Joanesburgo: «Listening Bars» — Baixo, Memória e Intensidade Urbana
Por Rafi Mercer
Joanesburgo é uma cidade de gravidade. O ouro construiu-a, a migração moldou-a, a luta definiu-a. A sua banda sonora sempre carregou esse peso: o mbaqanga a ecoar pelas ruas das townships, o kwaito a ressoar dos táxis nos anos 90, o amapiano que agora se espalha pelas discotecas de todo o continente. Esta é uma cidade que ouve coletivamente — a música como memória, como protesto, como alegria. Neste contexto, os bares de audição surgiram como santuários dedicados, criando intimidade a partir da intensidade.
As raízes encontram-se na cultura do vinil e dos DJs de Joanesburgo. Lojas de discos como a Afrosynth Records preservaram a música disco, o funk e o bubblegum sul-africanos quando o interesse global já tinha diminuído, tendo as suas coleções contribuído mais tarde para um renascimento. Colecionadores, DJs e produtores — desde os «selectors» das townships até nomes de renome mundial — criaram arquivos que exigiam uma audição atenta. Junte isto à cultura dos bares de Joanesburgo e ao seu apetite pela vida noturna, e a cidade estava pronta para as salas de alta fidelidade.
Entre os exemplos mais notáveis destaca-se o Mr Vinyl, que é em parte loja de discos e em parte salão de alta fidelidade, onde os arquivos de jazz e funk sul-africanos são reproduzidos com o mesmo cuidado que os clássicos internacionais. O Orbit, outrora uma instituição do jazz, abriu caminho para noites dedicadas à audição antes do seu encerramento, e a sua influência persiste em bares mais pequenos e espaços pop-up. Espaços mais recentes em Braamfontein e Maboneng — frequentemente ligados a centros criativos e galerias — experimentam agora sistemas que equilibram a fidelidade sonora com o convívio social.
O que distingue os bares de música de Joanesburgo é a sua relação com os graves e a memória. Os sistemas são concebidos para transmitir profundidade — linhas de baixo que podem fazer eco das tradições do amapiano e do house —, mas também clareza para o jazz e o soul. Colunas JBL vintage, subwoofers feitos à medida e amplificadores de válvulas assumem um papel de destaque, muitas vezes combinados com a criatividade sul-africana na afinação. O resultado é um som que transmite uma sensação de solidez, fisicalidade e ressonância.
A curadoria baseia-se fortemente no arquivo musical da África do Sul. Dollar Brand, Miriam Makeba, Bheki Mseleku, Hugh Masekela e discos de disco de 12 polegadas há muito esquecidos rodam ao lado de Fela Kuti, Coltrane ou Moodymann. O fluxo tem raízes locais, mas é global, refletindo o papel de Joanesburgo como motor local e centro continental.
O design é eclético, muitas vezes improvisado. Armazéns de tijolo, lofts transformados em galerias ou lojas reconvertidas acolhem estes bares, cujos interiores transmitem aconchego graças à madeira, aos tecidos e às capas de discos. Os espaços transmitem uma sensação de vida, sem serem demasiado polidos — fiéis ao espírito de reinvenção de Joanesburgo.
A nível global, Joanesburgo é importante porque demonstra como os espaços de audição prosperam em cidades marcadas pela intensidade e pelo património. Estes espaços não são distrações de luxo, mas sim âncoras culturais: locais onde os arquivos ganham vida, onde a fidelidade torna a memória tangível.
Sente-se num bar de hi-fi em Maboneng, com uma Castle Lager na mão, enquanto um disco de boogie sul-africano há muito esquecido se mistura com as linhas de baixo do amapiano, e compreenderá a dádiva que é Joanesburgo. Ouvir música aqui não é uma fuga, mas sim uma afirmação — a música como história, a música como futuro, a música como pulso.
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