Fukuoka: Bares para ouvir música — O calor de uma cidade portuária e a fidelidade íntima

Fukuoka: Bares para ouvir música — O calor de uma cidade portuária e a fidelidade íntima

Por Rafi Mercer

Fukuoka é a porta de entrada do sul do Japão, uma cidade portuária mais próxima de Seul e Xangai do que de Tóquio. O seu carácter sempre foi voltado para o exterior: um local de comércio, de intercâmbio e de hospitalidade calorosa. A gastronomia define a sua reputação — o ramen de Hakata, as barracas «yatai» que se espalham pelas ruas —, mas também a música sempre circulou livremente por aqui, trazida por navios e viajantes. É neste contexto que os bares de música de Fukuoka prosperam: íntimos, acolhedores, com uma seleção musical cuidada, mas sem austeridade.

A tradição é bem conhecida. Tal como Tóquio, Osaka e Quioto, Fukuoka desenvolveu uma rede de «kissaten» de jazz nas décadas do pós-guerra. Estudantes e trabalhadores reuniam-se em pequenas salas para ouvir discos de vinil importados que não tinham meios para comprar. Essa tradição, agora atualizada, está na base da atual cultura audiófila da cidade. Mas enquanto Tóquio nos proporcionou precisão e Osaka exuberância, Fukuoka oferece calor humano: bares que parecem extensões da sala de estar, onde o som e a hospitalidade se entrelaçam.

Entre os mais apreciados está o Jazz Inn New Combo, fundado em 1979, que continua a apresentar jazz ao vivo a par de sessões de «deep listening». O seu ambiente é descontraído, mas respeitoso, um local onde os habitantes locais se misturam com músicos visitantes. O Bar Martha Fukuoka espelha os seus homólogos de Tóquio e Osaka, mas adapta o modelo à cordialidade de Kyushu: os funcionários conversam mais, o uísque corre à vontade e os discos rodam com menos formalidade. Outros espaços escondidos em Tenjin e Daimyo seguem o mesmo padrão — compactos, repletos de discos de vinil, iluminados por amplificadores de válvulas, onde estranhos rapidamente se tornam companheiros.

O que caracteriza os bares de música de Fukuoka é a sua hospitalidade. Os sistemas de som são de primeira qualidade — altifalantes JBL, monitores Altec, amplificadores japoneses personalizados —, mas o ambiente é despretensioso. Os clientes são recebidos não em santuários de silêncio, mas em salões acolhedores. Pode estar a tocar um disco de Coltrane, mas também pode ser city pop japonês ou samba brasileiro, com os DJ a transitarem com fluidez entre géneros, de uma forma que reflete a abertura desta cidade portuária.

O design é igualmente acessível. Os bares são de dimensões modestas, muitas vezes situados por cima de restaurantes ou atrás de portas estreitas, com interiores revestidos de madeira e discos, em vez de elementos de design sofisticados. O ambiente acolhedor não provém apenas do som, mas também das pessoas: os barmen que apresentam as faixas, os clientes que recomendam um disco, a sensação de que não se está apenas num bar, mas sim numa comunidade.

A nível global, Fukuoka é importante porque nos lembra que um bar de audição não se resume apenas ao rigor ou ao espetáculo. Pode também ser sinónimo de acolhimento. Estes espaços transportam a fidelidade japonesa para um registo mais descontraído, demonstrando que o som de alta qualidade e a convívio do dia-a-dia não são opostos, mas sim companheiros.

Sente-se numa destas salas, talvez depois de uma taça de ramen de Hakata, com um copo de uísque na mão, enquanto uma linha de baixo de Mingus ressoa através de instrumentos de sopro vintage, e sentirá a essência de Fukuoka. Ouvir música aqui não é algo sofisticado. É generoso, acolhedor e partilhado — tal como a própria cidade.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscreva aqui, ou clique aqui para ler mais.

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