Morcheeba – Big Calm (1998)
Por Rafi Mercer
O trip hop nunca foi um estilo único. Em 1998, o género já se tinha dividido em vertentes mais sombrias e mais leves, e o álbum dos Morcheeba, Big Calm exemplificava o seu lado mais acolhedor. Enquanto Tricky transmitia claustrofobia e DJ Krush destilava minimalismo, os Morcheeba apostaram na melodia, no soul e numa amplitude cinematográfica. Big Calm é exuberante, acolhedor e inebriante — um álbum que suaviza as arestas sem perder profundidade, perfeito para o tipo de espaços onde a audição é simultaneamente solitária e partilhada.
A voz de Skye Edwards é o ponto central: fresca, límpida, sensual, mas nunca exagerada. À sua volta, Paul e Ross Godfrey criaram paisagens sonoras com guitarra, cítara, cordas e batidas que deslizam em vez de se arrastarem. O resultado é uma fusão de trip hop, soul e lounge que parece intemporal, não sendo nem puramente dos anos 90 nem totalmente alheia a essa década. É um álbum que valoriza a textura tanto quanto o ritmo, a atmosfera tanto quanto o groove.
Em vinil, a produção brilha. Os graves são profundos mas suaves, os agudos sedosos, os médios quentes e envolventes. É um teste ao sistema, não através da agressividade, mas sim do equilíbrio. Será que as vossas colunas conseguem suportar a linha de baixo de «The Sea», deixando ao mesmo tempo a voz de Edwards flutuar por cima sem distorção? Conseguem revelar o brilho das cordas, a textura da guitarra, a profundidade da reverberação? Reproduzido num bar de audição, Big Calm é transformador: a sala respira, o tempo abranda, a noite aprofunda-se.
Os destaques são muitos. «The Sea» continua a ser uma das faixas mais marcantes da época, expansiva e hipnótica. «Part of the Process» combina tons de gospel com um estilo urbano descontraído. «Shoulder Holster» transborda uma atmosfera noir, enquanto «Bullet Proof» apresenta um tom mais agressivo. A sequência das faixas é fluida, o ambiente consistente: sensual, cinematográfico, calmo, mas nunca superficial.
O que faz com que «Big Calm» perdurar é o seu equilíbrio. Não se afunda na escuridão, nem flutua na leveza. Encontra o caminho do meio, a grande calma prometida no título. É por isso que se enquadra na cultura dos bares onde se ouve música: cria um ambiente, um estado de espírito partilhado, uma sensação de estar suspenso em algo que é simultaneamente luxuoso e real. Basta colocar a agulha no disco e ficamos imersos num ambiente acolhedor.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscreva aqui, ou clique aqui para ler mais.