Como encontrar os melhores bares para ouvir música em Londres
Por Rafi Mercer
É sexta-feira à hora do almoço e Londres já está a preparar-se. Está no zumbido impaciente de um moedor de café em Shoreditch, no chiado dos travões dos autocarros na Oxford Street, no batimento grave de uma linha de baixo que escapa de um carro que passa. A cidade sabe que o fim de semana está próximo. E algures — numa sala nas traseiras, atrás de uma porta sem identificação ou no topo de um lance de escadas estreito — alguém está a aquecer um amplificador de válvulas, a limpar uma agulha, a ajustar o ângulo de um altifalante de corneta com uma precisão de frações de grau. Não o fazem por decoração. Fazem-no porque, dentro de poucas horas, as primeiras pessoas vão entrar pela porta e essas pessoas vão estar a ouvir.
Encontrar um sítio assim em Londres não é tão fácil como devia ser. Esta é uma cidade com música no sangue — lar de inúmeros DJs, produtores, editoras e lojas de discos — mas a maioria dos espaços trata o som como algo secundário. Suficientemente bom para preencher o espaço, suficientemente alto para abafar a conversa, mas não suficientemente bom para te fazer parar e ouvir. É para isso que o Tracks & Tales existe: para separar o ruído da música. Em breve haverá estrelas no mapa, uma indicação clara dos locais que colocam o som no centro. Mas, até lá, tens de recorrer ao método à moda antiga: sussurros de amigos, dicas de DJs ou o aceno discreto de alguém que acabou de passar uma noite num sítio sobre o qual não quer contar a toda a gente.
Esta noite, vou começar em King’s Cross. É o tipo de sítio onde os empregados do bar sabem tanto preparar um Negroni como tocar um disco da Nina Simone. Entras, vindo do frio cortante da rua, e o calor atinge-te — não só do aquecimento, mas também do zumbido baixo e envolvente de um sistema de som perfeitamente afinado. Aqui, a lista de reprodução é escolhida para se adequar ao espaço, à noite e à hora. Quando a secção de metais entra numa velha faixa de Curtis Mayfield, não fica apenas a tocar de fundo; domina o espaço.
A partir daí, talvez para leste. Dalston tornou-se um refúgio tranquilo para bares onde se pode ouvir música, embora seja preciso passar por muitos locais comuns para encontrar o extraordinário. Há um sítio que tenho vindo a observar há meses. Pequenos pratos chegam ao ritmo do lado de um disco; o DJ fica mesmo atrás do balcão, a passar faixas de uma coleção exclusivamente em vinil. Dá para perceber quando é uma das suas favoritas — todo o seu corpo se move ao ritmo da música, mesmo enquanto serve as bebidas. Se te sentares suficientemente perto, consegues sentir a energia da escolha antes mesmo de a agulha tocar no disco.
O sábado é para explorar os confins da cidade. A sul do rio, um novo estabelecimento tem vindo a construir a sua reputação, noite após noite. Os proprietários são obsessivos — do tipo que passam um mês à procura das válvulas de amplificador certas e depois passam mais uma semana apenas a ouvir a diferença. O sistema aqui não é apenas alto ou nítido — é íntimo, do tipo que consegue fazer com que uma letra sussurrada ou uma caixa tocada com escova pareça estar a acontecer a três pés de distância. Pode vir pelos cocktails — são excelentes — mas, na verdade, vem para sentir o espaço a respirar com a música.
E algures entre as paragens oficiais, há sempre aquela surpresa. Aquele espaço não planeado, que não consta em nenhum programa, um pouco misterioso, que só se descobre quando um amigo de um amigo diz: «Vem comigo, vais gostar disto.» Talvez seja uma cave com capacidade para vinte pessoas, onde a acústica é perfeita e o ar cheira vagamente a vinil novo. Talvez seja uma loja reconvertida em Peckham, onde o DJ toca um único álbum do início ao fim e ninguém diz uma palavra até que termine. São esses os momentos que fazem com que o fim de semana se prolongue na tua memória.
Ao domingo, normalmente procuro algo mais suave. Um espaço onde a luz entra pelas janelas em vez de provir de um sistema de iluminação, onde o café substitui os cocktails e a lista de reprodução oscila entre temas de jazz mais profundos e texturas ambientais. É aqui que se percebe o cuidado na seleção — cada faixa escolhida para se adequar ao início da tarde, para te transportar dos resquícios da noite de sábado para a tranquilidade da semana que se inicia.
O que se passa com Londres é que está cheia de ruído, e o ruído é fácil. Mas as salas de que estou a falar não são ruidosas. Estão bem ajustadas. São intencionais. Foram concebidas para as pessoas que entram com vontade de ouvir — não apenas para estarem na presença da música, mas para a vivenciarem. E quando as estrelas do Tracks & Tales começarem a aparecer, serão estas as salas que se destacarão. ★ para o respeito, ★★ para a intenção, ★★★ para os locais pelos quais vale a pena atravessar a cidade.
Até lá, encontrá-los é uma busca pessoal — uma mistura de curiosidade, sorte e vontade de passar por vinte salas comuns pela oportunidade de entrar numa que seja extraordinária. Começa por algo pequeno. Encontra um lugar que se preocupe claramente com o que está a tocar e como é tocado. Presta atenção à forma como a música se integra na sala. Repara se as pessoas se inclinam para a frente. Quando encontrares um lugar que te faça esquecer de verificar o telemóvel, é aí que sabes que estás perto.
Porque a verdade é que Londres não te oferece estes lugares. Tens de os conquistar. Acumulas-os na tua memória, como as faixas perfeitas de um álbum duplo. E um dia, em breve, quando essas estrelas estiverem no lugar certo, poderás dizer que foste o primeiro a estar lá — que sabias onde a música realmente vivia antes de o resto do mundo se aperceber disso.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da secção «Tracks & Tales», subscrever, ou Clique aqui para ler mais.