David Sylvian & Holger Czukay — Flux + Mutability (1989)
O som de um mundo a aprender a abrandar antes de perceber que precisava de o fazer.
Por Rafi Mercer
Em 1989, o futuro ainda soava metálico.
Os aeroportos estavam a tornar-se símbolos de sofisticação. As viagens de negócios eram idealizadas. Os discos compactos prometiam um som perfeito para sempre. A televisão musical valorizava a instantaneidade. As cidades aceleravam para dentro de si mesmas. Tudo apontava para a velocidade, a eficiência, as linhas bem definidas e as superfícies lisas.
E foi então que este álbum surgiu.
Não de forma estrondosa. Não de forma comercial. Não com qualquer ambição óbvia de marcar uma época. Se há algo a destacar, é que os Flux + Mutability pareciam quase suspeitamente desinteressados em participar na cultura que os rodeava.
E é precisamente por isso que isto é importante agora.

Ouvir isto hoje não parece tanto uma revisitação de um velho disco experimental, mas sim a descoberta de um modelo emocional para algo que a vida moderna foi, aos poucos, esquecendo: como viver um momento sem tentar, de imediato, otimizá-lo.
Nessa altura, David Sylvian já tinha começado a afastar-se dos holofotes. Após a ascensão dos Japan, poderia ter permanecido confortavelmente no âmbito do art-pop sofisticado para sempre. Mas havia sempre algo de inquieto subjacente ao trabalho de Sylvian. É possível perceber como, álbum após álbum, ele se afasta gradualmente das estruturas convencionais — rumo ao jazz, ao ambiente, à quietude, à ambiguidade emocional e ao próprio silêncio.
Holger Czukay vinha de um mundo completamente diferente. Através dos Can, passou a década de 1970 a desmontar por completo as ideias tradicionais de composição. Loops de fita, transmissões de rádio acidentais, repetições flutuantes, sons encontrados. Czukay abordava a música de forma quase arqueológica, como se o significado oculto residisse nos fragmentos e nas interrupções, em vez de numa interpretação aperfeiçoada.
Quando os dois colaboraram, não compuseram propriamente canções.
Criaram ambientes.
Essa distinção é fundamental.
O álbum flui tal como a memória flui. De forma irregular. Suavemente. Os sons surgem e desaparecem antes de se revelarem por completo. As trompetes pairam no espaço como luzes distantes através da chuva. Os ritmos surgem brevemente e voltam a dissolver-se. Passagens inteiras parecem suspensas entre continentes, entre géneros, entre estados emocionais.
E, o que é mais importante, nunca tenta resolver essa incerteza.
A maior parte da música pretende orientar os teus sentimentos. O Flux + Mutability limita-se a dar-lhes espaço.
O final da década de 1980 foi culturalmente fascinante porque, por baixo de todo o excesso visível, estava a ocorrer uma mudança mais discreta entre certos artistas. As pessoas começavam a perceber o custo psicológico do ruído constante e da aceleração muito antes de a Internet ter chegado de forma plena para amplificá-lo. A música ambiente expandiu-se. O minimalismo aprofundou-se. O jazz experimental cruzou-se com a música eletrónica. As fronteiras entre os sons globais enfraqueceram.
É possível perceber essa transição ao longo de todo este álbum.
Não como uma fusão que segue as tendências, mas sim como uma curiosidade genuína. O álbum transmite uma sensação internacional no sentido mais verdadeiro da palavra — não comercialmente globalizado, mas emocionalmente sem fronteiras. Há traços da Europa, do Japão, do jazz, da música eletrónica de vanguarda, do ambiente do «quarto mundo» e da vida noturna da cidade, todos a interagir simultaneamente ao longo do álbum.
Dá a sensação de que os músicos estão a ouvir o que vem de fora, em vez de se concentrarem no seu interior.
Talvez seja por isso que o álbum ressoa agora de forma tão natural nos espaços dedicados à cultura da audição — bares de alta fidelidade, kissaten, programas de rádio noturnos, salas cuidadosamente preparadas onde as pessoas se reúnem não para consumir música passivamente, mas para mergulhar nela juntas. Álbuns como este mudaram o papel que a música podia desempenhar numa sala. Afastaram a audição do espetáculo e aproximaram-na mais da atmosfera.
Não é entretenimento.
Condição.
E talvez essa seja a história mais profunda por trás de «Flux + Mutability». Surgiu precisamente na fronteira de um mundo cada vez mais acelerado e sugeriu, discretamente, outra possibilidade. Que a lentidão ainda podia conter profundidade. Que a incerteza ainda podia encerrar beleza. Que a música nem sempre precisava de dominar a atenção para transformar completamente um espaço.
Alguns álbuns envelhecem com a nostalgia.
Este acabou por ganhar relevância com o tempo.
Perguntas rápidas
Por que é que o Flux + Mutability é considerado influente?
Porque contribuiu para moldar a linguagem emocional da música ambiente, da «deep listening» e da música experimental atmosférica muito antes de esses géneros se terem tornado culturalmente populares.
O que torna a dupla formada por David Sylvian e Holger Czukay tão invulgar?
Sylvian surgiu do sofisticado art-pop britânico, enquanto Czukay provinha do experimentalismo radical alemão. A colaboração entre ambos resultou porque ambos procuravam a atmosfera em detrimento da estrutura.
Que tipo de audição se adequa melhor a este álbum?
Ouvir música à noite. Auscultadores. Quartos silenciosos. Viagens. Chuva. Solidão. Qualquer momento em que queiras que a música remodele o teu espaço emocional, em vez de o dominar.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.