Electribe 101 – Electribal Memories (1990)

Electribe 101 – Electribal Memories (1990)

Memórias Electribais (1990), dos Electribe 101, é um clássico esquecido — a elegância do deep house aliada à introspecção do soul. 

Por Rafi Mercer

De vez em quando, um disco passa despercebido pela história — demasiado elegante para a sua época, demasiado subtil para o seu marketing. «Electribal Memories», dos Electribe 101, é um desses casos. Lançado em 1990, surgiu e desapareceu sem quase causar qualquer impacto nas tabelas, mas, três décadas depois, soa como um modelo a seguir: em parte deep house, em parte canção melancólica, em parte confissão de madrugada.

No centro está Billie Ray Martin, uma cantora alemã que se mudou para Londres com uma voz como o cromo — fria à superfície, ardente por dentro. À sua volta, a banda (Joe Stevens, Les Fleming, Brian Nordhoff e Rex Bostedt) criou um som que só poderia ter surgido naquele breve intervalo entre o calor analógico e as possibilidades digitais. Imagine discotecas enevoadas, linhas de baixo com influências dub e acordes de sintetizador que pairam no ar como perfume.

A faixa de abertura, «Talking with Myself», continua a ser surpreendente. Começa como um murmúrio — uma amostra em loop, um padrão de hi-hat, um único batimento cardíaco do baixo — e depois surge a voz da Billie, distanciada mas terna: «A minha conversa está a morrer… a falar comigo mesma.» Num bom sistema de som, a faixa parece interminável, com a sua reverberação a transformar o espaço em seda. É música de dança que olha para dentro — uma bola de espelhos para a mente.

«Tell Me When the Fever Ended» segue-se com a energia do gospel noturno, enquanto «You’re Walking» combina um groove clássico de house com um estilo existencial descontraído. Cada faixa assenta na contenção. Os Electribe 101 compreenderam que os momentos mais sensuais nascem da tensão — do que não é dito. Os seus arranjos respiram; os bombos são suaves, mas deliberados; os sintetizadores cintilam sem ostentação.

O cerne emocional do álbum, porém, é a sua melancolia. Há romance aqui, mas é um romance assombrado — o amor como um eco, em vez de uma declaração. Quando a Billie canta, parece que está a transmitir a partir da borda de um sonho: parte Dusty Springfield, parte andróide dos Kraftwerk, toda ela emoção. Ela não se limitou a interpretar as canções, mas sim a habitá-las.

Num bom sistema de alta fidelidade ou num bar de audição com iluminação suave, «Electribal Memories» volta a parecer imediato. A produção — nítida, mas com amplitude — ganha com o volume. As frequências graves deslizam, as texturas dos médios desabrocham e a voz de Martin penetra como a luz através do nevoeiro. O som é house analógico com fraseado de jazz; o ambiente, algures entre a solidão de Berlim e a alma de Londres.

O que chama a atenção agora é o quão contemporâneo ainda parece. É possível perceber a sua influência em «Temperamental», dos Everything But the Girl, na postura vocal de Roísín Murphy e na contenção emocional do downtempo moderno. Os Electribe 101 já faziam «música de dança para bares de escuta» antes de alguém ter cunhado o termo.

Eles gravaram apenas este único álbum de estúdio (e o álbum seguinte, «Electronic Confessions», que demorou tanto tempo a ser lançado, acabou por sair décadas mais tarde), mas essa brevidade contribui para o mito. «Electribal Memories» perdura porque existe fora do tempo — um álbum que se descobre a altas horas da noite, no qual nos deixamos levar e nos perguntamos como é que alguma vez nos escapou.

Alguns discos queimam; outros ardem lentamente para sempre. Este brilha.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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