Uma Nova Perspetiva – Donald Byrd (1963)
O som da luz através dos vitrais
Por Rafi Mercer
Há álbuns que têm swing e há álbuns que brilham. «A New Perspective» faz as duas coisas. Não é apenas um disco — é um momento em que o jazz encontrou a coragem para voltar a soar sagrado. Lançado em 1963, no auge da era modernista da Blue Note, é a obra-prima de Donald Byrd: em parte sermão, em parte experiência, em parte pura atmosfera. Não se limita a emocionar — brilha.
Byrd já se tinha destacado como um dos trompetistas mais brilhantes do hard bop. O seu tom era limpo, assertivo e sofisticado. Mas, no início da década de 1960, a linguagem do jazz estava a mudar. Coltrane estava a expandir as formas, Mingus estava a orquestrar a emoção e Byrd, sempre curioso, procurava algo diferente — uma forma de fazer com que o jazz falasse à alma sem perder a sua estrutura. O resultado foi *A New Perspective*, um disco que introduziu o coro gospel no jazz moderno, não como um mero adorno, mas como elemento estrutural.
O álbum abre com «Elijah», uma explosão de energia que se assemelha à luz do sol a entrar num quarto escuro. As linhas do saxofone tenor de Hank Mobley deslizam sobre as linhas do trompete de Byrd, apoiadas pela elegância de Herbie Hancock ao piano — ainda no início da sua carreira, mas já a demonstrar aquela postura inabalável. A secção rítmica — Butch Warren no baixo, Lex Humphries na bateria — move-se como um pulso, constante mas vivo. No entanto, são as vozes que transformam tudo. O conjunto «Voices» de Donald Byrd — um pequeno coro gospel com arranjos de Coleridge-Taylor Perkinson — não canta letras, apenas harmonias sem palavras que flutuam por cima dos metais como a luz através de vitrais.
Segue-se «Cristo Redentor», a peça central, a oração. Composta por Duke Pearson, é uma daquelas peças que desafiam o tempo. A linha de trompa inicial eleva-se lentamente, com ternura, e o coro entra como uma lufada de ar. Não é religiosa num sentido confessional; é espiritual da mesma forma que a luz é espiritual. Mesmo tocada em volume baixo, enche completamente uma sala. É uma faixa que altera a pressão atmosférica — já vi pessoas ficarem em silêncio a meio de uma frase quando ela começa. As notas do piano de Hancock caem como chuva suave. O trompete de Byrd não prega; escuta.
«The Black Disciple» e «Chant» seguem-se com mais dinamismo, mas a sensação de reverência nunca se desvanece. Byrd encontrou aqui um equilíbrio raro — música que tem ritmo, mas que continua a transmitir uma sensação de elevação, como se o movimento fosse devoção. «Chant», em especial, transmite um otimismo discreto, com o coro e os metais a moverem-se em conjunto num contraponto elegante. O álbum encerra com «The Promise», um nome adequado para um disco que aponta para o futuro, mesmo enquanto presta homenagem à tradição.
Na sala de audição, «A New Perspective» é um daqueles álbuns capazes de parar tudo sem esforço. O som vai-se desenrolando lentamente — o trompete quente, o coro luminoso, o contrabaixo ressonante — e, de repente, a sala parece mais ampla, mais calma, mais elevada. É uma lembrança de que o jazz pode ser devocional sem ser solene. Quando reproduzido num bom sistema de som, «Cristo Redentor» soa como se as paredes estivessem a respirar. A reverberação parece quase arquitetónica — cada nota é uma viga, cada harmonia é uma janela.
Do ponto de vista cultural, o álbum foi ousado. 1963 não foi um ano fácil nos Estados Unidos. O Movimento dos Direitos Civis estava a atingir o seu auge, e a decisão de Byrd de integrar o gospel no jazz foi tanto musical como política — uma afirmação de identidade, de herança e de dignidade perante a pressão. A Blue Note Records sempre tinha equilibrado a arte com o «cool», mas isto foi diferente. «A New Perspective» fez com que o «cool» soasse compassivo.
Hoje em dia, é fácil subestimar o quão radical isso foi. As vozes do gospel eram consideradas fora do âmbito do jazz moderno. No entanto, Byrd e Pearson viraram essa noção do avesso, criando uma linguagem em que os metais e o coro não competiam entre si, mas se complementavam. É possível encontrar o eco deste disco em todo o lado: em «Heaven and Earth», de Kamasi Washington, em «Fellowship», de Brian Blade, e até na forma como os artistas contemporâneos utilizam o coro como textura, em vez de como sermão.
O que o torna um verdadeiro tesouro da coleção é a sua serenidade. É um álbum que não pede nada ao ouvinte, a não ser quietude. Não precisa de volume nem de análise. Precisa de espaço — espaço para deixar os tons desabrocharem, as harmonias elevarem-se e o silêncio instalar-se. É um disco feito tanto para bares de música como para manhãs tranquilas.
Quando o acorde final de «Cristo Redentor» se desvanece, deixa para trás um silêncio que parece merecido. É aquele tipo raro de silêncio que queremos guardar.
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