Erik Satie – Gymnopédies (1888)
Por Rafi Mercer
Poucas obras alcançaram a ubiquidade mantendo, ao mesmo tempo, o mistério, mas as «Gymnopédies» de Erik Satie ocupam exatamente esse espaço paradoxal. Compostas em 1888, estas três miniaturas para piano são enganosamente simples: melodias lentas, harmonias suavemente não resolvidas, um andamento flutuante que dá a sensação de que a música está meio adormecida. No entanto, na sua brevidade reside uma profundidade que cativa os ouvintes há mais de um século. Antecipam o minimalismo em décadas, ressoam com o impressionismo e encarnam algo inefável que parece estar sempre fora do nosso alcance.
No vinil, o sustain de cada acorde não é apenas ouvido, mas sentido. As peças são suficientemente lentas para que nos tornemos conscientes da própria ressonância — o som das cordas a vibrar na madeira, o som da sala a responder. São, na verdade, atmosferas mais do que peças, alterando a perceção com apenas um punhado de notas. Num bar de audição, as «Gymnopédies» funcionam como alquimia. A conversa vai-se acalmando, o ritmo abranda e os ouvintes dão por si a entrar num devaneio partilhado.
O que as faz perdurar é a sua recusa em chegar a um desfecho. Cada frase vai-se esmorecendo, como se não quisesse terminar, como se te deixasse suspenso nos teus pensamentos. São ao mesmo tempo melancólicas e ternas, modernas e antigas. O próprio Satie era um malandro, um provocador, mas nestas peças ofereceu uma sinceridade despida de floreados. Basta colocar a agulha no disco e a noite parece relaxar, respirar de forma diferente, como se o mundo tivesse concordado em fazer uma pausa para ouvir três curtas peças de música para piano que parecem infinitas.
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Meta Descrição: As «Gymnopédies» de Erik Satie (1888) — peças intemporais para piano, marcadas pela melancolia e pela contenção, um minimalismo precoce que continua a redefinir o silêncio.