Endtroducing… — DJ Shadow e a arte de criar música a partir da memória (1996)
Por Rafi Mercer
O Museu do Som
Alguns álbuns parecem descobertas; outros, redescobertas — como se sempre tivessem existido, à espera de serem ouvidos. «Endtroducing…..», lançado em 1996, pertence a esta última categoria. Não é apenas um álbum de estreia; é uma declaração de que a própria amostragem pode ser arte — de que fragmentos da música de outras pessoas podem ser reorganizados para expressar algo inteiramente novo, inteiramente humano.
DJ Shadow — cujo nome verdadeiro é Josh Davis e que cresceu em Davis, na Califórnia — gravou o álbum quase inteiramente com um sampler Akai MPC60, um par de gira-discos Technics e uma pilha de discos de vinil encontrados nas caves e nas prateleiras de pechinchas das lojas de discos esquecidas dos Estados Unidos. O que ele criou com essas ferramentas não foi um álbum de hip-hop no sentido tradicional; foi uma colagem de emoções. Um álbum de recortes sonoro. Uma meditação sobre o groove e a textura.
Desde os primeiros compassos de «Best Foot Forward», com a sua voz rouca e a explosão de estática, o álbum transmite uma sensação tátil — empoeirado, tátil e íntimo. Quase se consegue cheirar as capas de cartão, ouvir o estalido da agulha a encontrar o sulco. É música feita a partir de outra música, mas a alquimia é dele. O Shadow não se limita a fazer loops — ele esculpe. Ele corta, altera e recompõe até que as amostras percam a sua origem e se transformem em atmosfera.
É na segunda faixa, «Building Steam with a Grain of Salt», que o feitiço se instala. Uma progressão simples de Rhodes flutua sobre o chiado do vinil, uma voz fragmentada entoa algo sobre «uma viagem da alma» e um breakbeat desenrola-se por baixo de tudo isto, preciso e paciente. O ritmo parece vivo — ligeiramente instável, humanizado. É o batimento cardíaco de todo o disco: mecânico, mas terno.
Shadow fazia parte de uma geração de produtores que cresceu a ouvir hip-hop, mas que era obcecada pelo timbre e pela textura. Passou a adolescência a gravar misturas para a rádio nas estações KMEL e KZSU, estudando as transições de DJs como Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash. Mas também devorava música ambiente, rock progressivo e bandas sonoras de filmes. O resultado é evidente: «Endtroducing» não tem a ver com géneros; tem a ver com memória.
A peça central, «Stem / Long Stem», é uma obra-prima em câmara lenta. Começa com uma linha de guitarra dedilhada retirada do obscuro álbum psicadélico dos anos 70, «The Way It Is», dos The James Gang, sobreposta a cordas orquestrais, samples invertidos e gravações de campo. A composição desenvolve-se em ciclos — a bateria entra, desvanece-se, regressa — tal como o ritmo do pensamento. É cinematográfica, melancólica e pode ser ouvida infinitamente. As transições entre os movimentos são tão orgânicas que nos esquecemos de onde uma faixa termina e outra começa.
Por outro lado, «Organ Donor» transforma um riff de órgão de Giorgio Moroder num ritual impulsionado pelo breakbeat; «Changeling» parte de alguns acordes de piano tocados com escovas para se transformar numa tempestade de ritmos sobrepostos. A produção é densa, mas nunca claustrofóbica. Cada frequência tem o seu próprio espaço. O disco respira.
E depois há «Midnight in a Perfect World», sem dúvida uma das peças mais belas alguma vez criadas a partir de um sampler. Começa com uma amostra de «The Human Abstract», de David Axelrod — acordes de piano suspensos como neblina — antes de a bateria entrar, com um ritmo contínuo e deliberado. A linha de baixo vibra por baixo, redonda e hipnótica. Quando a amostra vocal entra — «insight, foresight, more light» — parece uma revelação sussurrada através do pó. É melancólico e esperançoso ao mesmo tempo, como observar as luzes da cidade através da chuva.
A conquista de Shadow não foi apenas técnica. Foi emocional. Cada som tem peso porque foi escolhido, não reproduzido. Aqui, a amostragem não é roubo; é tradução. Ele transforma fragmentos esquecidos em novas memórias. É música feita a partir da história, mas que nunca parece nostálgica. Parece eterna.
