Harold Budd & Brian Eno – The Plateaux of Mirror (1980)

Harold Budd & Brian Eno – The Plateaux of Mirror (1980)

Por Rafi Mercer

As primeiras notas soam como ondulações, tons de piano suavizados, como se fossem ouvidos através da água. Surgem lentamente, entrando e saindo de foco, cada uma delas suspensa numa névoa de ressonância. É assim que «The Plateaux of Mirror» começa — não com uma afirmação, mas com uma atmosfera. Lançada em 1980, a colaboração entre Harold Budd e Brian Eno é frequentemente descrita como uma pedra angular da música ambiente. Mas, ao contrário de «Music for Airports», que foi construído a partir de loops e sistemas, este álbum transmite uma sensação pessoal, até mesmo terna. É um disco de presença, de toque, de tempo esticado até o som se tornar espaço.

O piano de Harold Budd está no centro. No entanto, não se trata de um piano no sentido habitual. Eno gravou-o com muita reverberação e processamento, transformando cada nota numa flor que perdura muito depois de a tecla ser pressionada. O efeito é misterioso: um instrumento reconhecível que se torna desconhecido, com os seus contornos esbatidos. As notas não terminam; desvanecem-se na névoa. Budd, por seu lado, toca com contenção, deixando silêncios amplos, permitindo que a ressonância transmita significado. O que poderia ter sido minimalista torna-se rico, porque o espaço entre as notas está vivo.

O álbum é composto por dez peças curtas, cada uma delas semelhante a um esboço ou a uma vinheta. Têm títulos que evocam paisagens ou sonhos: «First Light», «The Silver Ball», «An Arc of Doves», «Their Memories». Não se trata de composições no sentido tradicional; são atmosferas. Ouvir estas peças não é tanto acompanhar uma progressão, mas sim mergulhar num estado de espírito. Cada peça dá a sensação de ser uma divisão em que se entra, com pouca mobília, mas iluminada por uma luz peculiar e evocativa.

«First Light» abre o álbum com acordes lentos que parecem dissolver-se ainda enquanto são tocados. O sustain transforma a harmonia numa névoa, como se o próprio tempo estivesse a desvanecer-se. «The Plateaux of Mirror», a faixa-título, introduz mais fragmentos melódicos, com a mão direita de Budd a traçar linhas delicadas sobre o borrão da ressonância. Parece uma memória parcialmente evocada, precisa nas margens, mas a desvanecer-se no centro. «An Arc of Doves» está entre as faixas mais comoventes, com as suas figuras suavemente descendentes a sugerirem tanto graça como melancolia, como pássaros a voar em círculos em câmara lenta.

O que distingue esta colaboração é o encontro entre a sensibilidade de Budd e a tecnologia de Eno. Budd era frequentemente descrito, para seu aborrecimento, como um minimalista. Na verdade, a sua música é demasiado emocional, demasiado vulnerável para ser reduzida a sistemas. O seu dom residia na simplicidade imbuída de sentimento, numa contenção que não arrefece, mas aquece. Eno, em contrapartida, era fascinado pelo processo, pelas formas como as máquinas e os loops podiam gerar textura. Juntos, encontraram o equilíbrio: Budd a fornecer o frágil núcleo humano, Eno a expandi-lo para uma atmosfera.

O resultado é um álbum que transmite uma sensação ao mesmo tempo antiga e futurista. O piano é reconhecível, mas transformado em algo sobrenatural. As peças são gravações modernas, mas evocam o canto medieval, o colorido impressionista e até fenómenos naturais — água, vento, luz. Não é por acaso que muitos ouvintes descrevem a música em termos visuais. Não se trata de canções, mas sim de imagens sonoras, placas de memória expostas à luz.

Ouvir *The Plateaux of Mirror* é transformar a sala. A música é tranquila, quase frágil, mas preenche o espaço de uma forma que os discos mais intensos não conseguem. Agudiza a atenção para as subtilezas: o decaimento de uma nota, a sobreposição de tons, a textura do silêncio. É uma música que não exige resposta, mas que intensifica a perceção. Muitos discos de música ambiente aspiram a este equilíbrio — ignorável, se assim o desejar, transformador, se lhe prestar atenção —, mas poucos o alcançam com tanta graciosidade.

Do ponto de vista cultural, o álbum reforçou a ideia de que a música ambiente não é apenas funcional, mas também emocional. Enquanto *Music for Airports* propunha um conceito, *The Plateaux of Mirror* oferecia intimidade. Tornou-se um ponto de referência para gerações de compositores de música ambiente e neoclássica: a ideia de que a simplicidade pode conter profundidade, de que o estado de espírito pode ser sinónimo de significado. A sua influência é percetível no minimalismo contemporâneo para piano, nas bandas sonoras de filmes e na arte sonora. Mas, para além da influência, o seu poder de perduração reside na sua delicadeza. Poucos discos se arriscam a ter tão poucos adornos, e ainda menos conseguem fazê-lo com sucesso.

Ao ouvi-lo hoje, quarenta anos depois, o disco parece quase intemporal. As suas texturas não envelhecem, porque nunca foram próprias de um momento específico. Existem em suspensão, tão relevantes agora como naquela altura. Se o ouvirmos de manhã, parece a luz do amanhecer. Se o ouvirmos tarde da noite, transforma-se em memória. É música que se adapta, não mudando, mas refletindo o estado de espírito de quem a ouve.

Talvez a qualidade mais notável de *The Plateaux of Mirror* seja a sua humildade. Não se apresenta como uma obra-prima. Não exige reconhecimento. Simplesmente existe, oferecendo espaço, oferecendo calma, oferecendo beleza sem insistência. E é talvez por isso que continua a ser importante. Num mundo de ruído e afirmações, a sua tranquilidade torna-se radical.

Harold Budd viria a gravar muitos mais álbuns, alguns deles novamente com Eno, mas esta continua a ser a sua colaboração mais marcante. Capta não só o som de dois artistas, mas também uma filosofia: a de que a música não precisa de lutar pelo domínio para ser importante, que a própria atmosfera pode ser profunda. *The Plateaux of Mirror* não é um espetáculo. É um santuário.

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Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.

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