Casanova 70 – Air (2004)

Casanova 70 – Air (2004)

O Fim da Aceleração

Por Rafi Mercer

Há certas faixas que parecem recordar o futuro antes mesmo de este acontecer — canções que carregam o peso de um final que ainda não se consegue nomear. «Casanova 70», dos Air, é uma dessas peças. Lançada no âmbito das sessões «Talkie Walkie» em 2004, pertence àquela era breve e luminosa após o estouro da bolha das pontocom — uma época em que o otimismo tinha perdido a sua inocência e o mundo estava a aprender a avançar mais devagar novamente.

Para mim, é uma canção que evoca exatamente esse momento. As noites tardias de banda larga rápida e euforia das startups tinham começado a dar lugar a quartos mais silenciosos, ecrãs mais escuros e corações mais lentos. Dá para perceber isso na forma como «Casanova 70» se desenrola — paciente, precisa e ligeiramente melancólica. Não é propriamente triste. É consciente.

Os Air — Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin — sempre compreenderam que a música eletrónica podia ter um toque humano. A partir de *Moon Safari*, o seu som revelava calor nos seus circuitos: sintetizadores analógicos que suspiravam como se fossem memórias, linhas de baixo que não se limitavam a mover-se, mas que deslizavam. Mas *Casanova 70* parece diferente — menos romântico, mais reflexivo. É como se estivessem a sintonizar-se com o suspiro coletivo de uma época que acabara de perceber que a velocidade não era sinónimo de liberdade.

A faixa começa com aquele toque francês característico — o piano Rhodes e sintetizadores suaves a orbitar delicadamente. Depois, surge o ritmo: bateria tocada com escovas, nítida mas sem pressa, como passos num longo corredor. O baixo zumbe como móveis a vibrar ligeiramente no escuro. É a arquitetura da calma.

Ao ouvi-la agora, parece a metáfora perfeita para meados dos anos 2000 — aquele limbo de transição após a aceleração da década anterior. O boom das «dot-com» tinha chegado ao fim, as lojas de discos estavam a desaparecer e o streaming ainda não tinha começado. Era um mundo intermédio: o analógico ainda respirava, o digital ainda procurava a sua alma. E a música dos Air — em particular o álbum «Casanova 70» — parecia viver precisamente ali, nesse espaço intermédio entre o otimismo e a consciência.

Há também algo de cinematográfico nisso. Quase se consegue ver a luz — um tom dourado pálido contra o metal escovado, Paris no inverno, as janelas dos cafés embaciadas por dentro. A produção dos Air sempre pareceu uma obra de design: o espaço como instrumento, o silêncio como textura. Não estavam interessados no volume nem na complexidade; estavam interessados no ambiente.

A melodia aqui flutua, meio suspensa, sem nunca se resolver. É essa natureza não resolvida que confere à faixa a sua carga emocional — a sensação de espera, de reflexão sem conclusão. É isso que lhe dá aquele ambiente inconfundível de madrugada, o som de alguém a pensar, não a falar.

Na altura, ainda estava a recuperar do ritmo acelerado da década digital. Tinha passado anos nessa primeira onda de expansão online — a convicção de que tudo estava a acelerar, de que a ligação era sinónimo de progresso. O «Casanova 70» apanhou-me em plena fase de reajustamento. Era o som da desaceleração transformado em beleza.

Os Air sempre foram mestres do tempo lento. Mesmo nos seus momentos mais melódicos — «Kelly Watch the Stars», «All I Need», «Cherry Blossom Girl» —, o ritmo nunca se apressava. Mas «Casanova 70» parece quase imóvel, como se estivesse a pairar numa gravidade reduzida. Cada nota parece fazer uma pausa antes de chegar.

Há também uma intimidade tranquila nesta faixa. Enquanto as faixas anteriores tinham um carácter grandioso e cinematográfico, esta parece mais intimista, mais próxima — mais parecida com uma conversa à luz fraca do que com uma banda sonora de filme. É possível sentir a mudança de foco da dupla: da grandiosidade de «10,000 Hz Legend» para a introspecção de «Talkie Walkie». É música que convida à quietude, não ao espetáculo.

Através de um bom sistema, «Casanova 70» ganha textura. Os graves não se limitam a soar — respiram. Os agudos cintilam como a luz no vidro. A imagem estéreo é ampla, mas nunca fria. É o tipo de faixa que transforma uma sala num ambiente. Num bar de audição, é um interlúdio perfeito: nem música de dança nem música de ambiente, mas algo discretamente sensível entre os dois.

O que mais adoro nesta canção — e nos Air desta época — é a sua contenção. Tinham os meios para construir arranha-céus sonoros, mas optaram por criar jardins. É possível perceber a confiança de dois produtores que compreendem que a sofisticação reside na subtração.

Essa sensação de precisão reflete o espírito cultural da época. O início dos anos 2000 foi marcado por um processo de recuperação — desde a ressaca digital até à incerteza global — e o som dos Air ofereceu um novo tipo de otimismo: não ingénuo, mas com os pés bem assentes na terra. Casanova 70 é a banda sonora do realismo redescoberto — sensual, sóbrio, mas ainda brilhante.

O seu título, tal como grande parte do trabalho dos Air, contém uma espécie de ironia divertida. «Casanova» sugere sedução, representação, o teatro do encanto. Mas, neste caso, é a contenção, e não o excesso, que seduz. Não há nada de performativo nesta faixa — nem «drop», nem clímax, apenas uma sensação contínua de movimento mantida sob controlo. É o equivalente auditivo de um bom design: tudo no seu devido lugar, nada desperdiçado.

Olhando para trás, «Casanova 70» também parece um prelúdio para o tipo de música que viria a definir a década seguinte — a música eletrónica ambiente de Nils Frahm, a nostalgia de Tycho, a interioridade de Rhye. É um ponto de viragem — aquele em que o sentimento voltou a assumir forma.

Quando a ouço agora, normalmente na última hora antes do fecho, continua a ter aquele poder de acalmar o ambiente. As pessoas falam mais baixo. O tilintar dos copos é menos agudo. A luz parece mais quente. É como se a música reajustasse o ritmo das coisas, só um pouco — o suficiente para lembrar a todos que a beleza não precisa de se anunciar.

Na linha de «Tracks & Tales», «Casanova 70» insere-se nesse continuum sonoro concebido para o equilíbrio — onde a forma, o tom e a emoção humana são inseparáveis. Não é uma faixa que pede para ser lembrada; pede para ser sentida.

O que captaram em 2004 — aquela sensação de abrandamento, de recentramento — parece ainda mais relevante agora. Continuamos a aprender a conviver com as nossas acelerações, continuamos a procurar formas de nos ouvirmos a pensar. Os Air perceberam essa tensão desde cedo e transformaram-na em melodia.

Talvez seja por isso que esta canção perdura. Não pertence nem à nostalgia nem ao futurismo. Vive num meio-termo — um momento tranquilo e dourado entre o que foi e o que está para vir.

A revolução pode não ser transmitida pela televisão, mas, por vezes, a mudança acontece em silêncio — no intervalo entre as batidas, no brilho de um sintetizador, no murmúrio de uma sala que aprende a respirar de novo.

É assim que soa o Casanova 70. O som de um mundo a abrandar — de forma maravilhosa.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

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