Hiroshi Yoshimura – Música para Nove Postais (1982)
Por Rafi Mercer
Imagina-te a passear por um museu ao fim do dia, com a luz a incidir suavemente sobre as paredes de vidro e as salas quase vazias. Lá fora, as nuvens deslizam lentamente; lá dentro, os teus passos ecoam vagamente. É esta a atmosfera que Hiroshi Yoshimura capta em *Music for Nine Postcards*, o seu álbum de estreia de 1982 — um disco que parece respirar com os espaços que o rodeiam. Não é música que conta uma história. É música que repara: na mudança do tempo, numa sombra que se projeta no chão, no tempo que passa suavemente.
Yoshimura não era um nome conhecido durante a sua vida. Trabalhou discretamente no Japão, compondo para galerias, espaços públicos e instalações. A sua intenção não era dominar, mas sim acompanhar, oferecer um som que enriquecesse o ambiente sem o sobrepor. Em muitos aspetos, fazia parte de uma linhagem de artistas japoneses — designers, arquitetos, jardineiros — que compreendiam que a beleza reside frequentemente na contenção, em permitir que o espaço continue a ser espaço. «Music for Nine Postcards» é a sua expressão mais clara dessa filosofia.
O álbum foi originalmente concebido para o Museu de Arte Contemporânea Hara, em Tóquio. Os visitantes que percorriam os seus corredores de vidro e aço ouviam estas peças a flutuar em segundo plano. Cada faixa tem um nome simples: «Water Copy», «Clouds», «Urban Snow», «View from My Window». São mais esboços do que composições, captando cada um um estado de espírito tão frágil como a luz a uma determinada hora.
A instrumentação é mínima: apenas piano e sintetizador, tocados com uma simplicidade sem pressa. As notas vão-se sucedendo lentamente, muitas vezes em pares, deixando longos silêncios entre elas. O pedal de sustain mantém-nas em ressonância, com o sintetizador a acrescentar um toque subtil, como neblina à volta de um candeeiro. Nada se desenvolve no sentido tradicional; em vez disso, os padrões repetem-se, dissolvem-se e regressam. É uma música não de movimento, mas de contemplação.
«Water Copy», a faixa de abertura, define o tom. As notas ondulam em repetição, como se espelhassem a água agitada por uma brisa. «Clouds» flutua com acordes que mal se alteram, suspensos no ar. «Urban Snow» capta o silêncio de uma cidade abafada pelo tempo — não uma grande tempestade, mas uma queda de neve tranquila que transforma o ruído em suavidade. Ao ouvir, sentimos o nosso próprio ritmo a abrandar. Até o ato de respirar parece alinhar-se com o ritmo, ou melhor, com a ausência de ritmo, do disco.
Não há aqui nada de excludente, nada destinado apenas a iniciados. Esta é uma música na qual qualquer pessoa pode entrar. Não exige conhecimento das tradições do jazz ou da música ambiente. Não exige o reconhecimento do virtuosismo. A sua beleza reside na sua humildade, na sua disposição para ser modesta. E, no entanto, precisamente por causa dessa humildade, abre um vasto território emocional. Tanto mulheres como homens, ouvintes experientes ou novatos curiosos, podem encontrar nela o mesmo convite: fazer uma pausa, olhar pela janela, observar o mundo.
O calor da presença de Yoshimura é percetível. Embora o disco seja sóbrio, nunca transmite uma sensação de frieza. Há uma simpatia no fraseado, uma sensação de acolhimento. Não é o tipo de minimalismo que nos exclui; é aquele que abre uma porta discretamente e diz: «Entra, senta-te, ouve um pouco.» Nesse sentido, é um antídoto para a linguagem frequentemente associada ao mundo masculino do colecionismo, do conhecedor ou da «escuta séria». Nine Postcards pede-nos apenas que estejamos presentes.
Durante décadas, o álbum permaneceu desconhecido, circulando apenas entre colecionadores, até à sua reedição na década de 2010. A redescoberta foi recebida com admiração quase universal. Os ouvintes referiram o quão moderno soava, como parecia perfeitamente sintonizado com as necessidades contemporâneas: música não de urgência, mas de paciência; não de espetáculo, mas de atenção. Desde então, tornou-se uma pedra angular da tradição ambiente japonesa, frequentemente associado a «Through the Looking Glass», de Midori Takada, ou a «Still Way», de Satoshi Ashikawa.
No vinil, a sua fragilidade é acentuada. O ruído de superfície da gravação mistura-se com a música, como se fizesse parte da própria composição. O fraco crepitar transforma-se numa queda de neve, ou no zumbido do trânsito distante, ou simplesmente noutro lembrete da presença. Esta não é música para a clareza digital; é música para o som vivido, um som que aceita a imperfeição.
Ao ouvi-lo hoje, percebe-se como a proposta de Yoshimura continua a ser radical. Numa cultura da velocidade, ele oferece a lentidão. Num mundo de afirmações incessantes, ele oferece a discrição. Num cenário de ruído, ele oferece o quase silêncio. E, com essa oferta, cria algo mais poderoso do que grandes gestos: um espaço onde ouvir se torna a própria vida.
«Music for Nine Postcards» é um álbum para se viver. Ponha-o a tocar enquanto lê, enquanto observa a chuva pela janela, enquanto cozinha, enquanto está sentado com alguém que ama. Não compete. Acompanha, suavemente. E, ao fazê-lo, confere dignidade a esses momentos comuns, lembrando-nos de que nunca são, de todo, comuns.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.