James Blake – James Blake (2011)
Por Rafi Mercer
Nem todos os álbuns para ouvir soam assim. Alguns transmitem calor; outros vibram com instrumentos de madeira, metais e ritmo. Mas « », o álbum de estreia de James Blake, não nos atrai com o seu tom — mantém-nos à distância, algures entre a intimidade e a abstração. E é precisamente esse o objetivo.
Lembro-me da primeira vez que a ouvi — no final do inverno, com a casa quase toda às escuras. Os acordes iniciais de «Unluck» surgiram como se fossem ruído estático a transformar-se em oração. Esparsos, frios, belos. Não sabia se a música pretendia confortar ou confrontar, mas fiquei imóvel e deixei que fosse ela a decidir.

Há uma disciplina na forma como Blake constrói a emoção. Cada som parece ser ponderado antes de ser libertado. As vozes pairam à beira de se quebrar; os sintetizadores desabrocham e depois desaparecem; o baixo surge como a respiração contra o vidro. É uma música que recusa a indulgência. E, no entanto, nessa contenção, algo surpreendente acontece — o sentimento começa a brilhar através das fendas.
Tinha vinte e dois anos quando criou isto — apenas alguns anos depois de ter começado a fazer dubstep no quarto, e de repente a manejar o silêncio como se fosse um instrumento. É possível ouvir a herança do minimalismo eletrónico, mas também se ouve algo mais antigo: a cadência de um hino, o tremor humano, uma devoção silenciosa à imperfeição. Pertence àquela rara categoria de discos a que voltamos não por nostalgia, mas para nos reorientarmos — o tipo de disco que se esperaria encontrar discretamente arquivado na prateleira de audição, em vez de ser anunciado a bom som num calendário de lançamentos.
«Wilhelm Scream» continua a ser um dos grandes estudos modernos sobre a recursão emocional. A letra é quase nada — «Já não sei nada sobre os meus sonhos» — repetida, invertida, reformulada até se tornar um mantra. O que importa não é o significado, mas o movimento, a forma como se desmorona e se reconstrói dentro dos teus ouvidos. Num bom sistema, os subgraves não se limitam a ressoar; reordenam a sala — tal como os melhores espaços de audição fazem quando se permite que o som ocupe o ar como deve ser.
Depois, há «Lindisfarne I & II» — fragmentos com auto-tune e harmonias em falsete que soam como um hino meio humano, meio algorítmico. Não devia funcionar, mas funciona, porque Blake trata a distorção como intimidade. Ele não suaviza as arestas; em vez disso, expõe-nas à luz.
O álbum transmite uma sensação de ter sido feito à mão, apesar da sua forma digital. É possível sentir os gestos físicos por trás de cada som — uma tecla premida, um fader movido, uma respiração contida. A produção deixa as suas marcas. Quando o piano entra em «Give Me My Month», não soa como uma gravação; soa como se fosse a própria sala a expirar.
Ao ouvi-lo agora, é fácil esquecer o quão radical este minimalismo parecia em 2011. A música eletrónica estava ocupada a perseguir o volume; o pop estava a aprender a usar a compressão como espetáculo. E então surgiu isto — um álbum que baixou a voz e viu o mundo a aproximar-se. Blake não preencheu o espaço; esculpiu-o. Ele provou que o silêncio, quando tratado adequadamente, é ritmo — uma lição que ainda hoje ressoa na cultura auditiva moderna.
O que mais adoro neste álbum é a sua sensação de incerteza. Não finge ter resolvido nada. Permanece na penumbra entre a solidão e a ligação, entre a máquina e o homem. Dá para perceber que está à procura, não a dar lições. Essa procura é a arte.
A capa — aquele retrato desfocado — diz a verdade: identidade em movimento, o eu visto através da distorção. É o espelho perfeito para a música que contém. A voz de Blake nunca é única; é duplicada, modulada, fantasmagórica, humana e inumana ao mesmo tempo. Trata-se menos de expressar o eu do que de dissolver o ego até que apenas o tom permaneça.
A meio do álbum, percebe-se que este é um álbum tanto sobre a forma como ouvimos como sobre o que ouvimos. Faz-nos abrandar o ritmo. Exige paciência. Começamos a reparar em detalhes — micropausas, caudas de reverberação, o ligeiro realce de uma sílaba — que nos escapariam no ruído quotidiano. Treina a atenção como uma lente que ajusta a focagem.
Há aqui melancolia, mas não miséria. É uma tristeza suave — daquelas que reconhecem a beleza mesmo na confusão. «I Never Learnt to Share» pode ser uma confissão ou uma oração repetida; «Limit to Your Love» pode ser uma canção de amor ou um réquiem. Cada faixa dá-nos o suficiente para sentir, mas não o suficiente para tirar conclusões.
Através de colunas com espaço para respirar, o álbum transforma-se em arquitetura — salas feitas de ressonância, corredores de eco e decaimento. Percorremos o álbum tanto quanto o ouvimos. Não decora a vida; reorganiza-a, ainda que por breves instantes.
E talvez seja por isso que perdura. Ensinou a uma geração de produtores e ouvintes que a emoção não precisa de explicação, que a vulnerabilidade pode coexistir com a precisão. Abriu uma porta entre géneros — música eletrónica, soul, minimalismo clássico — e deixou-a entreaberta para que outros pudessem atravessá-la.
Quando as últimas notas se desvanecem, não há resolução, apenas uma espécie de alívio. Ficas ali sentado, consciente de que algo silencioso te reajustou. O mundo lá fora não mudou, mas a sua frequência parece diferente.
Nem todos os álbuns para ouvir soam assim —
alguns dão-lhe as boas-vindas, outros desafiam-no —
mas poucos conseguem fazer com que o silêncio soe tão sincero.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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