Fila Brazillia – Luck Be a Weirdo Tonight (1997)
Por Rafi Mercer
Tudo começa com um sorriso. Consegue-se senti-lo antes mesmo de o ouvir — aquele humor malicioso e seguro de si que permeia o título: «Luck Be a Weirdo Tonight». Lançado em 1997, é um daqueles álbuns que sabe exatamente o que está a fazer, mas que, mesmo assim, finge não se importar. Um disco feito por duas pessoas que sabiam como fazer com que o groove soasse natural e como fazer com que a ironia soasse sincera.
Os Fila Brazillia — Steve Cobby e David McSherry — construíram o seu mundo longe dos círculos londrinos, trabalhando a partir de Hull com um espírito de independência que conferiu ao seu som aquela descontração. Não seguiram as tendências; experimentaram, deram um toque pessoal, sobreporam camadas, riram-se. E, ao fazê-lo, criaram algo discretamente intemporal — um álbum de downtempo que ainda parece vivo, que ainda parece divertir-se com a sua própria perfeição.
Lembro-me de o ter ouvido num bar onde as colunas estavam ajustadas na perfeição — não muito alto, apenas com um som autêntico. A sala parecia envolvida pelo som: os graves suaves, mas constantes, os agudos a brilhar como vidro à luz fraca. Ninguém estava a dançar, mas também ninguém queria falar. O álbum tinha aquele poder estranho — não impunha o silêncio; incentivava a quietude.
Desde a primeira faixa, «Lieut. Gingivitis Shit», o tom é claro: excêntrico, confiante, cheio de ritmo. É um funk construído a partir da travessura. A linha de baixo avança com determinação, a bateria acompanha com perfeição, e as amostras fazem uma referência educada ao jazz e ao dub antes de se esvaírem. Dá para perceber o sorriso na sequência musical.
O que torna «Luck Be a Weirdo Tonight» extraordinário é a sensação tátil que transmite. A produção é toda uma questão de textura — o chiado analógico, a percussão com escovas, os teclados que soam ligeiramente gastos. É como se cada elemento tivesse sido trabalhado à mão e, depois, deixado a respirar. Num bom sistema de som, consegue-se sentir a profundidade: calor por baixo, ar por cima, tudo no seu devido lugar.
«Do the Hale-Bopp» surge como um passeio noturno por ruas secas — paciente, hipnótico, infinitamente descontraído. O ritmo prolonga-se, mas nunca se quebra; os sintetizadores zumbem como lâmpadas de sódio. É o som do movimento sem movimento. Os Fila Brazillia compreenderam que os melhores grooves são aqueles que não tentam provar nada.
E depois há «Billy Goat Groupies» — divertida, psicadélica, o tipo de faixa que recompensa tanto a curiosidade como umas boas colunas. É possível ouvir camadas que vão surgindo e desaparecendo, os graves mais profundos a traçarem círculos suaves, a percussão a esvoaçar como uma memória. É música eletrónica com personalidade — cheia de encanto, cheia de ar.
O que mais adoro é a forma como este álbum consegue soar descontraído, mas ao mesmo tempo meticulosamente construído. Cada detalhe é tido em conta, mas nada parece forçado. Consegue-se sentir o estúdio — não como um laboratório, mas como um espaço vivo. Risos nas gravações, erros transformados em motivos, o zumbido suave do equipamento em segundo plano. É música construída a partir do conforto, não da competição.
E, ainda assim, por baixo dessa descontração, há sofisticação. As escolhas harmónicas têm um toque de jazz; a bateria tem swing onde poderia ter ficado limitada a um loop. O álbum percorre essa linha ténue entre o intelecto e o instinto — suficientemente inteligente para impressionar, suficientemente simples para se desfrutar.
Quando se chega a «Her Majesties Hokey Cokey», percebe-se o que realmente se passa. Isto não é apenas downtempo; é sátira traduzida em linhas de baixo. É uma rebelião divertida — o som de músicos que adoram o groove, mas se recusam a comportar-se como é suposto. Há travessura na contenção, elegância na piada.
A mistura é acolhedora, paciente e confiante. Sem frequências agressivas, sem brilho digital. Os graves têm peso, mas nunca se tornam sufocantes; os agudos brilham sem aspereza. É o equivalente sonoro de uma boa alfaiataria — roupa casual que assenta na perfeição.
Ao ouvi-lo agora, quase trinta anos depois, «Luck Be a Weirdo Tonight» continua a soar a liberdade. Liberdade em relação às modas, às fórmulas e à necessidade de dar explicações. É um álbum que confia na inteligência do ouvinte — e no seu sentido de humor.
O ritmo é perfeito. Cada faixa flui para a seguinte como uma conversa que sabe quando fazer uma pausa. Não há gestos grandiosos, nem clímax desnecessários. Apenas tom, equilíbrio, ritmo. A verdadeira beleza reside no que não faz — nunca exige atenção e, no entanto, conquista-a sempre.
Num mundo que se tornou cada vez mais barulhento e acelerado, este álbum parece ainda mais essencial. A sua mensagem — embora nunca seja expressa verbalmente — é clara: o relaxamento é um ato de rebelião e a curiosidade continua a ser algo fantástico.
Quando a última faixa vai-se esvanecendo, ficas naquele estado perfeito entre o pensamento e o sentimento. O ar na sala parece diferente, de alguma forma reorganizado. Ficaste a perceber que o groove não tem de ser sério para ser sincero — que o calor e a ironia podem coexistir, que o som pode sorrir e, mesmo assim, ter significado.
«Luck Be a Weirdo Tonight» é uma obra-prima da discrição. É o que acontece quando os músicos confiam mais nos seus ouvidos do que nos seus egos.
E talvez seja essa a lição — que, por vezes, a coisa mais inteligente que se pode fazer é brincar.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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