Four Tet – Three (2024)
Por Rafi Mercer
Alguns álbuns surgem como convites; «Three», dos Four Tet, lançado em março de 2024, transmite exatamente essa sensação: um gesto suave em direção ao interior do som, um convite para abrandar sem parar. Kieran Hebden há muito que cria obras que se situam entre o ritmo e a atmosfera, entre a memória e a especulação. Com «Three», esses espaços liminares parecem menos solitários, mais deliberados.
Ouvir «Three» numa sala com acústica orientada para a presença é perceber a sua arquitetura: a forma como a bateria se funde com o silêncio, como o chiado da fita ou um ambiente suave envolvem um acorde. A faixa de abertura, «Loved», surge com uma batida suave de hip-hop, linhas de teclado quentes que pairam como o crepúsculo, estabelecendo um tom que não tem a ver com tensão, mas sim com chegada. «Gliding Through Everything» dá continuidade a essa sensação — bateria espaçada, mudanças de acordes suaves, uma melodia que parece simultaneamente nostálgica e voltada para o futuro. Hebden constrói estas faixas não à força, mas com paciência: esperando que os detalhes desabrochem lentamente, deixando que o ouvido se acomode no ritmo, em vez de perseguir o que está para vir.
O que é notável é a forma como o álbum mantém o contraste sem se fragmentar. «Daydream Repeat» acelera o ritmo por um momento; «Skater» aborda a eletrónica leve; «Storm Crystals» avança para uma expansão textural. No entanto, o conjunto respira a um único ritmo — sem transições bruscas, sem mudanças abruptas de género. Em vinil ou através de boas colunas, «Three» revela as suas camadas gradualmente: o raspar da percussão, o filtro variável nos sintetizadores, o espaço entre as vozes instrumentais. Se prestarmos atenção, podemos perceber onde Hebden se inspira nas suas influências iniciais — o ambiente, o pós-rock, o peso subjacente da música eletrónica britânica — e onde se permite aventurar-se por territórios mais novos.
Num ambiente de audição em casa, «Three» é um companheiro de noite. Não é aquele que te faz sair de casa, mas sim aquele com quem te esticas no sofá ou te recostas numa cadeira depois do jantar, deixando que o som preencha a sala. Redefine as dimensões da sala; o amanhã parece possível. Suaviza a noite com reflexão, não com melancolia. Há faixas como «So Blue» que parecem pequenas elegias, mas também faixas como «Three Drums», que encerra o álbum com algo contemplativo, quase ambiente, esvanecendo-se no silêncio. Há um cuidado especial nestes finais.
A atenção de Hebden à textura é importante porque o «Three» aposta nas nuances. A bateria é frequentemente sampleada ou programada, mas tem um swing com a descontração humana; os sintetizadores são quentes, em vez de frios e clínicos; as gravações de campo e os ruídos incidentais fazem uma aparição discreta — pássaros ou trânsito distante, uma respiração ou uma porta a fechar —, lembrando-nos que esta música foi criada em locais reais, por alguém que observava entre as tarefas do dia-a-dia. Trata-se menos de um acabamento impecável e mais de honestidade. Este álbum valoriza colunas e sistemas que reproduzem tanto os sons suaves como os altos, que transmitem os graves mais profundos sem vibrações indesejadas e que posicionam os campos estéreo de forma a que se possa sentir o ângulo e a profundidade.
Por que faz parte da prateleira de audição: «Three» não é um álbum que procure chamar a atenção. É um álbum que cria espaço. Numa coleção que inclui Nina Simone, Miles Davis, Donald Byrd e Fela Kuti, «Three» lembra-nos que a audição profunda inclui subtilezas eletrónicas, interlúdios ambientais e aqueles momentos em que o som tem mais a ver com presença do que com impulso. Faz parte do percurso — da prateleira não só da história, mas também do presente.
Quando tudo acaba, não se tem a sensação de ter consumido algo; tem-se a sensação de ter passado por uma paisagem — as luzes da cidade, os comboios tardios, o silêncio do amanhecer. Isso é mais do que suficiente.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais