Brown Sugar – D’Angelo (1995)

Brown Sugar – D’Angelo (1995)

Por Rafi Mercer

Lembro-me do dia em que aquele disco chegou com a mesma clareza com que me lembro do som da primeira nota. «Brown Sugar», 1995 — uma tarde quente de julho na Virgin Megastore, na Oxford Street. A remessa chegou a meio da manhã, escondida entre os novos lançamentos da semana, com uma capa discreta: uma fotografia em sépia, um toque de luz, sem ostentação. Colocámos um exemplar no posto de audição. Peguei nos auscultadores, carreguei no play e, ao fim de uma ou duas batidas, toda a loja mudou de atmosfera.

Foi assim que conheci o D’Angelo.

A primeira faixa — a faixa-título — não se limitou a tocar; ela balançava. Havia algo naquele ritmo, um atraso subtil, o balanço da caixa ligeiramente atrasado em relação à batida. Não era polida nem programada até à exaustão. Respirava. E aquela voz — fluida, sem pressa, uma mistura equilibrada de oração e sedução — soava como se alguém tivesse finalmente reunido a igreja e o quarto debaixo do mesmo teto.

Naquela altura, o R&B procurava o brilho: bateria sintética, afinação perfeita, simetria de rádio. O som de D’Angelo parecia uma rebelião. Era húmido, humano e analógico. Os acordes do Fender Rhodes tinham textura; as linhas de baixo enrolavam-se como fumo. Quando «Brown Sugar» derramava em «Alright», sentia-se um novo tipo de confiança a emergir — não estrondosa, não forçada, apenas segura do seu peso.

Lembro-me de ter comprado duas cópias: uma para casa e outra para a sala de audição. Queria que as pessoas o ouvissem tal como eu o ouvia — através de colunas adequadas, com espaço à sua volta. Passávamo-lo em rotação o dia inteiro. Os clientes aproximavam-se instintivamente, perguntando : «O que é isto?» Ninguém tinha ainda um nome para isso. Mais tarde, os jornalistas chamariam-lhe «neo-soul», mas esse rótulo surgiu só depois. O que estávamos a ouvir naquela semana era algo mais antigo — o groove redescoberto, o soul reajustado.

A genialidade de «Brown Sugar» reside no seu equilíbrio. Está impregnado de tradição — o calor de Donny Hathaway, a sensualidade de Marvin Gaye, o jogo harmónico de Stevie Wonder — mas o ritmo é pós-hip-hop. As batidas são minimalistas, as vozes fluidas, o ritmo elástico. Cada faixa dá a sensação de ter sido tocada ao vivo, a altas horas da noite, por pessoas que deram prioridade ao sentimento em detrimento da perfeição.

«Cruisin’», a sua versão do clássico de Smokey Robinson, brilha pela sua contenção. «Lady» transforma a adoração num ritmo envolvente — uma canção de amor que parece a personificação do próprio ritmo. «When We Get By» encerra o álbum como uma expiração profunda, toda ela piano e pulsação. Até a ordem das faixas é importante: o álbum flui como uma conversa lenta, que se aprofunda à medida que o disco gira.

O que mais me chamou a atenção naquela altura foi a textura. Dava para sentir o ambiente da sala na gravação — o chiado da fita, o ar à volta da caixa, a ligeira distorção nos agudos do Rhodes. Não era hi-fi no sentido convencional; era hi-human. E foi isso que atraiu ouvintes como eu — pessoas que tinham crescido a ouvir vinil e que ainda confiavam no som da imperfeição.

Havia ainda outra coisa. Por baixo da sensualidade e da confiança serena, havia vulnerabilidade — algo raro nas vozes masculinas de soul daquela época. D’Angelo não representava a emoção; ele vivia-a. Dava para ouvir a hesitação entre as respirações, a escolha de não exagerar no canto, a disposição para deixar que o silêncio fizesse parte do trabalho. Essa contenção conferiu ao disco a sua intimidade.

O «Brown Sugar» tornou-se o meu companheiro de viagem. Levei-o para todo o lado naquele ano — Tóquio, Lisboa, Amesterdão, Nova Iorque — e, de alguma forma, encaixava-se perfeitamente em todas as cidades. No Japão, lembro-me de o ouvir num pequeno bar de discos em Shibuya, com o dono a limpar copos atrás do balcão, a abanar a cabeça ao ritmo da música. Em Lisboa, saía de um carro estacionado na Rua da Rosa. Em todos os sítios, o ambiente era o mesmo: as pessoas recostavam-se, respirando mais devagar.

Foi isso que este álbum fez — recalibrou o tempo. Convidou-nos a ouvir de forma diferente, a perceber o espaço entre as notas como parte do ritmo.

Ao ouvi-lo agora, em sistemas modernos, a clareza é surpreendente. Os graves são quentes e tranquilos; o brilho dos médios do Rhodes ainda parece a luz do entardecer na pele. A voz está próxima, não no centro do palco, mas perto — como se ele estivesse na mesma sala, a poucos pés de distância, absorto no seu próprio mundo. É um álbum que ainda resiste a ser saltado. Cada faixa flui para a seguinte como uma conversa.

Olhando para trás, percebo que «Brown Sugar» foi mais do que um álbum de estreia. Foi um manifesto — não escrito, mas tocado. Disse-nos que o soul do futuro voltaria a soar analógico, que o ritmo abrandaria, que a intimidade seria importante. Sussurrou-nos que a perfeição digital não era o objetivo; o que importava era o sentimento.

D’Angelo não procurou os holofotes. Foi ele próprio que criou o seu próprio brilho. E, ao fazê-lo, abriu caminho a toda uma geração de artistas — Erykah Badu, Maxwell, Jill Scott, Alicia Keys, Anderson .Paak —, cada um dos quais levou adiante essa filosofia de calor humano e autenticidade.

Mas, para além da sua influência, «Brown Sugar» continua a ser um daqueles discos raros que ainda parecem vivos quando os colocamos a tocar. Se colocarmos a agulha hoje, não soa a vintage; soa atual. Os sulcos continuam suaves, o tom continua humano.

De vez em quando, volto a recordar aquela memória de verão — o cheiro do vinil novo, o burburinho da loja, a primeira linha daquela primeira faixa:
«Let’s smoke a little Brown Sugar

Não era apenas o título de um álbum. Era um convite — para abrandar o ritmo, para ouvir com atenção, para nos lembrarmos de que o groove é uma linguagem por si só.

E, em 1995, voltei a aprender a falá-la.


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