Herbie Hancock – Maiden Voyage (1965)

Herbie Hancock – Maiden Voyage (1965)

Por Rafi Mercer

Alguns álbuns surgem como navios que atravessam o nevoeiro, com a buzina a soar antes mesmo de se avistar a embarcação. «Maiden Voyage», gravado em 1965, quando Herbie Hancock tinha apenas vinte e quatro anos, é exatamente isso — uma declaração, um jovem compositor e pianista a traçar uma nova rota marítima no jazz. O próprio título sugere exploração, risco, uma partida rumo ao desconhecido. Ao ouvi-lo agora, quase seis décadas depois, ainda tem aquele sabor salgado da descoberta, o ar salgado que nos faz endireitar as costas e respirar mais profundamente.

O álbum começa com a faixa-título, uma composição que, desde então, se tornou um clássico, mas que aqui ainda parece uma expedição prestes a zarpar. O trompete de Freddie Hubbard ergue-se como um mastro contra o céu, o saxofone tenor de Wayne Shorter é o vento que enche as velas, o contrabaixo de Ron Carter mantém a quilha firme e Tony Williams, com apenas dezanove anos, controla a maré com a sua bateria. O próprio Hancock não força o piano a dominar; em vez disso, coloca acordes como bóias de navegação, guiando o navio para mar aberto. O ritmo é um pulso constante e ondulante, não uma corrida frenética. Parece o mar: vasto, sem pressa, confiante de que te pode levar para onde precisares de ir.

Do ponto de vista educativo, «Maiden Voyage» é fascinante porque mostra a mente composicional de Hancock em pleno apogeu. Ele não se contentava em escrever apenas peças para improvisação. Eram suítes, atmosferas, poemas sinfónicos que afastavam o jazz dos clubes lotados e o aproximavam de paisagens. Cada faixa evoca um elemento do mar. «The Eye of the Hurricane» traz uma frente de tempestade, cheia de energia e perigo. «Dolphin Dance» é divertida, leve, mas complexa — uma peça que os músicos ainda hoje analisam pelas suas progressões de acordes, que conseguem ser simultaneamente sofisticadas e fluidas. Hancock já estava a expandir a linguagem harmónica do jazz, mas fazia-o com graciosidade, em vez de densidade.

O que torna este álbum inspirador é precisamente a sua juventude. Imaginem ter vinte e quatro anos, já fazer parte do Segundo Grande Quinteto de Miles Davis e já ter a confiança necessária para compor obras que se tornariam clássicos. No entanto, Hancock não se gabava; ofereceu algo generoso, um disco que se abre aos ouvintes em vez de os excluir. Não é música difícil, mas é profunda. Mesmo agora, quando coloco a agulha na minha cópia, não ouço arrogância, mas sim um convite. O disco diz: vem comigo, vamos ver o que há por aí.

E nos bares de música — em Tóquio, Berlim, Nova Iorque — «Maiden Voyage» tornou-se um daqueles discos a que os seletores recorrem quando querem mudar o ritmo de uma noite. Não para abrandá-la, nem para lhe dar mais energia, mas para a elevar a outro nível. O swing profundo de Carter e Williams garante que o groove nunca nos abandona. Shorter e Hubbard, no auge da sua carreira, criam melodias que permanecem no ar muito depois de os metais se calarem. E o piano de Hancock, sempre ponderado, sempre preciso, mantém o navio firme. É música que se pode acompanhar de perto, estudando a engenharia da sua harmonia, ou deixar que nos envolva, tão naturalmente como o tempo.

Uma das minhas próprias memórias é ouvir «Dolphin Dance» num bar londrino cuidadosamente equipado, com um gira-discos Garrard ligado a colunas Tannoy. Lembro-me de como a linha de baixo parecia mover o próprio ar, não de forma ruidosa, mas física, como se a gravidade da sala tivesse mudado. A amplitude da faixa levava as pessoas ao silêncio. As conversas abrandavam, as cabeças inclinavam-se. Esse é o milagre de um disco como este: consegue criar silêncio ao preenchê-lo.

Neste contexto, *Maiden Voyage* ocupa um lugar fascinante na carreira de Hancock. Ele já tinha lançado *Empyrean Isles* no ano anterior, com o icónico «Cantaloupe Island», e estava prestes a tornar-se uma figura central nas explorações modais de Miles Davis. Em menos de uma década, iria aventurar-se no funk com «Head Hunters» e, mais tarde, na música eletrónica, nas bandas sonoras de filmes e no hip hop. Mas aqui, em 1965, ele destilou algo essencial: a sensação de partir em viagem. As composições são frescas, sem parecerem hesitantes. Transmitem tanto a confiança da mestria como a curiosidade de um principiante.

Para quem ouve com atenção, há algo de quase arquitetónico na forma como o álbum está construído. Cada faixa explora uma divisão diferente da mesma estrutura. «Little One», inquietante e delicada, é toda sombras e janelas abertas, uma composição tão frágil que Miles Davis viria em breve a gravar a sua própria versão. «Survival of the Fittest» é mais angular, testando os limites da estrutura, enquanto «Maiden Voyage» é, por si só, o grande salão, vasto e ressonante. Ouvir o álbum na ordem é como percorrer um espaço concebido não para o espetáculo, mas para a ressonância.

A lição educativa é clara: o jazz no seu melhor não abandona a forma, nem se agarra a ela. Utiliza a forma como um recipiente. A genialidade de Hancock consistiu em conceber recipientes suficientemente resistentes para navegar, mas suficientemente abertos para deixar entrar o tempo. Todos os músicos deste disco tiveram espaço para respirar, para improvisar, mas as composições mantiveram a sua estrutura. É esse equilíbrio que faz com que *Maiden Voyage* tenha sido estudado por gerações de músicos e apreciado por gerações de ouvintes.

E quanto à inspiração? Reside no facto de Hancock ter gravado este álbum não como um mestre a olhar de cima do cume da montanha, mas como um jovem a dar os primeiros passos. Chamou-lhe «viagem inaugural» porque sabia que estava no início. E esse início continua a inspirar — lembrando-nos de que o primeiro passo rumo ao desconhecido pode ser belo, que o risco pode soar como tranquilidade, que a juventude pode conter sabedoria.

Coloca o disco «Maiden Voyage» no teu próprio bar em casa. Deixa «Dolphin Dance» tocar enquanto serves o primeiro copo da noite. Repara como a sala se transforma, como o baixo e a bateria fazem vibrar o soalho, como os metais abrem as janelas, como o piano tece o ar com luz. Isto não é música de fundo. É uma viagem. E, tal como todas as viagens, só te pede que subas a bordo.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da secção «Tracks & Tales»,subscreva ou clique aqui para ler mais.

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