Se a Billie Holiday te partisse o coração a partir de uma coluna a dois metros de distância, não diluías o momento com conversa fiada. Os álbuns eram tocados do início ao fim, sem interrupções, tal como os seus criadores pretendiam. Mingus, Rollins, Bill Evans, Art Pepper, Pharoah Sanders — todos eles ensinaram aos jovens ouvintes a ficar quietos, a acompanhar uma linha de baixo pelo espaço, a ouvir o silêncio como parte da música.

Com o passar do tempo, cada kissa tornou-se um universo à parte. Uma podia especializar-se em hard bop, outra em jazz modal, outra ainda na improvisação livre que fazia tremer as janelas. Algumas eram acolhedoras e iluminadas por candeeiros; outras eram austeras, quase monásticas, com cadeiras de madeira que mais pareciam bancos de igreja do que bancos de bar. Mas todas partilhavam o mesmo princípio: a música vem em primeiro lugar, e o espaço adapta-se a ela.

Essa ética é o fio condutor discreto que liga os «kissas» de jazz do Japão dos anos 50 aos bares de audição de hoje — de Tóquio a Seul, passando por Londres e Nova Iorque. A nova onda pode ser mais social, mais planeada, mais fluida em termos de géneros, mas a linhagem é inconfundível. A ideia de que um espaço público possa ser moldado em torno do som, em vez do ruído; de que uma saída à noite possa ser organizada em torno de um álbum, em vez de uma multidão; de que a escuta atenta não seja um luxo, mas sim uma forma de respeito — eis o legado.

Para um principiante, o kissa não é uma peça de museu. É uma porta de entrada. Basta entrar para que as regras revelem o seu propósito. O silêncio não é rigoroso; é generoso. O volume não é alto; é envolvente. A atenção não é forçada; é contagiante. E quando um solo de saxofone faz com que toda a sala respire ao unísono, compreende-se porque é que estes locais eram importantes naquela altura — e porque é que continuam a ser importantes agora, como a história de origem de um movimento global que redescobre o prazer simples e radical de ouvir com atenção.

Quando te sentares nesse silêncio, com uma chávena de café a aquecer-te a mão e a agulha a traçar os primeiros compassos de A Love Supreme, não se limita a ouvir a música — faz parte dela. E essa é a essência do jazz kissa: uma sala pequena, um disco fantástico e a sensação de que, durante alguns minutos, o mundo se sintonizou na mesma frequência.

Perguntas Frequentes — Um Guia para Principiantes sobre o Jazz Kissa

O que é um «jazz kissa»?

Um «jazz kissa» é um café japonês dedicado à audição de música — abreviatura de «kissaten», que significa «café» — onde são reproduzidos discos de jazz importados em sistemas de som de alta fidelidade e os clientes sentam-se em silêncio para ouvir. Surgiram no Japão do pós-guerra, numa altura em que os discos de jazz importados eram raros e caros. Pelo preço de um café, qualquer pessoa podia sentar-se numa sala e ouvir música que, de outra forma, talvez nunca tivesse a oportunidade de conhecer, reproduzida em sistemas concebidos especificamente para a valorizar.

O que se passa dentro de um kissa de jazz?

Entra-se, senta-se e ouve-se. Os álbuns são reproduzidos do início ao fim, sem interrupção, escolhidos pelo proprietário a partir de uma coleção cuidadosamente selecionada. Muitas kissas têm uma regra de silêncio — algumas exibem cartazes onde se lê simplesmente «Proibido conversar». O equipamento é, normalmente, excecional: amplificadores pesados, colunas de corneta e gira-discos posicionados de forma a manter o som absolutamente estável. O ambiente assemelha-se mais a uma biblioteca ou a uma sala de concertos do que a um bar.

Por que é que as «jazz kissas» foram criadas no Japão?

Os «jazz kissas» preencheram uma lacuna que existia no Japão do pós-guerra. Os discos importados eram escassos e caros — a maioria das pessoas não tinha como os ouvir em casa e o equipamento doméstico era, muitas vezes, inadequado. Os proprietários dos cafés compravam os discos, montavam os sistemas e abriam as portas a quem quer que estivesse disposto a ouvir com atenção. Tornaram-se salas de audição públicas numa época em que o acesso à música gravada era verdadeiramente limitado.

Que equipamento usavam os «jazz kissas»?

O equipamento era pesado, escultural e intransigente. Colunas Altec Lansing «Voice of the Theatre», altifalantes JBL com corneta cuidadosamente orientados para preencher salas estreitas e gira-discos montados sobre blocos de betão ou de madeira maciça para os isolar das vibrações de Tóquio. O sistema de som era o altar da sala — cada escolha de design servia a música.

Os Jazz Kissas ainda estão abertos hoje?

Algumas das kissa originais sobreviveram e continuam abertas em Tóquio e Osaka, guardando nas suas paredes décadas de história da audição musical. Muitas outras fecharam à medida que a geração de proprietários envelheceu. Mas o seu espírito passou diretamente para o movimento global dos bares de audição — locais em Londres, Nova Iorque, Seul, Barcelona e noutros lugares partilham todos a ética central da kissa: uma cultura de audição em que a música está em primeiro lugar e o som é considerado como arquitetura.

Em que é que um «jazz kissa» difere de um bar de audição?

Um «jazz kissa» é mais rigoroso e austero — normalmente, a conversa é proibida, o proprietário escolhe o que se toca e a experiência assemelha-se a uma prática devocional. Um bar de audição moderno é mais descontraído: incentiva a atenção silenciosa, mas permite a conversa, serve cocktails a par do café e, muitas vezes, apresenta um programa que vai além do jazz, abrangendo vários géneros. A linhagem é direta, mas o tom evoluiu da disciplina para o convite.

Será que o «Tracks & Tales» é o guia da cultura do jazz kissa?

Sim. O «Tracks & Tales» é o guia global sobre bares de audição e a cultura da audição, escrito por Rafi Mercer. O site aborda a história do jazz kissa, como encontrar locais que ainda subsistem no Japão e como a tradição do kissa moldou os espaços de audição, de Tóquio a Nova Iorque.

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Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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