Arvo Pärt – Tabula Rasa (1977)
Por Rafi Mercer
As primeiras notas de «Tabula Rasa» são como o toque de um sino numa praça vazia, ressonantes mas sóbrio, um sinal de que o silêncio está prestes a ser redefinido. Dois violinos entrelaçam-se, as suas linhas a rodopiarem uma à volta da outra como feixes de luz, enquanto o piano e o piano preparado marcam pulsos suaves por baixo. O som está despido de excessos, cada gesto é deliberado, cada silêncio está carregado de significado. Este é o mundo do «tintinnabuli» de Arvo Pärt, o estilo composicional que ele forjou em meados da década de 1970, após anos de busca. Com «Tabula Rasa», gravada em 1977 e interpretada por Gidon Kremer, Tatiana Grindenko, Alfred Schnittke e a Orquestra de Câmara da Lituânia, ele revelou uma nova voz no minimalismo sacro que viria a repercutir-se na música moderna.
O título significa «tábua rasa», e a própria obra transmite uma sensação de purificação. Pärt passou a primeira parte da sua carreira a explorar o serialismo e as técnicas de vanguarda, mas, após um período de crise e silêncio, voltou-se para a música medieval e renascentista em busca de inspiração. Desse estudo surgiu o tintinnabuli — um método em que uma voz se move passo a passo ao longo de uma escala, enquanto outra arpeja uma tríade, criando harmonias que parecem inevitáveis e intemporais. Em «Tabula Rasa», esta técnica ganha um brilho especial. O primeiro andamento, «Ludus» (jogo), é agitado, com os violinos a dispararem e a sobreporem-se, e a tensão a aumentar através da repetição. O segundo andamento, «Silentium», é o coração da obra: lento, espaçoso, com as cordas e o piano a moverem-se como sinos distantes num vasto horizonte.
Ouvir «Silentium» em vinil é viver uma experiência de suspensão. A música não avança no sentido habitual, mas estende-se, cada nota a dissolver-se na reverberação, cada pausa a pulsar de ressonância. O som do piano preparado acrescenta notas metálicas, como vidro a ser batido, conferindo à textura um toque de fragilidade e clareza. É uma música que paira no limiar entre o som e o silêncio, sagrada sem liturgia, espiritual sem doutrina.
Tocada num bar de audição, «Tabula Rasa» transforma o ambiente numa atmosfera de quietude. As conversas acalmam-se instintivamente, os copos são pousados com mais delicadeza, o próprio ar parece estar em sintonia. O primeiro andamento cria intensidade, uma energia inquieta que vai crescendo e depois se liberta. O segundo envolve a sala numa calma, uma expiração coletiva. Não é música que entretém, mas música que eleva, lembrando aos ouvintes o poder da contenção.
O que faz com que «Tabula Rasa» perdure é a sua clareza. Pärt não disfarça as suas estruturas; estas são simples e transparentes. No entanto, nessa simplicidade reside uma profundidade inesgotável. As tríades e as escalas são antigas, mas a forma como se desenrolam parece nova de cada vez. É uma música que parece tocar algo elementar, como se fosse menos composta do que descoberta. Não é de admirar que tenha sido acolhida não só pelo público da música clássica, mas também pelos apreciadores de música ambiente, pelos realizadores de cinema e por quem procura música para a contemplação.
Mais de quatro décadas depois, «Tabula Rasa» continua a parecer essencial. Constitui a pedra angular do estilo «tintinnabuli» de Pärt, uma obra que definiu a sua voz e abriu caminho a todo um movimento de minimalismo sacro. Basta colocar a agulha no disco para nos lembrarmos de que a música pode ser austera, mas radiante; disciplinada, mas profundamente humana. Na sua simplicidade, oferece riqueza. Na sua contenção, oferece libertação. Não é apenas uma composição, mas um santuário.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales»,subscreva ouclique aqui para ler mais.