Earth Volume Um — o som do espaço a aprender a respirar

Earth Volume Um — o som do espaço a aprender a respirar

Por Rafi Mercer

Há álbuns que não se anunciam. Chegam — discretamente, quase com cautela — e só mais tarde é que nos apercebemos de que mudaram a forma como ouvimos tudo o que vem a seguir.

O «Earth Volume One», com curadoria de LTJ Bukem, é um desses discos.

Lançado numa altura em que a cultura rave ainda se caracterizava pela urgência — breakbeats acelerados, linhas de baixo agressivas, ritmos que perseguiam a adrenalina —, o Earth fez algo profundamente fora de moda. Acalmou o centro emocional da sala. Não o BPM, mas a intenção.

Não se tratava de uma fuga através do excesso.
Tratava-se de uma suspensão.

Ao ouvir agora o «Earth Volume One», a primeira coisa que salta à vista é a sua recusa em apressar-se. As faixas não competem pela atenção. Desenrolam-se. Os pads estendem-se como neblina ao longo da berma de uma autoestrada ao amanhecer. Os breakbeats movem-se com contenção, nunca caindo no caos, nunca exigindo domínio. O baixo não está lá para te esmagar — está lá para te dar estabilidade.

A genialidade de Bukem aqui não reside na proeza técnica, mas sim no discernimento editorial. Trata-se de uma compilação que se apresenta como um pensamento único e contínuo. Cada faixa parece ter sido escolhida não apenas pelo seu brilhantismo individual, mas pela forma como dialoga com a seguinte. Há uma sensação de espaço negativo ao longo de toda a obra — intervalos onde o ar pode entrar, onde o ouvinte pode pensar, deixar-se levar e respirar.

O que a Earth ofereceu no início dos anos 90 foi algo radical: a possibilidade de ouvir o que há por dentro da música de dança.

Na altura, o jungle e o hardcore evoluíam rapidamente, fragmentando-se em formas mais pesadas, mais sombrias e mais agressivas. A resposta de Bukem não foi a resistência — foi o redirecionamento. Ele não rejeitou os breakbeats nem a pressão dos graves. Em vez disso, reformulou-os. Envolveu-os numa atmosfera. Deu-lhes linhas de horizonte. Deixou que a sensibilidade do jazz, a textura ambiente e a paciência melódica suavizassem as arestas sem esvaziar a energia.

Foi aqui que o termo «drum & bass inteligente» começou a fazer sentido — não como um rótulo de género, mas como uma forma de ouvir. O Earth não ostenta a sua inteligência. Parte do princípio de que a tua existe.

Há também algo profundamente geográfico neste álbum. Transmite uma sensação suburbana, no melhor sentido possível. Não é a intensidade do centro da cidade, mas sim os espaços liminares nos arredores — plataformas de comboio a altas horas da noite, estradas desertas, luzes de sódio refletidas no asfalto molhado. Música criada por pessoas suficientemente próximas de Londres para sentirem o seu pulso, mas suficientemente distantes para ouvirem os próprios pensamentos.

E depois há a temperatura emocional.

O «Earth Volume One» não é frio — apesar do espaço, apesar da contenção. É discretamente humano. Há calor na escolha dos acordes, ternura na forma como as faixas se resolvem, em vez de atingirem um clímax. Mesmo os momentos mais sombrios parecem contemplativos, em vez de ameaçadores. Esta é uma música que confia que o ouvinte a acompanhará, em vez de estar constantemente a puxar-lhe pela manga.

Em retrospetiva, percebe-se o quanto este álbum marcou o que se seguiu. Não só a trajetória do próprio Bukem, mas toda uma linhagem de drum & bass atmosférico, desde as experiências com influências de jazz até às vertentes mais cinematográficas que surgiriam mais tarde nessa década. No entanto, «Earth» continua a parecer único. Não soa como um protótipo. Soa como uma declaração feita com delicadeza, mas com absoluta convicção.

Ouve-o agora — ouve-o a sério — e continua a funcionar. Não por nostalgia, mas pelo seu design. As misturas respiram. A dinâmica mantém-se. O ritmo continua suficientemente seguro para resistir à impaciência moderna. Este é um disco que te pede para abrandares o teu relógio interno para te encontrares com ele a meio caminho.

E quando o fazes, acontece algo subtil.

A sala parece mais espaçosa.
A música parece mais leve.
Sentes-te mais presente dentro dela.

Essa é a conquista discreta do «Earth Volume One». Não se limitou a ajudar a definir um som. Ensinou uma geração a vivê-lo.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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