Morton Feldman – Capela Rothko (1971)
Por Rafi Mercer
Quando os primeiros sons da «Rothko Chapel» surgem, fazem-no com o peso silencioso de uma respiração retida por demasiado tempo. Uma linha de viola flutua no espaço, frágil e interrogativa, para depois recuar para o silêncio. A percussão entra — suave, ressonante, mais uma sugestão do que um ritmo — e as vozes elevam-se, não em palavras mas em tons, como se o próprio ar tivesse começado a zumbir. A música nunca cresce, nunca se impõe, mas permanece suspensa, delicada como poeira apanhada pela luz. Composta por Morton Feldman em 1971 para a Capela Rothko, de caráter não confessional, em Houston, no Texas, a obra continua a ser uma das experiências auditivas mais íntimas e profundas alguma vez gravadas, uma peça onde o silêncio e o som coexistem em perfeito equilíbrio.
Feldman foi sempre um compositor atraído pela quietude, pela duração e pela forma como o som se desvanece. Membro da Escola de Nova Iorque, ao lado de John Cage, Christian Wolff e Earle Brown, rejeitou as estruturas tradicionais de desenvolvimento e clímax, preferindo uma música que simplesmente existe. Na Capela Rothko, encontrou o cenário perfeito para a sua estética. Encomendada para a inauguração de uma capela concebida para albergar as vastas pinturas tardias de Mark Rothko, Feldman criou música que correspondia à atmosfera destas: meditativa, sombria, intemporal. Tal como as telas de Rothko convidam os espectadores à contemplação, a partitura de Feldman convida os ouvintes a mergulhar no som como espaço.
O conjunto é reduzido: viola, celesta, percussão, coro. Por vezes, surge uma voz a solo, sem palavras, frágil, humana. Noutras ocasiões, a viola toca linhas que se assemelham quase ao folclore, fragmentos de melodia que pairam no ar e depois desaparecem. A percussão dá cor ao espaço com gongos, vibrafones e tambores suaves, criando ressonância em vez de ritmo. O silêncio está sempre presente, emoldurando cada gesto, lembrando ao ouvinte que a ausência é tão importante quanto a presença. A música não avança no sentido habitual; ela demora-se, flutua, respira.
Ouvir em vinil é sentir a materialidade da sua contenção. Cada som é amplificado pelo silêncio que o rodeia, cada nota torna-se preciosa. A gravação capta não só os instrumentos, mas também a ressonância do espaço, a forma como o som floresce e depois se desvanece na quietude. Quando tocada num bar de audição, «Rothko Chapel» transforma completamente a sala. As conversas silenciam-se, as luzes parecem mais fracas, o tempo prolonga-se. Não é música de fundo, mas sim atmosfera na sua forma mais pura, música que ensina a própria arte de ouvir.
O que faz com que esta obra perdure é a sua humildade. Feldman não procura impressionar com virtuosismo nem avassalar com emoção. Em vez disso, oferece presença, fragilidade e atenção. A música não impõe um significado, mas cria um espaço onde o significado pode emergir. Desta forma, espelha as pinturas de Rothko: vastos campos de cor que são simultaneamente vazios e cheios, abstratos e profundamente humanos. Juntos, o som e a imagem criam uma filosofia comum de quietude.
Mais de cinquenta anos depois, a Capela Rothko continua a ser uma pedra angular da composição moderna. Influenciou não só compositores, mas também músicos de música ambiente, artistas sonoros e qualquer pessoa atraída pela interseção entre o silêncio e o som. A lição que nos transmite é simples, mas radical: a música não precisa de ser alta nem complexa para ser profunda. Basta ouvi-la com atenção, paciência e abertura de espírito.
Basta baixar a agulha e ser-te-á aberto esse espaço. Ouvir-se-ão não só os instrumentos, mas também o próprio ato de ouvir, a forma como o som habita o tempo, a forma como o silêncio emoldura cada gesto. Num mundo de ruído constante, a Capela Rothko continua a ser um santuário, uma lembrança de que a quietude não é ausência, mas sim uma outra forma de presença.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.