Amoroso – João Gilberto (1977)

Amoroso – João Gilberto (1977)

Por Rafi Mercer

Começa como um suspiro — uma respiração suave sobre cordas de nylon, um acorde que demora a surgir. O álbum «Amoroso», de João Gilberto, lançado em 1977, não é um álbum que se ouve; é um álbum no qual nos deixamos levar. Mesmo agora, quase cinquenta anos depois, parece suspenso fora do tempo — como se a própria sala tivesse primeiro de aprender a ouvir antes de a música começar.

Quando a ouvi pela primeira vez, passava metade do tempo em aviões e metade em lojas de discos — aquela estranha vida intermédia entre o ruído e as nuances. Lembro-me de colocar a agulha em «’S Wonderful» uma noite, depois do fecho, e de, de repente, o mundo ter desaparecido. Era a coisa mais silenciosa da sala e, de alguma forma, a mais poderosa.

Em 1977, Gilberto já era uma lenda. Duas décadas antes, tinha inventado um novo tipo de ritmo — a batida —, uma síncopa tão suave que mal parecia existir até se prestar atenção. Com «Chega de Saudade» e «Getz/Gilberto», tinha levado o samba para o interior, transformando-o de pista de dança em sussurro. Mas «Amoroso» era algo completamente diferente. Era a bossa nova amadurecida — introspetiva, flutuante, mais seda do que pele.

Produzido por Tommy LiPuma e com arranjos de Claus Ogerman, o álbum levou o minimalismo de Gilberto a um plano orquestral. As cordas e os instrumentos de sopro de Ogerman deslizam como reflexos na água, sem que nada perturbe a superfície. A voz e a guitarra de Gilberto continuam a ser o centro — sem pressa, precisas, infinitamente ternas. A orquestração nunca o sufoca; respira à sua volta.

Ouve com atenção «Wave». É possível ouvir o pulsar do oceano que inspirou Jobim, mas, através de Gilberto, transforma-se noutra coisa — não é a maré, mas sim o tempo. O seu ritmo é tão descontraído que parece inevitável. É no espaço entre as batidas que reside a beleza. «Estate» brilha com uma melancolia tranquila, cada sílaba moldada como uma memória. E em «Tin Tin Por Tin», aquele balanço ténue, quase invisível, transforma-se em arquitetura — o desenho da calma.

O que João Gilberto compreendeu melhor do que quase ninguém é que o silêncio não é ausência; é presença refinada. A sua música não é frágil; é precisa. A suavidade não é sentimentalismo, mas sim controlo — uma mestria que esconde o seu esforço. Através de um bom sistema de som, é possível ouvir tudo: o veio da madeira da guitarra, a respiração antes de cada frase, o atraso subtil que dá pulso ao ritmo.

Nos bares de música do Japão, «Amoroso» é frequentemente tocada no final da noite, quando a conversa vai-se esmorecendo e as luzes se tornam mais suaves. É um ritual de encerramento — música que renova o ambiente. Através das colunas com corneta, sente-se o brilho das cordas de Ogerman por cima do calor da guitarra de Gilberto, com toda a mistura equilibrada como a luz de uma vela sobre o vidro.

Há quem considere «Amoroso» a perfeição da bossa nova. Mas essa palavra parece-me inadequada. A perfeição implica um ponto final, e este álbum nunca acaba. Simplesmente paira no ar — o som da paciência, do romance ao ritmo da respiração, de um homem que encontrou a eternidade no ritmo.

Para quem ouve com atenção, torna-se mais do que música. É a prova de que a intimidade pode ser criada, de que a contenção pode ser revolucionária. Gilberto não levantou a voz para mudar o mundo; limitou-se a afinar a sua voz até que o silêncio se juntasse a ela.

E é isso que «Amoroso» significa. A quietude, traduzida em som. O amor, medido pelo ritmo.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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