Fela Kuti — Zombie (1976)

Fela Kuti — Zombie (1976)

Uma obra-prima intrépida do Afrobeat que transformou o ritmo em rebelião — e mudou o rumo da música moderna.

Por Rafi Mercer

Há álbuns que entretêm, álbuns que acalmam e álbuns que simplesmente encontram o seu lugar no pano de fundo dos nossos dias. E depois há os álbuns que se recusam a ficar quietos — obras que entram na sala com uma espinha dorsal de intenção, um pulso de resistência e uma espécie de coragem inabalável que ainda se consegue sentir décadas mais tarde. O álbum «Zombie», de Fela Kuti, é um desses discos. Mesmo agora, quase cinquenta anos depois, surge com a clareza inconfundível de um foguete de sinalização disparado na noite.

A primeira coisa que se nota é a forma do ritmo — aquele motor de Afrobeat firme e inabalável criado por Fela e pelo lendário baterista Tony Allen. É um ritmo que se repete não como uma repetição, mas como uma escalada, como uma marcha que se transforma numa mensagem. Os metais avançam, nítidos como luzes de aviso. As guitarras tagarelam como uma multidão à beira de uma revolta. E por cima de tudo isto, Fela começa a criticar abertamente as forças armadas nigerianas, não com metáforas ou insinuações, mas com uma sátira direta e destemida. «Um zombie não anda a menos que lhe digas para andar…
» Ele não estava apenas a descrever a obediência; estava a expor a própria maquinaria do poder.

Para compreender o peso deste álbum, é preciso compreender o que aconteceu a seguir. A canção irritou o regime de tal forma que os soldados invadiram a República de Kalakuta de Fela — uma comuna, um estúdio, um santuário — e reduziram-na a cinzas. A mãe dele foi atirada de uma janela durante a incursão; mais tarde, morreu devido aos ferimentos. Fela colocou o caixão dela aos portões do quartel militar, em sinal de protesto. É neste contexto que «Zombie» se insere: não é apenas música, não é apenas arte, mas sim consequência. Ouvir esta canção é sentir como o som pode tornar-se um ato de rebeldia.

E, no entanto, apesar de toda a sua ferocidade, há uma alegria inegável a percorrer os sulcos — uma exuberância nos metais, um otimismo incansável na percussão. No seu âmago, o afrobeat foi sempre uma celebração, mesmo quando servia de arma. Fela compreendeu algo raro: que o ritmo pode transmitir a verdade ao corpo antes que a mente tenha tempo de a captar. Que a dança pode ser uma forma de protesto. Que uma canção gritada com suficiente intensidade, com espírito e clareza suficientes, pode sobreviver ao silêncio que se segue à repressão.

Quando ouvido numa sala — qualquer sala —, «Zombie» altera a sua arquitetura. As paredes parecem mais próximas. O ar torna-se mais denso. O ritmo passa a ser partilhado por todos. Os bares de música e os cafés de vinil adoram este álbum precisamente por essa razão: não se limita a preencher o espaço; põe-no à prova. Pergunta se a sala está a prestar atenção. Pergunta se as pessoas que nela se encontram estão dispostas a conviver com algo desconfortável, algo ousado, algo honesto.

O que mais me fica na memória é a precisão. Nada em «Zombie» é acidental. A sátira, o arranjo, a força motriz — tudo isto foi concebido com um sentido de missão. Fela não estava a tentar criar um sucesso; estava a tentar despertar uma nação. E, ao fazê-lo, criou um dos álbuns políticos mais importantes de sempre, uma obra cujo legado se reflete em inúmeros artistas, movimentos e noites em que alguém procura um disco que diga a verdade sem vacilar.

O «Zombie» não é música de fundo. Nunca foi. É uma lembrança — alta, brilhante e destemida — de que o som pode ter consequências e de que, por vezes, a coisa mais corajosa que se pode fazer é obrigar a sala a ouvir.


Perguntas rápidas

De que trata, afinal, «Zombie»?
Um ataque satírico feroz às forças armadas nigerianas, que critica a obediência cega e a violência sistémica através de motivos de afrobeat incisivos e repetitivos.

Por que razão este álbum é historicamente significativo?
O seu lançamento provocou uma incursão brutal do governo na comuna de Fela, o que mudou o rumo da sua vida, impulsionou o afrobeat e consolidou o disco como um símbolo de resistência artística.

Porque é que isto ainda é importante hoje em dia?
Porque mostra como o ritmo, o protesto e a verdade se podem combinar para criar algo que sobrevive ao seu momento político — uma peça musical que ainda hoje transmite urgência e paixão.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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