Jocelyn Brown — Somebody Else’s Guy (1984)
A ponte entre os fãs de soul que passam o fim de semana fora e o primeiro ritmo do house
Por Rafi Mercer
Há álbuns que chegam em grande estilo e há álbuns que se posicionam discretamente entre épocas.
«Somebody Else’s Guy», de Jocelyn Brown, é um exemplo deste último caso.
Lembro-me deste não como uma compra, mas sim como uma transição. Um disco tirado da prateleira do quarto de um irmão. O tipo de capa que se estudava antes de compreender por que razão era importante. Grã-Bretanha, meados dos anos 80. Os fins de semana dedicados ao soul ainda atraíam multidões aos salões de baile da costa. Os adeptos do «rare groove» à procura de importações. O house de Chicago começava a surgir no horizonte, ainda não dominante, mas já a dar sinais.
Este álbum reside nesse sussurro.
A faixa-título — «Somebody Else's Guy» — já tinha dado provas nas pistas de dança. Na sua versão estendida, começa com aquela nota prolongada, mantida o tempo suficiente para transmitir controlo. A linha de baixo não irrompe; avança gradualmente. Elástica. Segura de si. A voz de Brown destaca-se na mistura, com formação em gospel mas pronta para as discotecas, declarando o desejo sem remorsos.
Mas o que torna o álbum importante não é o single. É a ordem das faixas.
Ao longo do álbum, Brown alterna com convicção entre ritmos de pista e soul de andamento médio. A produção continua a transmitir o calor da música disco — linhas de baixo com um toque ao vivo, coros em camadas, riqueza melódica —, mas torna-se mais concisa do ponto de vista rítmico. É possível perceber a mudança. Os grooves são mais enxutos. Menos ornamentais. Concebidos para o movimento.
Esse aperto subtil é o que faz toda a diferença.
Em 1984, a disco já tinha sido declarada morta mais do que uma vez, mas, na Grã-Bretanha, o gosto por música de dança carregada de emoção e centrada na voz nunca desapareceu. Os eventos de fim de semana dedicados ao soul estavam em alta. Os DJs combinavam músicas importadas dos Estados Unidos com texturas eletrónicas emergentes. As máquinas de bateria começavam a substituir parte da espontaneidade humana.
Este álbum faz a ponte nessa transição.
A influência do gospel é inconfundível. Brown não canta de ânimo leve. Ela canta com a força do diafragma da igreja, não com o sussurro do estúdio. No entanto, os arranjos estão a par da pista de dança. Deixa-se espaço para os DJs. As passagens instrumentais respiram. A secção rítmica é disciplinada.
A emoção encontra a arquitetura.
Ao ouvi-la agora, percebe-se como era versátil. Os DJs podiam colocá-la no final de um set de soul e o público continuava a sentir-se envolvido. Podiam aproximá-la do house inicial e não soaria deslocada. Isso é raro. A maioria dos discos está ligada a um momento específico. Este, por sua vez, atravessou vários momentos.
E o facto de atravessar é importante.
Nos quartos de toda a Grã-Bretanha, álbuns como este tornaram-se uma forma discreta de educação. Não se saltavam faixas. Absorviam-se. As baladas moldavam o ouvido tanto quanto os temas mais animados. Aprendia-se que o ritmo e a contenção podiam coexistir.
Na altura, não era nostalgia. Era formação.
Há uma confiança que permeia este álbum. Não é arrogância. Não é agressividade. É confiança. A interpretação vocal de Brown rejeita qualquer sentimento de vergonha. A letra da faixa-título — moralmente complexa, emocionalmente honesta — é interpretada sem qualquer tom de súplica. Ela expõe o seu sentimento como se fosse um facto.
Esse tom mantém-se ao longo de todo o álbum.
Mesmo as faixas mais suaves não são frágeis. São controladas. Há força no fraseado, uma recusa em cair no melodrama. Esse equilíbrio — convicção sem excessos — foi o que permitiu que o álbum envelhecesse bem.
Se a ouvires agora, num sistema de som adequado, vais perceber detalhes que talvez te tenham escapado. O estalido da caixa. O leve realce nos coros. A forma como os graves se movem — não de forma pesada, mas cinética. É algo físico, sem ser agressivo.
E talvez seja por isso que foi importante naquela época de fusões.
A música house dos primórdios precisava de alma para evitar a esterilidade.
A alma precisava de disciplina para evitar a nostalgia.
Este álbum ofereceu ambas as coisas.
Quando penso naquele quarto — as colunas um pouco grandes demais, a porta entreaberta, a música a escapar para o corredor —, percebo uma coisa. Álbuns como este não se limitaram a ser a banda sonora da juventude. Moldaram-na. Ensinaram-nos que o sentimento podia ser poderoso sem ser caótico. Que o ritmo podia ser constante sem ser monótono.
«Somebody Else’s Guy» não é um álbum maximalista. Não é avassalador. Posiciona-se cuidadosamente entre movimentos, entre cenas, entre identidades.
E, ao fazê-lo, torna-se uma ponte.
Nem todos os clássicos fazem furor.
Há quem simplesmente se dê bem.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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