Adam F – Circles (1995)
Por Rafi Mercer
Há faixas que se tornam marcos para movimentos inteiros, peças musicais que parecem conter toda uma cultura na sua estrutura. «Circles», de Adam F, lançada em 1995, é uma delas. Nascida da onda de drum & bass que estava a remodelar a vida noturna britânica em meados da década de 1990, perdurou não só como um clássico das pistas de dança, mas também como um disco para ouvir — uma combinação rara de peso nos graves, textura jazzística e atmosfera hipnótica. É um single que parece um álbum, um loop que parece infinito, um círculo que contém em si o ADN de uma era.
A história dos Circles está ligada à ascensão de Adam Fenton como produtor que pretendia introduzir musicalidade num género frequentemente menosprezado como sendo pura adrenalina. Enquanto grande parte do drum & bass da época era concebido a pensar na velocidade e na agressividade, a abordagem de Adam F era mais subtil. Inspirou-se no jazz, no funk e em paisagens sonoras cinematográficas, incorporando acordes exuberantes e linhas suaves de metais numa estrutura de breakbeats contínuos e frequências de subgraves que abalavam os sistemas de som até ao âmago. O resultado foi uma faixa capaz de incendiar uma discoteca, mas também de resistir a repetidas audições em casa ou, décadas mais tarde, num bar concebido para o som.
Ao colocar a agulha no vinil, a primeira coisa que se sente é o baixo. Não se limita a tocar notas; ele toma conta da sala, pressionando o peito, fazendo vibrar as bordas dos móveis, testando se as colunas conseguem realmente descer até ao subterrâneo. Depois, surge o breakbeat, nítido e ágil, com os pratos a estalar como faíscas e as caixas a ralar com precisão cirúrgica. Por cima desta estrutura rítmica flutuam acordes quentes, harmonicamente ricos e abertos. Uma amostra de trompete surge, melódica mas fragmentária, como se uma sessão de jazz se infiltrasse de outra sala. O efeito é simultaneamente físico e etéreo, mantendo o corpo e a mente em tensão.
Num sistema de alta fidelidade, «Circles» revela camadas que uma audição casual pode deixar escapar. A textura do breakbeat — fragmentada, filtrada, alongada — transmite granulação e movimento. O baixo não é uma linha única, mas sim algo vivo, que varia em ressonância e ataque. Os acordes, que pairam algures entre o Rhodes e o pad, desabrocham com cor. Tocada num bar de audição, a faixa transforma o espaço. As pessoas recostam-se, as conversas abrandam e a atenção volta-se para o interior. Ao contrário de algumas faixas de drum & bass que exigem movimento, «Circles» permite a quietude. A sua repetição torna-se transe, o seu groove torna-se ambiente.
O que faz com que a faixa perdure é o equilíbrio entre os opostos. É simultaneamente minimalista e exuberante, enérgica e suspensa, um loop e uma narrativa. A sua estrutura é simples — alguns elementos a rodopiarem uns à volta dos outros — mas nessa simplicidade reside a profundidade. A repetição não é monótona, mas sim meditativa. Cada retorno da linha de baixo parece ligeiramente diferente, cada shuffle do breakbeat é recriado à luz do que já passou. É, no sentido mais verdadeiro, um círculo: infinito, mas nunca estático.
Na cultura do drum & bass, «Circles» marcou uma viragem. Foi uma faixa que conseguiu ultrapassar as rádios piratas e as raves underground, alcançando uma maior visibilidade junto do grande público sem perder credibilidade. Apontou para o «drum & bass inteligente» de LTJ Bukem, para as tendências cinematográficas de «Timeless», de Goldie, e para uma compreensão mais ampla de que esta não era apenas música para dançar, mas também para ouvir. Mostrou que o género podia conter subtileza e sofisticação, que podia enriquecer tanto uma noite com amigos como uma noite passada na pista de dança.
Num bar de audição, esta faixa torna-se um teste à arquitetura. Será que a sala consegue suportar estes graves sem desmoronar-se? Será que os médios conseguem reproduzir a amostra do trompete com clareza? Será que os brilhos agudos do hi-hat cintilam sem distorção? Mais do que quase qualquer outra faixa da sua época, «Circles» exige precisão de um sistema. Quando tudo está certo, a própria sala parece vibrar na mesma frequência, como se o ar tivesse encontrado um novo equilíbrio.
O que impressiona, ao ouvi-lo quase trinta anos depois, é como continua atual. A música eletrónica muitas vezes fica rapidamente ultrapassada, com os seus truques de produção ligados a um momento específico. «Circles» escapa a essa armadilha. Os seus elementos são intemporais — harmonia de jazz, ritmo de funk, peso do baixo, energia do breakbeat — combinados de uma forma que resiste à nostalgia. Se o ouvirmos hoje, soa tão moderno, tão convidativo e tão profundo como soava em 1995. É por isso que faz parte do cânone da cultura auditiva. Não por ser histórico, mas porque continua a funcionar.
Para Adam F, a faixa foi o ponto de partida para uma carreira variada, que vai do drum & bass às colaborações de hip hop e à composição de bandas sonoras para cinema. Mas «Circles» continua a ser a pedra de toque. É a faixa que definiu a sua voz, que provou que o drum & bass podia ser arte e não apenas energia, que mostrou que um loop podia conter o mundo. Para os ouvintes, continua a ser um ritual: o ato de a colocar a tocar, deixar que o baixo penetre no corpo, sentir a repetição a alterar a perceção. Num bar, numa discoteca, num quarto silencioso em casa, cria o mesmo círculo, o mesmo espaço.
É isto que significa «escuta profunda» no mundo da música eletrónica. Não é austeridade nem minimalismo, mas sim presença. Não é ruído, mas sim arquitetura. «Circles» é uma lembrança de que uma única faixa, quando criada com cuidado e visão, pode conter uma noite inteira no seu ritmo.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.