Donna Summer — Donna Summer (1982) — O Som da Abertura

Donna Summer — Donna Summer (1982) — O Som da Abertura

Por Rafi Mercer

A música antiga tem algo que ainda quer partilhar connosco. Às vezes, sentimos isso antes mesmo de conseguirmos explicá-lo — certos discos que transmitem calor, sabedoria, otimismo ou verdade emocional ao longo de décadas, como se o tempo nunca os tivesse afetado de todo.

Voltei a interessar-me por Donna Summer aos poucos. Não por nostalgia. Nem por causa do renascimento da música disco. Mas sim por causa de um sentimento que não conseguia explicar bem — uma necessidade de calor, abertura, movimento e otimismo. O tipo de discos que parecem alargar o horizonte emocional à nossa volta, em vez de se limitarem a entreter.

E este álbum faz exatamente isso.

Lançado em 1982, surgiu num momento de estranha transição cultural. O disco já tinha sido declarado morto por pessoas que, para começar, nunca o tinham compreendido totalmente. A música eletrónica começava a transformar-se em algo mais frio e mais digital. O pop estava a tornar-se mais incisivo, mais visual, mais agressivo. No entanto, ali estava Donna Summer a gravar um álbum que, de alguma forma, se elevava acima de tudo isso.

Não é disco.
Não é pop.
Não é soul.
Não é ambient.
Nem sequer é bem música do mundo.

Algo mais livre.

E talvez seja essa liberdade que faz com que o álbum ainda pareça, de certa forma, futurista hoje em dia.

Já só a sequência inicial é extraordinária. «Love Is in Control (Finger on the Trigger)» transmite o ritmo da vida noturna de Nova Iorque, mas com o sentido imaculado de espaço e contenção de Quincy Jones. Já se consegue perceber a arquitetura que em breve iria moldar a produção da era «Thriller» — o calor dos graves, o espaço em torno da percussão, a sensação de que cada instrumento ocupa uma dimensão física dentro da sala.

Mas é quando «State of Independence» entra em cena que o álbum transcende completamente qualquer categoria.

Algumas canções divertem-te.
Outras canções identificam-te.

«Parece um sinal vindo de ti / Leva-me para conhecer o teu som.»

Ainda hoje, essas letras parecem transformadoras. Não por serem complicadas, mas porque captam algo profundamente humano: encontramos-nos uns aos outros através da ressonância. Através da atmosfera. Através da frequência. Através do som emocional que transmitimos ao mundo.

Donna canta a faixa com total convicção — sem ironia, sem distância interpretativa, sem aquele distanciamento que está na moda. Atrás dela, Quincy Jones reúne o que mais parece uma congregação do que um coro de apoio. Michael Jackson, Stevie Wonder, Dionne Warwick e outros surgem no arranjo como fantasmas à luz do sol.

Torna-se menos uma canção pop e mais um estado de espírito.

É fácil perceber por que razão se tornou mais tarde um daqueles discos lendários do estilo Balearic em Ibiza. Uma faixa de encerramento que não se destina ao auge da noite, mas sim ao regresso gradual a partir daí. Um disco que permite que toda a sala respire em uníssono. O tipo de música que soa diferente quando a luz da manhã começa a entrar pelas janelas.

E o que é notável é que o álbum nunca perde essa abertura.

«The Woman in Me» transmite vulnerabilidade sem fragilidade. «Protection» — composta por Bruce Springsteen — acrescenta um tipo de tensão emocional completamente diferente, enquanto «Livin' in America» capta o otimismo do início dos anos 80, antes de o cinismo se ter instalado de vez na cultura pop.

E por baixo de tudo isto está a produção de Quincy Jones — acolhedora, ampla, quase arquitetónica em alguns momentos. O disco respira. Confia no espaço. Os instrumentos podem pairar e desaparecer naturalmente. Os sintetizadores cintilam em vez de dominarem. A percussão move-se como o tempo pelo campo estéreo.

Num sistema adequado, o álbum parece imenso.

Mas o que faz com que este álbum perdure não é apenas a excelência técnica. É a generosidade emocional. O álbum acredita na ligação. No movimento. Na possibilidade. Encarar a abertura não como uma fraqueza, mas sim como uma força.

Ao ouvi-la agora, décadas mais tarde, quase parece radical na sua sinceridade.

A cultura moderna costuma premiar a cautela. A distância. A máscara. A encenação. No entanto, este álbum, pelo contrário, procura continuamente aproximar-se. Da comunidade. Dos sentimentos. Da esperança.

Talvez seja por isso que ainda hoje tem um impacto tão forte.

Não porque nos faça lembrar do passado.

Mas porque nos faz recordar como era, outrora, a sensação de estar emocionalmente aberto.

E talvez ainda possa.


Perguntas rápidas

O que distingue o álbum «Donna Summer» (1982) dos álbuns disco da Donna Summer?

O álbum vai além da música disco, apresentando uma mistura de pop sofisticado, texturas ambientais, harmonias gospel, soul e a abertura característica do estilo balear, fortemente influenciado pelo estilo de produção cinematográfica de Quincy Jones.

Por que é que «State of Independence» é considerada uma faixa tão importante?

A canção tornou-se um clássico de culto da cena balearica e dos amanheceres devido à sua atmosfera espiritual, à sua produção grandiosa e aos temas profundamente humanos de ligação, abertura e ressonância.

Quem colaborou no álbum?

O álbum foi produzido por Quincy Jones e contou com a participação de grandes artistas, incluindo Michael Jackson, Stevie Wonder, Dionne Warwick e Bruce Springsteen.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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