Mark Hollis — Mark Hollis (1998)
O álbum homónimo de Mark Hollis é uma verdadeira lição de contenção — música que faz o tempo passar mais devagar, recompensa a paciência e revela porque é que o silêncio pode ser o instrumento mais poderoso de todos.
Por Rafi Mercer
Há álbuns que se ouvem.
E há álbuns em que nos deixamos envolver.
Há dois dias, pus a ouvir Mark Hollis. Não era minha intenção ficar. Tinha trabalho para fazer, divisões por onde passar, pensamentos que precisavam de ser organizados. E, no entanto, aqui estou eu — dezasseis horas depois, ao longo de dois dias — ainda mergulhado nisso. Ainda a deixar que tudo se desenrole ao seu próprio ritmo, sem pressa. Ainda não terminei de o ouvir, e sem qualquer vontade de o fazer.
Isso, por si só, é a resposta à pergunta óbvia: por que é que ainda estou a ouvir?
Porque este álbum não pede atenção.
Cria as condições para que ela surja.

Mark Hollis gravou este álbum depois de os Talk Talk já se terem transformado num mito. Depois de *Spirit of Eden*. Depois de *Laughing Stock*. Depois de o silêncio ter começado a ser mais importante do que o sucesso. Este álbum a solo parece ser a renúncia definitiva até à própria ideia de uma banda — um homem sozinho com a sua respiração, madeira, fio, ar e a coragem de deixar quase tudo de fora.
O que mais impressiona, à primeira vista, não é o som, mas a ausência de insistência. Nada pressiona. Nada preenche o espaço apenas por preencher. O disco começa como uma porta deixada entreaberta, em vez de ser aberta de par em par. As notas do piano surgem como se sempre tivessem estado ali, à espera que as reparasses. Uma harmónica respira uma vez e, depois, recua. Uma corda de guitarra vibra e é deixada a desaparecer por completo, com sinceridade, sem ser salva por outra parte que se apresse a intervir para a justificar.
Esta é uma música que confia no ouvinte.
E essa confiança é rara.
Hollis canta como se o volume fosse uma intrusão. A sua voz é próxima — não íntima no sentido sedutor, mas presente. Ouve-se a mecânica humana por trás dela: a respiração, a contenção, a decisão de não cantar com mais força. O fraseado parece coloquial, mas não casual. Cada palavra tem impacto porque foi cuidadosamente ponderada em relação ao silêncio e considerada digna.
Se ouvires durante tempo suficiente — e dezasseis horas contam —, começas a perceber que algo discretamente radical está a acontecer. Este álbum reeduca o teu sistema nervoso. Abrandar o teu ritmo interno. Recalibra a tua noção do que a música serve.
Estamos condicionados a acreditar que a música tem de fazer alguma coisa: dar energia, distrair, entreter, transportar-nos. Mark Hollis recusa tudo isso. Em vez disso, a música acompanha. Acompanha a vida, em vez de tentar dominá-la. Podemos cozinhar com ela, escrever com ela, olhar pela janela com ela. Nunca exige estar em primeiro plano — mas, no momento em que lhe dedicamos toda a nossa atenção, ela aprofunda-se, em vez de desabrochar.
É por isso que mantém o interesse ao longo dos dias. Não se esgota.
Os arranjos transmitem uma sensação quase arquitetónica na sua contenção. Instrumentos acústicos dispostos com o cuidado com que se dispõe o mobiliário numa sala bem vivida. O espaço não é aqui um efeito; é o principal elemento estrutural. O som ambiente é importante. Os intervalos são importantes. A escolha de parar de tocar é tão importante quanto a escolha de começar.
Este álbum tem também uma dimensão moral — não moralista, nem didática, mas ética. Parece uma declaração sobre o que é «basta». Sobre saber quando parar de acrescentar. Sobre respeitar a inteligência e a paciência do ouvinte. Sobre resistir à «economia do ruído» muito antes de esse termo existir.
Em 1998, este álbum foi lançado discretamente e ignorado discretamente pelo resto do mundo. O que faz todo o sentido. Nunca teve como objetivo competir. O seu objetivo era perdurar — em privado, lentamente, nas mãos daqueles que estão dispostos a ouvir sem distrair as suas almas com outras tarefas.
Passados dois dias, continuo a ouvi-lo porque o álbum não para de revelar a forma como o ouço. Revela hábitos. Desmonta a impaciência. Recompensa a tranquilidade. E, talvez o mais importante, lembra-me que a música não precisa de gritar para ser profunda.
Há álbuns que parecem estar concluídos logo após a primeira audição.
Outros vão revelando-se ao longo dos anos.
Mark Hollis faz algo ainda mais raro — ensina-nos a voltar a viver com a música.
E, assim que essa porta se abre, não se apressa a fechá-la.
Perguntas rápidas
Porque é que este álbum mantém a atenção durante tanto tempo?
Porque elimina a sensação de urgência. Sem ganchos musicais nem crescendos, a mente deixa de perseguir momentos e começa a habitar o tempo.
Isto é música de fundo?
Não — mas é compatível com a vida. Não interfere com o pensamento; pelo contrário, ajuda-o.
A quem se destina este álbum?
Aos ouvintes que valorizam a contenção, o espaço e a confiança — e que estão dispostos a ir ao encontro da música.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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