Lagos: Bares de música — O legado do afrobeat e a energia sonora
Por Rafi Mercer
Lagos é uma cidade que vive a todo o volume. As buzinas dos carros enchem o ar, os mercados de rua fervilham com conversas, o Atlântico ruge contra a Praia de Bar e a música impregna cada recanto — desde o afrobeats nos táxis aos coros de gospel que saem das igrejas, desde as bandas de highlife nos hotéis aos DJs que agitam a Ilha de Victoria até ao amanhecer. Viver em Lagos é viver no ritmo. A ascensão dos bares de audição aqui pode parecer improvável num ambiente tão dinâmico, mas, na verdade, é uma extensão natural: espaços íntimos onde a energia incansável da cidade é canalizada e concentrada, onde o legado do afrobeat se alia à fidelidade audiófila.
As raízes encontram-se na história do vinil da Nigéria. Entre os anos 60 e os anos 80, Lagos foi o centro da indústria discográfica da África Ocidental. A República de Kalakuta, de Fela Kuti, definiu o afrobeat, enquanto Sunny Ade, Ebenezer Obey e inúmeros artistas de highlife e juju gravaram discos que viajaram por todo o mundo. Embora a indústria tenha entrado em declínio na década de 90, caixas de vinil sobreviveram, tanto em Lagos como no estrangeiro. Nos últimos anos, feiras de discos, colecionadores e DJs reacenderam o interesse, tornando Lagos um terreno fértil para uma cultura centrada na audição.
Entre os locais de destaque destaca-se a Bogobiri House, um centro cultural em Ikoyi onde a música ao vivo, os discos de vinil e os encontros de audição de alta fidelidade se misturam frequentemente. O Jazzhole, uma livraria e café, funciona também como espaço de audição, com um vasto arquivo de música nigeriana e internacional reproduzido num sistema de som acolhedor. Bares mais recentes em Lekki e na Ilha de Victoria — alguns ligados a coletivos criativos — começaram a experimentar este modelo, combinando cocktails, design e uma seleção de discos de vinil.
O que distingue os bares de audição de Lagos é a sua ligação ao património e à intensidade. Os sistemas de som são concebidos para oferecer potência e calor — capazes de reproduzir com peso os metais de Fela e a bateria de Tony Allen —, mas também ajustados para captar os pormenores. Os espaços são intimistas, muitas vezes com um design eclético: prateleiras de madeira, livros, têxteis, obras de arte. Os clientes conversam, riem-se, dançam ligeiramente, mas quando um disco atinge o seu clímax, toda a sala fica em silêncio.
A curadoria tem as suas raízes nos arquivos da Nigéria. O afrobeat, o highlife, o juju e o funk convivem com o reggae, o jazz americano, o samba brasileiro e a música eletrónica contemporânea. O resultado é simultaneamente local e global, um diálogo entre o património de Lagos e o seu futuro cosmopolita.
A nível mundial, Lagos é importante porque personifica a forma como o ambiente de escuta prospera nas capitais musicais caracterizadas pela energia. Aqui, a fidelidade não significa silêncio absoluto. Significa clareza no meio da intensidade, uma forma de ouvir o património como algo presente e vivo.
Sente-se no Jazzhole com um café ou no Bogobiri com vinho de palma, enquanto um disco do Fela dá lugar a Coltrane ou a Mulatu Astatke, e compreenderá a contribuição de Lagos. Ouvir música aqui não é um refúgio. É uma celebração aguçada pela concentração — um espelho da própria cidade.
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