Miles Davis – Ascenseur pour l'échafaud (1958)
Por Rafi Mercer
Há discos que surgem com a perfeição dos álbuns — ensaiados, aperfeiçoados, com uma sequência bem definida — e há outros que nascem de pura circunstância, como um raio capturado no espaço de algumas noites. O álbum «Ascenseur pour l'échafaud», de Miles Davis, gravado em dezembro de 1957 e lançado em 1958, pertence a esta última categoria. Não se trata de um álbum de estúdio planeado no sentido convencional, mas sim de uma banda sonora improvisada quase em tempo real. E, no entanto, destaca-se como um dos trabalhos mais atmosféricos e inesquecíveis da carreira de Davis, um disco que deu ao jazz europeu o seu primeiro contacto real com o novo «cool» vindo do outro lado do Atlântico.
A história é cinematográfica em todos os sentidos. O realizador Louis Malle convidou Davis para ir a Paris compor a banda sonora do seu primeiro longa-metragem — *Lift to the Scaffold*, um thriller noir tenso e impregnado das sombras do pós-guerra. Em vez de compor a música antecipadamente, Davis reuniu uma pequena secção rítmica francesa — o pianista René Urtreger, o baixista Pierre Michelot e o baterista Kenny Clarke, com Barney Wilen no saxofone tenor — e assistiu à projeção do filme num ecrã no estúdio. À medida que as imagens passavam, Davis e o grupo improvisavam, acompanhando o rosto errante de Jeanne Moreau pelas ruas parisienses, respondendo aos faróis dos carros e às avenidas desertas com suspiros abafados de trompete e ritmos esqueléticos.
O que surgiu não foi apenas uma banda sonora, mas sim uma atmosfera capturada na sua totalidade. Basta ouvir o tema de abertura para nos vermos imediatamente transportados para aquele mundo: Paris a altas horas da noite, passeios escorregadios pela chuva, néons a refletir-se nas poças. O trompete em tom abafado de Davis não canta; sussurra, assombra, assenta no ar da noite como fumo. Cada nota é prolongada mais do que se esperaria, cada frase deixa espaço para o silêncio respirar. É uma música que observa tanto quanto toca.
«Générique», o tema principal, trata tanto da ausência como da presença. A secção rítmica avança lentamente, fazendo o tempo passar, enquanto o trompete de Davis parece dissolver-se na luz monocromática do filme. Outras faixas — «L’Assassinat de Carala», «Julien dans l’ascenseur», «Florence sur les Champs-Élysées» — desenvolvem-se com uma contenção semelhante. Não são temas no sentido hollywoodiano; são esboços de estado de espírito, fragmentos de tom. E, no entanto, juntas formam um álbum tão coerente como qualquer um dos trabalhos de estúdio de Davis.
O que faz com que «Ascenseur pour l'échafaud» perdure é a sua naturalidade. Ao contrário de «Kind of Blue», que surgiria no ano seguinte com precisão modal, ou do fogo do hard bop de «Milestones», este disco respira o momento. É música feita sem armadura. Ouvimos Davis a testar notas em relação à imagem, a demorar-se na incerteza, a deixar que o silêncio da sala se torne parte da partitura. É frágil, mas é essa fragilidade que o torna eterno.
Ouvido num bar de audição, este álbum muda o ambiente. Não exige volume; exige espaço. O som abafado do trompete flutua por entre copos e vozes baixas e, de repente, o próprio bar ganha um ar cinematográfico. Os ouvintes dão por si não apenas a ouvir uma banda sonora, mas a habitar um filme. E através de um bom sistema — amplificadores de válvulas, colunas com som quente — a gravação transmite uma textura que só as fitas dos anos 50 conseguem proporcionar. O trompete parece tão próximo que quase se pode tocar, as escovas cintilam como passos no pavimento molhado e o contrabaixo zumbe como a maquinaria silenciosa da cidade.
Para quem está a construir uma coleção, *Ascenseur pour l'échafaud* é uma lembrança essencial de como o jazz soube adaptar-se, responder e expandir-se. Mostra Davis numa encruzilhada: deixando para trás os anos do bebop, avançando para a exploração modal e descobrindo que o ambiente pode ser tão radical quanto a harmonia. Do ponto de vista educativo, é uma aula magistral de improvisação — não do tipo vistoso, mas sim do tipo lento e observacional, em que a contenção se transforma em invenção.
Pessoalmente, este disco sempre me pareceu uma espécie de passaporte. A primeira vez que o ouvi, não estava a pensar em Miles Davis, o ícone; estava a pensar em Paris, no rosto solitário de Jeanne Moreau, na ideia de que a música pode ser simultaneamente totalmente própria do seu momento e intemporal. É isso que este álbum faz: colapsa o tempo. Se o ouvirmos hoje, a Paris de 1958 volta a ganhar vida, não como nostalgia, mas como presença.
Porque é que este álbum faz parte da lista «Tracks & Tales»? Porque redefine o que pode significar ouvir música. Prova que a música não tem de ser declarativa para ser transformadora. Pode ser hesitante, sussurrada, improvisada à margem — e, mesmo assim, alterar a geometria de uma sala. Para quem ouve com atenção, é esse o cerne da arte: um som que não insiste, mas que fica connosco.
Então, serve um copo, diminui as luzes e deixa que «Ascenseur pour l'échafaud» toque à medida que a noite começa. Podes não estar em Paris, mas, durante quarenta minutos, as ruas vão encontrar-te.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.