Aphex Twin – Selected Ambient Works 85–92 (1992)

Aphex Twin – Selected Ambient Works 85–92 (1992)

Por Rafi Mercer

A linha de baixo é a primeira coisa que se sente. Não se ouve — sente-se. Ela ressoa e desliza com um calor que enche a sala, analógica e imperfeita, humana apesar da sua origem mecânica. Por cima dela, as melodias desabrocham: simples, ternas, meio esquecidas. Os ritmos marcam o tempo como relógios avariados, apenas o suficiente de desajustados para parecerem vivos. Trata-se de «Selected Ambient Works 85–92», o álbum de estreia de Richard D. James, mais conhecido como Aphex Twin. Lançado em 1992, continua a ser um dos discos de música eletrónica mais influentes de sempre, uma obra que esbatou as fronteiras entre a pista de dança e o mundo onírico, entre a precisão da máquina e a intimidade humana.

O título sugere uma retrospetiva, uma coletânea de obras. Na verdade, trata-se de um caderno de esboços tornado público, uma compilação de peças que James vinha a gravar em privado desde a sua adolescência na Cornualha. As faixas foram gravadas com equipamento rudimentar, recorrendo frequentemente a equipamento caseiro ou modificado. No entanto, o seu impacto foi avassalador. Numa altura em que a cultura rave estava a explodir por todo o Reino Unido, os Aphex Twin ofereceram uma visão da música eletrónica que era tão introspetiva quanto física, tão terna quanto impulsiva.

Veja-se «Xtal», a faixa de abertura. Uma bateria eletrónica marca o ritmo suavemente por baixo de uma onda de sintetizadores e samples vocais fantasmagóricos, com melodias que circulam com a simplicidade de uma canção de embalar. É música de dança, mas frágil, quase tímida. A batida convida ao movimento, mas a atmosfera convida à quietude. «Tha» estende-se por mais de nove minutos, com o seu ritmo imutável enquanto as linhas de sintetizador flutuam como nuvens, hipnóticas na sua recusa em chegar a uma resolução. Não se trata de sucessos de discoteca. São espaços para habitar.

Por outro lado, «Pulsewidth» transborda energia, com uma linha de baixo áspera, distorcida, mas ao mesmo tempo animada. «Ageispolis» é cristalina, uma sequência de arpejos em cascata que transmite uma sensação simultaneamente futurista e infantil. «Heliosphan» combina urgência com melancolia, uma faixa que causa dor mesmo enquanto avança. A faixa final, «Actium», transforma-se em algo mais sombrio e pesado, com as suas camadas a colidirem até a faixa se dissolver num eco. Cada peça oferece uma perspetiva diferente, mas todas partilham o mesmo paradoxo: música criada com máquinas que soa profundamente e surpreendentemente humana.

O que une o álbum é a sua textura. O som é quente, analógico, ligeiramente distorcido. Não se trata de produções digitais imaculadas. Zumbem, sibilam, oscilam. São as imperfeições que lhes dão vida. Numa época em que a música eletrónica era frequentemente considerada fria ou mecânica, James provou que os sintetizadores podiam sussurrar, suspirar, sentir dor. As suas batidas podem ser programadas, mas parecem ter sido tocadas ao vivo. As suas melodias são simples, mas permanecem na memória como uma recordação.

O impacto cultural foi imenso. O álbum «Selected Ambient Works 85–92» ofereceu um contraponto à energia implacável do rave e do techno. Sugeriu que a música eletrónica podia ser doméstica, privada, adequada tanto aos auscultadores como às discotecas. Os críticos tiveram dificuldade em classificá-lo: demasiado rápido para ser ambient, demasiado atmosférico para ser house, demasiado cru para ser pop. No entanto, os ouvintes acolheram-no de braços abertos. Ao longo dos anos, passou a ser considerado um dos grandes álbuns de música eletrónica, frequentemente citado como um texto fundamental para o ambient techno, o IDM e inúmeros subgéneros que se seguiram.

Mas, para além da influência, o álbum perdura devido à sua sinceridade. Aqui não há qualquer sentido de ironia, nem qualquer tentativa de deslumbrar com virtuosismo. Trata-se de esboços, ideias, fragmentos — mas a sua honestidade torna-os poderosos. É possível imaginar o jovem Richard D. James sozinho com as suas máquinas, a dar vida ao som, fascinado não pelo espetáculo, mas pelas possibilidades. Essa intimidade está presente em todas as faixas. Ao ouvir, sente-se não só a música, mas também a presença da pessoa por trás dela.

Para quem se aproxima da música eletrónica pela primeira vez, o álbum «Selected Ambient Works» é acolhedor. Não exige conhecimentos especializados nem vocabulário técnico. É generoso, imediato e melódico. Pode-se dançar ao som desta música, ou pode-se sonhar com ela. Dirige-se tanto a quem viveu a cultura rave como a quem a descobre décadas mais tarde. É tão hospitaleiro quanto aventureiro — o som eletrónico não como uma barreira, mas sim como um convite.

Em vinil, o disco ganha uma nova dimensão de intimidade. O calor analógico da gravação intensifica as linhas de baixo, enquanto o inevitável crepitar e sibilar se fundem na perfeição com as texturas já imperfeitas. A música parece menos um produto e mais um artefacto, um diário deixado aberto, uma janela para um mundo privado.

Ao ouvi-lo agora, mais de trinta anos depois, o álbum parece intemporal. A produção eletrónica evoluiu drasticamente desde 1992, mas poucos discos soam tão frescos, tão vivos, tão humanos. As suas melodias continuam a tocar o coração. As suas batidas continuam a incitar ao movimento. As suas texturas continuam a dar a sensação de que são o som de alguém a explorar, curioso, brincalhão, desinibido. É por isso que «Selected Ambient Works 85–92» continua a ser essencial: não porque tenha inventado um género, mas porque captou um espírito — de exploração, de intimidade, de ouvir devagar o que as máquinas podem revelar sobre nós.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.

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