Madvillainy — MF DOOM & Madlib (2004)

Madvillainy — MF DOOM & Madlib (2004)

O som que ecoa na mente de um caçador de discos.

Por Rafi Mercer

Alguns álbuns chegam com uma fanfarra de trompetes. Outros entram discretamente na sala, como um rumor.

«Madvillainy» pertence à segunda categoria. Quando foi lançado em 2004, não se comportou como um álbum de hip-hop que pretendesse dominar as tabelas. Seguia um caminho diferente — ângulos invulgares, pequenos esboços de canções, fragmentos sonoros que pareciam ter vindo de discos esquecidos, empilhados algures nas profundezas de um arquivo numa cave.

Já se falava em segredo, nos círculos underground, da colaboração entre MF DOOM e Madlib antes mesmo do lançamento oficial do disco. Circulavam cópias piratas. Vazaram versões preliminares. Mas o álbum final continuava a parecer misterioso, como se tivesse surgido das margens da cultura hip-hop, em vez de do seu centro.

A produção de Madlib é a primeira coisa que se nota quando se ouve com atenção. As batidas parecem deliberadamente imperfeitas — loops que oscilam ligeiramente, samples empoeirados retirados de discos de jazz obscuros, fragmentos de televisão, grooves brasileiros, soul psicadélico. Em vez de polir estes sons até ficarem limpos, Madlib mantém a textura intacta. Ouve-se o crepitar do vinil, o espaço entre os instrumentos, as arestas onde o sample começa e termina.

É um hip-hop que se assemelha mais a uma colagem do que a uma construção.

E sobre estes cenários estranhos e hipnóticos, ouve-se a voz inconfundível de MF DOOM. Enmascarado, enigmático e maliciosamente brilhante, DOOM aproxima-se do microfone como um vilão de banda desenhada a narrar a sua própria mitologia. As suas rimas sucedem-se em padrões internos densos — humor entrelaçado em jogos de palavras, referências sobrepostas a outras referências, cada verso a cair ligeiramente fora do ritmo esperado.

Em faixas como «Accordion», o ritmo parece quase esquelético — um simples loop de acordeão que sobe e desce por baixo da voz de DOOM. No entanto, o espaço na mistura permite que cada sílaba seja ouvida com precisão. É o som de alguém que compreende que a contenção pode tornar o ritmo mais poderoso do que a força.

Noutros momentos, o álbum abre pequenas portas para mundos sonoros inteiros. «All Caps» é um desses momentos. A faixa desenrola-se como uma breve transmissão proveniente de outra dimensão do hip-hop — um loop de bateria irregular, um sample distorcido, DOOM a entoar as suas rimas com aquele tipo de autoridade descontraída que sugere que ele sabe algo que o resto da sala desconhece.

O que torna «Madvillainy» notável é a sua recusa em comportar-se como um álbum tradicional. Muitas faixas mal ultrapassam os dois minutos. As ideias surgem, florescem brevemente e depois desaparecem novamente antes que as consigas compreender totalmente. Ouvir torna-se um ato de exploração — o ouvido segue fragmentos de melodia, trechos de diálogo, explosões repentinas de ritmo que parecem emergir de recantos escondidos da coleção de discos de Madlib.

Esta estrutura confere ao álbum uma energia invulgar. Em vez de arcos narrativos longos e previsíveis, o álbum desenvolve-se como uma série de esboços rápidos num caderno — vislumbres de criatividade capturados no momento antes de desaparecerem.

No entanto, quando ouvido do início ao fim, o álbum revela uma estranha coerência. Cada faixa curta funciona como uma peça de um mosaico. Quando as últimas peças se encaixam, percebemos que temos vindo a vaguear pela imaginação de dois artistas que entendem o hip-hop não apenas como um género, mas como um arquivo infinito de sons.

Ouvir «Madvillainy» em vinil torna isto ainda mais evidente. As texturas ganham vida de forma diferente quando a agulha se instala no sulco. Percebe-se o peso das amostras, o calor do material analógico original, as pequenas imperfeições que conferem à música o seu carácter humano.

Numa cultura que muitas vezes valoriza o volume e o espetáculo, «Madvillainy» mantém-se desafiadoramente íntimo. É um álbum concebido para ouvintes que gostam de descobrir as coisas aos poucos — aqueles momentos em que uma amostra estranha chama a atenção, em que uma frase revela uma piada escondida na segunda audição, em que o ritmo muda de repente e percebes que a faixa tem vindo, discretamente, a reorganizar as tuas expectativas.

Talvez seja esse o segredo da reputação duradoura do álbum. Não exige atenção da forma habitual. Em vez disso, recompensa a curiosidade.

E quanto mais atentamente se ouve, mais o disco se revela — como uma pilha de discos de vinil esquecidos, à espera, pacientemente, de alguém disposto a vasculhá-los.


Perguntas rápidas

Por que é que «Madvillainy» é considerado um dos melhores álbuns do hip-hop?
Porque combina sampling experimental, letras densas e estruturas musicais não convencionais num álbum que continua a parecer completamente original, mesmo décadas depois.

Quais são as faixas que mais se destacam no álbum?
«Accordion», «All Caps», «Raid» e «Figaro» continuam a ser algumas das faixas mais aclamadas.

O que torna este álbum especial para a cultura da audição?
As suas amostras «empoeiradas», as composições curtas e a produção em camadas revelam novas texturas e referências cada vez que se ouve com atenção.


Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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