A Tribe Called Quest — Midnight Marauders (1993)

A Tribe Called Quest — Midnight Marauders (1993)

O álbum que se assemelha a uma cidade à noite e que tem o ritmo da própria memória.

Por Rafi Mercer

Há álbuns que não chegam simplesmente — eles entram na sala com uma espécie de confiança discreta, como alguém que sabe exatamente quem é sem precisar de o anunciar. «Midnight Marauders» é esse tipo de álbum. Não levanta a voz. Não faz alarde. Limita-se a encontrar o seu próprio ritmo e, discretamente, lembra-nos porque é que os A Tribe Called Quest ocupam o centro da constelação do hip-hop.

Sempre considerei este álbum como um longo passeio noturno por uma cidade que parece ao mesmo tempo familiar e um pouco teatral. As luzes cintilam, os passeios parecem zumbir e cada curva tem o seu próprio ritmo. Os Tribe compreenderam algo que muitos grupos nunca conseguem alcançar: que o groove pode ser inteligente e descontraído ao mesmo tempo. Aqui não há tensão entre o pensamento e o movimento — coexistem, apoiando-se um no outro como dois velhos amigos que partilham um comboio tardio de regresso a casa.

Desde os primeiros segundos de «Midnight Marauders Tour Guide», somos conduzidos para uma atmosfera, mais do que para um conceito. O álbum não assenta no choque nem na urgência; assenta no fluxo. As linhas de baixo rolam com uma espécie de calor elástico, a bateria rima com precisão, mas nunca com agressividade, e o Q-Tip está exatamente onde sempre pertenceu — no ritmo, comedido, coloquial, em sintonia com a arquitetura da batida. Phife Dawg, perspicaz como sempre, traz o contrapeso: brincalhão, incisivo, carismático sem se esforçar demasiado.

«Electric Relaxation» continua a ser um dos grandes exemplos de descontração natural — uma faixa que poderia acompanhar com igual elegância uma tarde de domingo ou um passeio de carro à meia-noite, sob as luzes de néon. «Award Tour» tem aquele otimismo animado e voltado para o futuro — uma lembrança de que o universo dos Tribe era tanto sobre inspiração como sobre crítica. E «Oh My God» traz um daqueles refrões que, de alguma forma, parece ter sempre existido, à espera das vozes certas para o dizer em voz alta.

O que mais adoro é a forma como o álbum flui. Cada faixa é uma pequena vinheta, mas as transições parecem o curso natural da noite — de um bairro para o outro, uma conversa a desvanecer-se à medida que outra começa. Não se salta faixas no *Midnight Marauders*. Viaja-se com ele. Tem a coerência dos discos clássicos de jazz, em que a sequência das faixas é uma espécie de narrativa, e os espaços entre as notas são tão importantes quanto as próprias notas.

Esta é uma música concebida com atenção aos detalhes e com o coração voltado para o ritmo humano. Nunca se apressa. Nunca desperdiça. Deixa o groove respirar. Em 1993, o hip-hop já se ramificava em mil direções, mas os Tribe mantiveram-se fiéis ao seu próprio caminho — um mundo onde a clareza importava mais do que o volume, onde o ritmo estava ao serviço da poesia e onde o ouvinte era tratado como alguém capaz de prestar atenção profunda.

Ao ouvi-la novamente hoje, continua a parecer moderna — não porque a sua produção seja intemporal (embora o seja), mas porque o seu convite o é. Pede-nos para abrandarmos o ritmo o suficiente para captar as subtilezas, para nos sentarmos um pouco mais perto das colunas, para deixarmos que a batida nos percorra, em vez de passar por cima de nós. É hip-hop, sim, mas é também arquitetura: linhas, formas, movimento, interação. Uma cidade de som construída com cuidado.

Trinta anos depois, «Midnight Marauders» não parece um artefacto. Parece uma bússola — que aponta para um momento em que a música podia ser simultaneamente inteligente e serena, com os pés no chão e inovadora, urbana e cósmica. Um álbum que nos faz lembrar como é bom quando um ritmo não se esforça por chamar a atenção, mas sim a conquista.

O passeio à meia-noite continua. E continua a soar na perfeição.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

Voltar às histórias

O Clube de Audição:

Trocámos a nossa atenção por comodidade.

Listas de reprodução intermináveis. Saltar faixas à vontade. A música tornou-se algo que acontece enquanto fazemos outra coisa.

O «Listening Club» é uma rebelião silenciosa contra isso.

Um álbum por mês. Do início ao fim. Juntos.

O número de membros fundadores está limitado a 200 em todo o mundo. Quando as vagas estiverem esgotadas, este nível será encerrado definitivamente.

Junta-te ao Clube de Audição