No bar de audição, «Endtroducing…» cria uma estranha quietude. As pessoas começam a falar em voz baixa sem saberem porquê. As frequências baixas assentam como veludo, os hi-hats cintilam suavemente pelo campo estéreo. Através de um sistema de alta qualidade, é possível sentir a profundidade — o ar entre as amostras, a reverberação natural de gravações antigas preservadas e reanimadas. É acolhedor, imperfeito, profundamente humano.
Há uma fotografia que capta na perfeição este disco: o DJ Shadow na cave da loja Rare Records, em Sacramento, rodeado por milhares de LPs empilhados do chão ao teto. Essa imagem tornou-se a capa — um registo documental acidental do seu método. Quase se consegue ouvir aquela sala no som: o cheiro a cartão, o barulho das capas de plástico, a paciência de horas passadas a ouvir à procura dos dois segundos certos de brilhantismo.
«Endtroducing…» foi o primeiro álbum de sempre composto inteiramente por samples a ser reconhecido como tal pelo Guinness World Records. Mas reduzi-lo a uma mera novidade é não compreender o essencial. Não se trata da técnica; trata-se da atmosfera. Shadow transformou a colagem em coerência. Criou um mundo onde tudo — funk, soul, rock, jazz, gospel — coexiste na mesma tonalidade emocional.
Lançado pela editora Mo’ Wax, de James Lavelle, o álbum surgiu num momento fértil para a música eletrónica britânica e americana — uma época em que as fronteiras entre o trip-hop, o downtempo e o ambient se estavam a esbater. Mas enquanto outros procuravam texturas por uma questão de moda, os Shadow procuravam a permanência. O disco não envelhece. Está demasiado bem equilibrado. As batidas são cruas, as melodias eternas, o ambiente universal.
Do ponto de vista cultural, mudou a forma como as pessoas encarávam o hip-hop. Mostrou que a música instrumental podia transmitir uma narrativa, que um produtor podia ser um compositor e que a emoção podia habitar na maquinaria. Sem o *Endtroducing*, talvez não houvesse Bonobo, nem Flying Lotus, nem canais de hip-hop lo-fi a fazer de banda sonora às nossas noites tardias. As suas marcas estão por todo o lado — não só na música, mas na própria ideia de ouvir.
A forma como Shadow controla o ritmo é o que torna este álbum tão intemporal. Ele trata o silêncio como parte do ritmo e o espaço como um instrumento. Em «What Does Your Soul Look Like (Part 4)», o groove move-se como fumo, com a linha de baixo a enrolar-se suavemente por baixo da bateria tocada com escovas. Não há refrão, nem gancho — apenas um impulso, na medida certa. É música que ensina paciência.
Já ouvi o «Endtroducing…» muitas vezes em salas concebidas para a audição — espaços com pouca luz, conversas suaves, o aroma a uísque no ar — e este álbum encontra sempre o seu lugar. O disco tem peso. Preenche a sala sem levantar a voz. Cada loop dá a sensação de estar a girar desde sempre, à espera que o repares.
A magia de «Endtroducing…» reside no facto de soar simultaneamente antigo e novo. As amostras têm décadas, mas a composição transmite uma sensação intemporal. É um álbum sobre o processo — o ato de criação lento e tátil numa época anterior à conveniência. Há uma reverência na sua construção, uma crença de que o próprio som pode ser sagrado.
Quando as últimas notas de «What Does Your Soul Look Like (Part 1)» vão-se desvanecendo, percebes que estiveste num lugar qualquer. Não numa discoteca, nem num estúdio — mas sim numa espécie de museu interior. Cada som era um objeto encontrado, restaurado, recontextualizado e a quem foi dada uma nova vida.
É por isso que «Endtroducing…» faz parte desta coleção. Não se trata de ritmo nem de movimento. Trata-se de atenção. Da forma como a escuta pode transformar fragmentos numa totalidade. Num mundo que avança demasiado depressa, continua a ser um milagre lento — uma lembrança de que, por vezes, a música mais profunda é feita de pó, paciência e amor.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.