Cocteau Twins — Victorialand (1986) — O Som da Ausência de Gravidade

Cocteau Twins — Victorialand (1986) — O Som da Ausência de Gravidade

Esta chamou-me a atenção...

Por Rafi Mercer

Há álbuns que se anunciam.

Depois, há álbuns que parecem vir de um lugar completamente diferente.

Ouvi «Victorialand» pela primeira vez, como deve ser, numa tarde qualquer. Sem cerimónias. Sem expectativas. O tipo de dia em que se escolhe um disco quase sem pensar, simplesmente porque está ali. O que se seguiu não foi tanto ouvir, mas sim deixar-me levar. No final dos seus trinta e cinco minutos, tive a estranha sensação de que a própria sala tinha mudado de forma.

Lançado em 1986, «Victorialand» ocupa um lugar curioso no catálogo dos Cocteau Twins. Surgiu entre a majestade gótica de «Treasure» e a clareza luminosa de «Heaven or Las Vegas». Não é nenhuma das duas coisas. Em vez disso, parece totalmente deslocado da linha temporal, como se, de alguma forma, tivesse escapado à década que o produziu.

Isso deve-se, em parte, às circunstâncias da sua criação. Com o baixista Simon Raymonde praticamente ausente durante as sessões de gravação, grande parte do álbum tornou-se um diálogo entre Robin Guthrie e Elizabeth Fraser. O resultado é notável. Os alicerces familiares da música rock parecem desaparecer. Há pouca densidade, pouco ritmo a que nos agarrarmos. Em vez disso, os sons flutuam livremente pelo ar, livres de quaisquer expectativas.

O título foi inspirado na Terra de Vitória, na Antártida, e essa sensação de imensidão paira sobre todas as faixas. Não é o vazio inóspito do gelo e da neve, mas a sensação de estar num lugar tão vasto que as palavras se tornam insuficientes. As paisagens do álbum são imensas. Os horizontes estendem-se infinitamente para além do que a vista alcança. As distâncias tornam-se impossíveis de medir.

Começa com «Lazy Calm», uma das faixas de abertura mais belas do catálogo dos Cocteau Twins. A voz de Fraser surge como um fenómeno meteorológico a atravessar o horizonte, enquanto a guitarra de Guthrie se dissolve em camadas cintilantes de luz. A canção não começa propriamente, mas sim emerge. Em pouco tempo, percebe-se que as noções tradicionais de estrofe e refrão se tornaram irrelevantes. A própria atmosfera tornou-se a composição.

Esta é, talvez, a maior conquista do álbum. Muitos discos são construídos em torno de canções. O «Victorialand» é construído em torno do espaço.

Se ouvires com atenção, perceberás uma compreensão extraordinária da ausência. Cada som parece ter sido cuidadosamente colocado num vasto campo de silêncio. Nada oprime o ouvinte. Nada exige atenção. A música simplesmente existe, com confiança suficiente para te deixar aproximares-te dela ao teu próprio ritmo.

Faixas como «Fluffy Tufts», «Throughout the Dark Months of April and May» e «The Thinner the Air» dão continuidade a este delicado equilíbrio. A voz de Fraser, nunca totalmente compreensível, torna-se mais um instrumento do que um veículo para as palavras. O significado chega a nível emocional, e não linguístico. Pode não saber o que ela está a dizer, mas, de alguma forma, compreende exatamente o que isso transmite.

É difícil descrever essa sensação.

Há nele algo de maravilhoso. Curiosidade. Uma sensação de movimento suave. O álbum dá frequentemente a sensação de uma viagem por território desconhecido, sem qualquer necessidade de chegar a um destino. A vida moderna condiciona-nos a procurar destinos. O «Victorialand» parece não ter qualquer interesse neles.

O que mais me impressiona, quase quarenta anos após o seu lançamento, é o quão contemporâneo ainda soa. Muitos discos de 1986 trazem as marcas da sua época. As tendências de produção envelhecem. A tecnologia fica ultrapassada. A moda passa. No entanto, «Victorialand» parece estranhamente intocado pelo tempo. A sua influência pode ser ouvida na música ambiente, no dream pop, no post-rock e em inúmeras gravações atmosféricas que se seguiram, mas o original continua a ser indescritível. Poucos artistas conseguiram criar exatamente a mesma sensação de flutuar livremente, sem a gravidade.

É também um disco que valoriza um bom equipamento, embora não da forma como os álbuns de demonstração para audiófilos costumam fazer. Não há crescendos dramáticos concebidos para impressionar os visitantes. Não há linhas de baixo estrondosas para mostrar as capacidades de um sistema. Em vez disso, as recompensas são mais subtis. Pequenas reverberações permanecem na sala. Os harmónicos da guitarra flutuam para além das colunas. As camadas revelam-se gradualmente, como detalhes que emergem da névoa.

Acima de tudo, o «Victorialand» exige algo cada vez mais raro do ouvinte: paciência.

Não é o esforço. Não é o estudo. É apenas paciência.

Ouve-o do início ao fim. Resiste à tentação de saltar faixas. Deixa que ele siga o seu próprio ritmo. Por volta da metade, deixas de ouvir as canções e começas a prestar atenção às texturas, ao movimento e à atmosfera. O álbum deixa de ser um objeto e transforma-se num lugar.

Talvez seja por isso que continua a ter um impacto tão profundo. Numa altura em que quase tudo compete pela atenção, a Victorialand faz o contrário. Baixa o tom. Cria espaço. Acredita que, se ficares tempo suficiente, algo significativo irá acontecer.

E, muitas vezes, é mesmo isso que acontece.


Perguntas rápidas

Será que «Victorialand» é o melhor álbum dos Cocteau Twins?

Muitos defenderiam que é«Treasure», «Heaven» ou «Las Vegas», mas «Victorialand» é, sem dúvida, a sua experiência auditiva mais envolvente e singular.

Porque é que o álbum soa tão diferente?

A relativa ausência de baixo e de secções rítmicas convencionais cria uma atmosfera invulgarmente leve, deixando espaço para que a voz de Elizabeth Fraser e as texturas da guitarra de Robin Guthrie assumam o protagonismo.

Qual é a melhor altura para ouvir?

Sozinho, sem interrupções, de preferência através de altifalantes em vez de auscultadores. De manhã cedo, ao fim da tarde ou em qualquer momento em que o mundo pareça mais silencioso do que o habitual.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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