Hiroshi Yoshimura – Música para Nove Postais (1982)
Por Rafi Mercer
Tudo começou, como acontece com a maioria dos momentos de audição, por acaso. Estava meio acordado uma manhã quando uma melodia flutuou no ar — suave, paciente, incrivelmente leve. Parecia não vir do altifalante, mas da própria sala. O som era límpido como vidro, cada nota a dissolver-se na seguinte como o vapor de um hálito numa janela. Mais tarde, descobri que se tratava de «Blink», a faixa de abertura do álbum *Music for Nine Post Cards*, de Hiroshi Yoshimura — e essa descoberta reorganizou silenciosamente a minha forma de pensar sobre a audição.
Yoshimura gravou o álbum em 1982, utilizando uma configuração simples de teclado e uma sensibilidade que parece quase sobrenatural. Chamou a estas peças «postais» porque é isso que elas são — pequenas observações, fragmentos de sentimentos enviados de um momento para outro. Cada faixa é uma cena retratada em som: nuvens a passar por edifícios, a chuva a escorrer pelo vidro, a luz a atravessar a janela de um museu. Não há drama, nem clímax, apenas aquele tipo de beleza que se esconde no quotidiano.
Ao ouvi-lo agora, percebe-se como a contenção se tornou algo raro. Cada acorde é mantido apenas o tempo suficiente para se desvanecer naturalmente. As pausas são tão significativas quanto as notas. Não é «ambient» no sentido de música de fundo; é «ambient» no sentido de presença. O álbum não embeleza o silêncio — ensina-nos a ouvi-lo.
«Blink» continua a ser a peça-chave para mim. A sua melodia repete-se, quase sem alterações, mas a cada repetição a nossa perceção adapta-se. Quanto mais tempo se ouve, mais a música parece responder. Depois surge «Urban Snow», fresca e leve, como se estivéssemos a ver a luz a incidir sobre o betão. «View From My Window» poderia tocar para sempre — parece menos uma composição e mais um fenómeno meteorológico.
O que torna a obra de Yoshimura surpreendente é a sua humildade. Ele não impõe significado; oferece uma perspetiva. As suas composições comportam-se tal como a natureza — de forma discreta, paciente, com um propósito que nunca se revela. Damos por nós a abrandar o ritmo para nos sintonizarmos com ela. Através de um bom par de colunas, o tom é íntimo mas amplo, o teclado suave mas preciso. Cada nota parece ter sido tocada à mão.
É música que funciona como arquitetura. O espaço em torno do som torna-se parte integrante da peça — o zumbido do teu quarto, a pausa entre as frases, a vibração ténue do ar. Nesse sentido, «Music for Nine Post Cards» não é um álbum que se ouve; é um ambiente em que se entra.
Há também um fio condutor emocional ao longo do álbum, embora Yoshimura nunca nos diga o que devemos sentir. A calma não é vazia; está repleta de paciência. A melancolia não é tristeza; é compreensão. É isso que torna este álbum uma experiência auditiva tão profunda — cria quietude sem eliminar o movimento.
Quando o disco acaba, percebes o silêncio de uma forma diferente. Os sons do dia a dia — passos, pássaros, o zumbido baixo de um frigorífico — ganham, de repente, profundidade. É como se o álbum tivesse afinado a tua atenção, em vez de a ter entretido. Ficas ali sentado por um momento, sem pressa em preencher o silêncio, apenas consciente de que o mundo zumbe em harmonia.
Às vezes penso que Yoshimura compôs esta música não para o público, mas para os espaços. No entanto, ao ouvi-la hoje, com auscultadores, num bar ou sozinho ao amanhecer, ela continua a tocar-nos. É intemporal não porque resista à mudança, mas porque a acolhe. Cada vez que a ouvimos, torna-se um novo postal — enviado, recebido e silenciosamente recordado.
É isso que a verdadeira música ambiente faz. Não exige nada. Simplesmente permanece.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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