Art Blakey & The Jazz Messengers – Moanin’ (1958)
Por Rafi Mercer
O piano começa com um apelo, uma frase de gospel simultaneamente simples e profunda, à qual respondem os metais, que soam como uma congregação. O ritmo assenta, a bateria avança e, de repente, somos arrastados para o mundo de «Moanin’», o álbum que consolidou Art Blakey & The Jazz Messengers como o coração pulsante do hard bop. Gravado em 1958 para a Blue Note, este disco não é apenas uma coleção de faixas, mas a cristalização de um som — terroso, cheio de alma, sofisticado e vivo com a urgência de um palco a altas horas da noite.
Blakey já era um veterano na altura desta sessão, um baterista cuja força e energia o tinham tornado uma figura central do bebop. Mas foi com os Jazz Messengers que encontrou a sua verdadeira vocação, não só como líder da banda, mas também como mentor, formando geração após geração de jovens músicos. Em «Moanin’», a formação incluía Benny Golson no saxofone tenor, Lee Morgan no trompete, Bobby Timmons no piano e Jymie Merritt no baixo, uma constelação de talentos que, cada um à sua maneira, viria a marcar a música. O que Blakey criou foi mais do que um grupo — foi uma escola, um campo de provas, uma comunidade onde o jazz se mantinha enraizado e, ao mesmo tempo, avançava.
A faixa-título, composta por Timmons, é uma das peças mais reconhecíveis do jazz. O seu riff inicial tem o poder de um sermão, cativando instantaneamente e ficando na memória de imediato. Morgan e Golson tocam o tema com uma mistura de arrogância e calor humano, enquanto Blakey conduz o ritmo com uma autoridade estrondosa. Quando Morgan entra no seu solo, este é brilhante e metálico, cheio de fogo juvenil. Golson segue-se com profundidade e lirismo, Timmons com criatividade ao estilo do blues, e Blakey pontua cada frase com rolos e batidas que elevam a música a um nível superior. É o jazz como afirmação, música que transmite simultaneamente um espírito de rua e uma sensação de santidade.
Mas o álbum não se resume a uma única música. «Along Came Betty», de Golson, traz ternura, uma balada cheia de graça e um swing subtil, com a sua voz de tenor suave mas eloquente. «Are You Real?» é outra composição de Golson, alegre e otimista, repleta de encanto melódico. «The Drum Thunder Suite» é o cartão de visita do próprio Blakey, uma obra em três partes que começa com uma insistência martelante, passa por uma complexidade polirrítmica e termina com um ímpeto implacável. Aqui, Blakey demonstra não só o seu poder, mas também a sua arte, a sua capacidade de transformar o ritmo numa narrativa. «Blues March», outra joia de Golson, retoma a cadência de uma marcha militar e transforma-a num hino cheio de alma, combinando disciplina com swing. «Come Rain or Come Shine», a faixa de encerramento do álbum, é um clássico reimaginado, interpretado com sinceridade e uma autoridade discreta.
O que une tudo isto é a sensação. O hard bop foi sempre mais do que notas numa partitura; era atitude, groove, ligação às raízes do blues e do gospel. A forma de tocar de Blakey personifica essa ligação. Ele não se limita a marcar o ritmo; ele impulsiona, provoca, grita palavras de encorajamento. Os seus «press rolls» são como marés, os seus pratos rugem, o seu bombo troveja. No entanto, no seio dessa potência, há um swing constante, uma sensação de dança que mantém a música com os pés no chão. Os Messengers respondem na mesma moeda, com solos cheios de vida e espírito, e uma execução em conjunto coesa, mas flexível.
Em vinil, «Moanin’» tem uma presença que o streaming não consegue igualar. Os metais saltam dos altifalantes, o trompete de Morgan é brilhante e cortante, o saxofone tenor de Golson é rico e quente. O piano de Timmons tem um toque percussivo, o contrabaixo de Merritt vibra com corpo, a bateria de Blakey explode com amplitude dinâmica. A engenharia de Rudy Van Gelder capta tanto os detalhes como a atmosfera, tornando o disco tão vívido hoje como era em 1958. Se o pusermos a tocar num bar de audição, a energia é imediata. A faixa-título enche a sala de ânimo, «Blues March» transforma os pés em tambores debaixo das mesas, «Along Came Betty» traz um momento de ternura. É música que muda o ritmo da noite, que transforma a atmosfera em algo partilhado.
O legado de «Moanin’» é imenso. Definiu o som do hard bop para inúmeros ouvintes, tornou-se uma referência para músicos em ascensão e consolidou os Jazz Messengers como uma instituição que perduraria durante décadas. Não se trata de uma declaração vanguardista, nem de uma ruptura radical, mas sim do aperfeiçoamento de um estilo, um lembrete de que, por vezes, o ato mais revolucionário é tocar com convicção absoluta. O encanto duradouro do álbum reside no equilíbrio entre sofisticação e alma, na sua capacidade de cativar tanto os músicos como qualquer pessoa que simplesmente aprecie uma boa melodia acompanhada por um bom ritmo.
Mais de sessenta anos depois, o apelo de «Moanin’» ainda ressoa. As suas frases de gospel ainda cativam, as suas inflexões de blues ainda ressoam, os seus ritmos ainda entusiasmam. É um disco que não pode faltar em nenhuma coleção que se preze, não só pelo seu significado histórico, mas porque continua vivo quando é tocado. Basta colocar a agulha e a sala responde. Essa é a marca da música que perdura.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscreva aqui, ou clique aqui para ler mais.