André 3000 – New Blue Sun (2023)
Por Rafi Mercer
Há discos que são feitos para serem descobertos; outros, para o regresso. «New Blue Sun», o primeiro álbum a solo de André 3000, parece ser ambas as coisas — um regresso a casa disfarçado de partida. Não é rap, não é propriamente jazz, nem é música ambiente, mas, de alguma forma, mantém todos esses géneros em suspenso. O que mais importa é que soa extraordinariamente bem num bom sistema de som — é o tipo de disco que nos leva a reajustar a acústica da sala, em vez de procurarmos explicações.
O primeiro som que se ouve não é uma voz, mas sim a respiração — uma nota de flauta, sem pressa, humana. Permanece no ar, encontrando a sua própria ressonância, antes de ser acompanhada por percussão manual, drones subtis e pequenos fragmentos de melodia. Esse é o modelo para todo o álbum: a exploração através do som e do ar. Não há letras, nem estrofes, nem refrões — apenas improvisação que flui como o tempo.
É fácil esquecer o quão radical isso é. Um dos letristas mais criativos do hip-hop a lançar um álbum sem letras — isso não é uma mudança de estilo, é um recentramento. André 3000 não está a fugir da linguagem; está a ouvir para além dela. Percebe-se que ele tem procurado o silêncio, o espaço, o que acontece quando o ruído cessa.
Quando ouvido em colunas de alta fidelidade, «New Blue Sun» é surpreendente. O que se ouve é profundidade, mais do que volume — flautas de madeira a respirar no ar, um deslocamento subtil dos sinos, texturas que deslizam como a luz sobre a água. O nível de detalhe é imenso: quase se consegue sentir a distância entre os microfones e as paredes. Cada faixa transmite calor, mas também curiosidade, como se os músicos estivessem a descobrir o som ao mesmo tempo que o ouvinte.
Os títulos são divertidos — «Juro, queria mesmo fazer um álbum de “rap”, mas foi literalmente para onde o vento me levou desta vez» — mas por detrás do humor há sinceridade. O André não está a tentar impressionar ninguém. Está simplesmente a mostrar para onde os seus ouvidos o levaram. É uma lembrança de que ouvir nem sempre é um avanço; por vezes, é um círculo que nos leva para dentro, em direção à respiração e à consciência.
Há aqui uma linhagem: o jazz meditativo de Alice Coltrane, a música eletrónica ampla de Laraaji, o fraseado paciente de Brian Eno. No entanto, «New Blue Sun» nunca soa a imitação. Soa a algo vivido — um álbum feito por alguém que explorou todos os recantos do som e optou por regressar à quietude.
O que é bonito é a sensação de abertura que transmite. Não é preciso compreender jazz, música ambiente ou New Age para entrar neste mundo. Basta dar-lhe tempo. Funciona em qualquer lugar — com auscultadores, num café, num bar de música à noite, quando toda a gente fala mais baixo. É um álbum que nos ensina que a escuta pode partir de qualquer ponto de partida: da curiosidade, do cansaço, do silêncio, da alegria.
E é isso que importa, na verdade. O «New Blue Sun» lembra-nos que ouvir não tem a ver com géneros musicais ou conhecimentos especializados — tem a ver com atenção. Por vezes, o som mais autêntico não vem das palavras ou das batidas, mas sim do espaço que estas deixam para trás.
Quando acaba, não há aplausos, nem um final, apenas o ar a voltar ao silêncio. E talvez isso seja suficiente.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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