Alice Coltrane – Journey in Satchidananda (1971)

Alice Coltrane – Journey in Satchidananda (1971)

Por Rafi Mercer

Um glissando de harpa cintila como a luz do sol na água. Em seguida, inicia-se um bordão, grave e constante, que dá estabilidade ao espaço. Por cima dele, entra um saxofone soprano — Pharoah Sanders, lírico mas em busca de algo — e, de repente, a sala parece transformada. Já não estás num clube nem numa sala de estar. Estás num templo, num santuário, num limiar entre mundos. Trata-se de «Journey in Satchidananda», de Alice Coltrane, lançado em 1971, um dos álbuns mais transcendentais da história do jazz.

Coltrane encontrava-se numa encruzilhada quando gravou este álbum. O seu marido, John Coltrane, tinha falecido em 1967, deixando-a não só com a dor da perda, mas também com o desafio de dar continuidade a um legado musical e espiritual. Ela já tinha começado a explorar o seu próprio caminho em «Ptah», «The El Daoud» e «A Monastic Trio», mas «Journey in Satchidananda» cristalizou a sua visão. Não se tratava simplesmente de jazz. Era música devocional, enraizada na busca pela transcendência.

O título faz referência ao seu guru, Swami Satchidananda, cujos ensinamentos enfatizavam a verdade (sat), a consciência (chit) e a bem-aventurança (ananda). O álbum está impregnado dessa filosofia. É música de presença, de meditação, de viagem espiritual. No entanto, não é abstrata. É profundamente física, enraizada no ritmo e na ressonância.

A faixa de abertura, «Journey in Satchidananda», define o tom. A harpa de Coltrane cria uma textura fluida e suave, enquanto o contrabaixo de Charlie Haden sustenta o ritmo. A percussão de Rashied Ali, combinada com a tabla indiana de Tulsi e o som contínuo da tamboura, cria um som ao mesmo tempo enraizado e sobrenatural. O saxofone de Sanders eleva-se por cima, não como uma exibição de virtuosismo, mas como uma oração. A peça é hipnótica, cíclica e desdobra-se infinitamente.

Segue-se «Shiva-Loka», com o piano de Coltrane a entrar de forma mais enérgica, com acordes ressonantes e deliberados. A percussão é intricada, o ritmo insistente, mas o efeito geral mantém-se meditativo. «Stopover Bombay» é mais curta, mas igualmente hipnotizante, com a sua repetição a evocar a sensação de viagem, de uma pausa numa jornada mais longa.

«Something About John Coltrane» é simultaneamente uma homenagem e uma invocação. Construída em torno de um drone, abre espaço para a reflexão, para o luto e para a continuidade. «Isis and Osiris», a faixa final, estende-se por onze minutos, sobrepondo improvisação modal a um ritmo profundo e pulsante. O efeito é ritualístico, como se invocasse divindades antigas através do som.

O que torna «Journey in Satchidananda» extraordinário é a sua fusão de tradições. A improvisação do jazz cruza-se com os modos clássicos indianos, os instrumentos ocidentais combinam-se com os orientais, e o anseio espiritual funde-se com um ritmo firme. No entanto, nunca parece forçado nem eclético. Coltrane integra estes elementos com sinceridade, humildade e clareza. O resultado é harmonioso: um universo sonoro inteiramente seu.

A importância cultural do álbum é enorme. Tornou-se uma pedra angular do que veio a ser chamado de «jazz espiritual», a par de obras de Sanders, Sun Ra e das últimas gravações de John Coltrane. Mas a voz de Alice era distinta. Enquanto a música de John procurava frequentemente o êxtase, a dela inclinava-se para o meditativo. Enquanto o som dele era fogo, o dela era água. Ambos procuravam a transcendência, mas por caminhos diferentes.

Ao ouvi-lo hoje, o álbum transmite uma sensação de profunda inclusão. O seu convite é suave, o seu espírito acolhedor. Não exige conhecimentos técnicos de jazz ou de música indiana. Não exige que o ouvinte professe qualquer fé em particular. Pede apenas presença. Mulheres e homens, jovens e idosos, ouvintes experientes ou novatos — todos podem mergulhar no seu som. Essa abertura faz parte do seu poder.

No vinil, a ressonância é física. Os graves vibram pelo corpo, a harpa cintila no ar, o zumbido enche a sala de vibração. O ligeiro ruído de superfície apenas contribui para a sensação de solenidade, como se o próprio disco estivesse vivo, a respirar em sintonia com o ouvinte. A capa — Coltrane sereno, sentado em vestes cor de açafrão — reforça a essência: a música não como uma atuação, mas como devoção.

Mais de cinquenta anos depois, «Journey in Satchidananda» não perdeu nada da sua força. Pelo contrário, numa cultura de aceleração e distração, a sua paciência parece ainda mais radical. Apresenta um modelo de uma forma diferente de estar: atenta, meditativa, presente. Lembra-nos que ouvir não é apenas entretenimento, mas sim prática, ritual e até mesmo oração.

Ouvir este disco hoje é entrar na visão de Coltrane — uma visão da música como caminho, como oferenda, como viagem. A harpa cintila, o saxofone chora, o contrabaixo dá-lhe estabilidade, o bordão mantém-se. E na interação desses elementos, somos levados — não para longe, mas para mais fundo.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.

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