Laurie Anderson – Big Science (1982)

Laurie Anderson – Big Science (1982)

Por Rafi Mercer

Uma voz fala, monótona e sem pressa, recitando observações com o tom de um locutor de notícias e a cadência de um poema. «Boa noite. Fala-vos o vosso comandante.» Por baixo, ritmos sintéticos misturam-se, violinos gemem, pulsos eletrónicos cintilam. Trata-se de *Big Science*, lançado em 1982, o álbum de estreia de Laurie Anderson que surgiu da cena de arte performativa do centro de Nova Iorque e, de alguma forma, conseguiu chegar às tabelas de música pop. Era diferente de tudo o que se fazia na época — experimental, teatral, político, engraçado, inquietante — um disco que revelou como a audição podia ir muito além das fronteiras da canção.

Anderson tinha vindo a trabalhar ao longo da década de 1970 como artista interdisciplinar, combinando trabalho visual, spoken word e performance. Com *Big Science*, condensou elementos da sua peça de performance de sete horas, *United States Live*, num único LP, destilando o humor, a crítica e a experimentação sonora numa forma que pudesse ser transportada. O resultado foi um álbum que parecia, ao mesmo tempo, uma instalação artística e um artefacto pop, tão à vontade numa galeria como numa loja de discos.

A faixa principal, «O Superman», já se tinha tornado um sucesso inesperado no Reino Unido em 1981, alcançando o segundo lugar na tabela de singles. Construída em torno de um loop vocal repetitivo de «ha ha ha ha», com efeitos de vocoder, harmonias esparsas e a narração impassível de Anderson, soava ao mesmo tempo estranha e íntima. A letra faz referência ao poder militar, à comunicação e à fragilidade dos sistemas humanos, mas o tom mantém-se calmo, quase terno. É uma peça que perturba precisamente porque se recusa a dramatizar. Ouvida num sistema de alta fidelidade, as suas repetições parecem simultaneamente hipnóticas e claustrofóbicas, um loop minimalista que se estende até à eternidade.

Outras faixas revelam a versatilidade de Anderson. «From the Air» abre o álbum com um anúncio satírico de segurança de voo, apresentado sobre ritmos pulsantes e drones de violino. A própria «Big Science» ridiculariza a arrogância tecnológica com um humor irónico. «Sweaters» e «Walking and Falling» são monólogos em miniatura acompanhados por fundos eletrónicos minimalistas. «Born, Never Asked» e «It Tango» combinam melodia com spoken word, equilibrando o absurdo com a melancolia. Cada peça esbate as fronteiras entre canção, poema e performance, recusando qualquer categorização.

Em vinil, «Big Science» revela toda a sua profundidade. O calor analógico equilibra a nitidez do processamento digital inicial, conferindo à voz de Anderson uma presença física, mesmo quando esta é sobreposta e tratada. A produção, a cargo de Anderson em colaboração com Roma Baran e produzida pela Warner Bros, é espaçosa, com cada elemento colocado com precisão, mas sem nunca ser estática. Quando reproduzido num bar de audição, o álbum transforma a sala num palco. Os ouvintes ficam em silêncio, sem saber se devem rir, refletir ou simplesmente absorver. É música que nos faz tomar consciência de nós próprios, do ato de ouvir, dos sistemas e das linguagens que moldam a vida quotidiana.

O que faz com que o Big Science perdure é a sua inteligência. Anderson não faz sermões, mas a sua crítica à tecnologia, ao poder e à cultura continua a ser surpreendentemente relevante décadas mais tarde. O seu humor desarma, a sua forma calma de se expressar inquieta, os seus loops hipnotizam. É um álbum que antecipou muito do que viria a seguir: a fusão entre arte e pop, a ascensão da música eletrónica conceptual, a integração entre performance e gravação. E, no entanto, continua a soar único, não absorvido pela corrente dominante, mas mantendo-se ligeiramente à parte, uma voz singular no panorama musical.

Para a cultura auditiva, «Big Science» é essencial porque prova que um álbum pode ser simultaneamente experimental e acessível, desafiante e convidativo. Abre portas a públicos que, normalmente, talvez não se aventurassem em espaços de vanguarda, demonstrando que a arte sonora pode comover tanto os corações como as mentes. Basta colocar a agulha no disco e não estará apenas a ouvir música, mas a entrar numa conversa — sobre tecnologia, sobre a humanidade, sobre a ténue linha que separa a comédia da tragédia.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.

 

Voltar às histórias

Não é uma lista de reprodução.

O número de membros fundadores está limitado a 200 em todo o mundo. O Clube de Audição «Tracks & Tales» destina-se a quem compreende que ouvir não é apenas ruído de fundo, mas sim uma forma de estar presente.

INSCRIVA-SE AGORA