Dubai: Bares de audição — Luz do deserto e precisão sonora
Por Rafi Mercer
O Dubai sempre se moveu em superlativos. A torre mais alta a perfurar a luz do deserto, o maior centro comercial a engolir bairros inteiros, as mais longas faixas de costa recuperada a estenderem-se até ao Golfo. Durante décadas, a sua banda sonora espelhou a sua linha do horizonte — alta, implacável, espetacular. Música eletrónica de estádio, atuações de DJs em terraços, discotecas de hotéis concebidas para o excesso. O volume tornou-se sinónimo de energia. Mas, nos últimos anos, a cidade tem vindo a reajustar-se discretamente. Por trás de fachadas espelhadas e portas de armazém, está a surgir um tipo diferente de espaço — íntimo, preciso e construído não para o espetáculo, mas para a audição.
Basta entrar num destes espaços para que o contraste seja imediato. Lá fora, as autoestradas vibram com o peso do tráfego, as gruas percorrem horizontes que parecem renovar-se a cada mês. Lá dentro, uma sala com iluminação suave, onde as proporções importam mais do que a altura, um sistema de alta fidelidade a brilhar no centro, uma bebida servida com cuidado, um disco a ganhar vida na escuridão. Numa cidade construída à grande escala, a intimidade tornou-se uma espécie de luxo.
As influências são evidentes — os «kissaten» de Tóquio, os lounges minimalistas de Berlim, os bares de alta fidelidade de Londres — mas no Dubai assumem um toque diferente. As bebidas têm um caráter internacional: whiskies japoneses raros ao lado de cocktails de açafrão, tâmaras dos Emirados incorporadas em «mezcal sours». A programação é igualmente global, um reflexo da própria cidade: do afrobeat ao jazz árabe, da música eletrónica ambiente ao funk dos anos 70, da cumbia ao house das Baleares. Esta é uma cidade que ouve tal como vive: como uma encruzilhada.
No centro da cidade, onde o Burj Khalifa projeta a sua sombra sobre todas as superfícies, um lounge revestido de índigo oferece uma calma quase subterrânea. O sistema é composto por colunas com câmara de corneto e amplificadores McIntosh, ajustados para privilegiar o detalhe em vez da potência. Um seletor passa da bossa nova brasileira para Coltrane sem aumentar o volume, e a sala parece inclinar-se para a frente, expirando em uníssono. Em Palm Jumeirah, no meio de hotéis construídos para impressionar, um bar minimalista reduz tudo ao gesso e à geometria. Uma única parede de vinil funciona simultaneamente como biblioteca e escultura, sendo cada disco selecionado com o mesmo cuidado que a própria arquitetura. As seleções musicais fluem com naturalidade — do oud à música eletrónica, do estilo balearico à tropicalia —, lembrando-nos que esta é uma cidade situada entre continentes.
Mais ao longe, em Al Quoz, onde se aglomeram armazéns e galerias de arte, um café chamado Karak & Vinyl combina as obsessões do Dubai pelo chá e pela música. Durante o dia, chávenas esmaltadas de chai fumegam nos balcões de madeira; à noite, os gira-discos surgem, as luzes baixam e a multidão reorganiza-se em torno do som. A programação é democrática e exploratória — jazz etíope numa noite, deep dub na seguinte, um disco obscuro na noite seguinte. A acústica, suavizada por quadros em tela e tapetes, faz com que até as faixas mais cortantes pareçam acolhedoras. Estudantes, financistas, artistas e expatriados partilham as mesmas mesas. É, à sua maneira, o espaço mais típico de Dubai: diversificado, ambicioso, sempre em evolução.
O que importa nestes bares não é apenas a música, mas o que eles dizem sobre a própria cidade. Durante anos, o Dubai mediu o luxo em termos de escala — o mais alto, o maior, o mais barulhento. Estes espaços sugerem outra forma de medir. Sugerem que o luxo pode estar na contenção, que a presença tem o seu próprio valor, que a fidelidade é uma forma de riqueza. Lembram-nos que o silêncio faz parte da música, que o detalhe faz parte do design e que ouvir é uma forma de arquitetura.
No deserto, a noite cai rapidamente. O calor abranda, o horizonte começa a brilhar e a energia da cidade transforma-se. É nesse momento que estes espaços ganham todo o seu sentido. O espetáculo pode esperar lá fora. Lá dentro, senta-se, pede uma bebida e deixa a agulha cair. Pela primeira vez, numa cidade obcecada pela altura e pela velocidade, limita-se a ouvir.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para saber mais.