Murcof – Martes (2002)

Murcof – Martes (2002)

Por Rafi Mercer

Os primeiros sons são ténues, quase hesitantes: um pulso suave, fragmentos de piano, o eco das cordas. Depois, o baixo entra — pesado, deliberado, quase fúnebre —, ancorando o ar com gravidade. Por cima disso, texturas clássicas surgem e desaparecem, cortadas em fragmentos, esticadas em drones. Trata-se de «Martes», o álbum de estreia de Fernando Corona, lançado sob o nome Murcof em 2002. Continua a ser uma das obras mais marcantes da música eletrónica do início do século XXI, um disco que uniu o minimal techno à composição clássica moderna, criando um som ao mesmo tempo íntimo e monumental.

Corona cresceu em Tijuana, na zona fronteiriça do México, e essa sensação de liminaridade permeia o seu trabalho. Nem totalmente eletrónico nem totalmente acústico, nem para a pista de dança nem para a sala de concertos, «Martes» habita esse espaço intermédio. Foi lançado pela The Leaf Label e, embora os críticos da época tenham recorrido a termos como «microhouse» ou «minimal», a verdade é que Murcof estava a abrir caminho para um novo espaço. Recorreu a samples de Arvo Pärt, Henryk Górecki e outros compositores modernistas, sobrepondo-os a batidas eletrónicas esparsas. O efeito era austero, mas nunca estéril — uma espécie de música sacra digital.

O álbum abre com «Memoria», onde cordas sombrias vão-se elevando lentamente sobre uma batida de baixo profunda, ao estilo dub. É uma peça melancólica e expansiva, como se tivesse sido composta para uma catedral construída de betão e luz. Segue-se «Maiz», com um ritmo mais insistente, mas a textura mantém-se austera: cada som escolhido com precisão, cada silêncio ressonante. «Mo» simplifica ainda mais as coisas, com uma batida esquelética por baixo de um zumbido pairante.

«Mes» é um dos pontos altos do álbum. Um ritmo lento e constante sustenta fragmentos de cordas que se repetem como um encantamento. A faixa vai-se construindo não através de camadas, mas sim através da paciência: cada repetição acumula peso até que a peça pareça monumental. «Mir» introduz um tom ligeiramente mais luminoso, com acordes de piano a cintilar na escuridão. «Maestro» e «Marmol» dão continuidade a esta trajetória, desdobrando-se cada uma como um estudo arquitetónico — ângulos, sombras, ressonância. A faixa final, «Muerte», é devastadora: uma meditação sobre a morte, com as suas cordas a soarem dolorosas contra uma pulsação eletrónica implacável. Parece menos uma faixa e mais um réquiem.

O que torna os Martes tão extraordinários é a sua disciplina. Corona recusa o excesso. Cada batida, cada acorde, cada tom contínuo é reduzido à sua essência. No entanto, nessa austeridade reside uma emoção imensa. As cordas transmitem tristeza, o baixo transmite inevitabilidade, os espaços entre os sons transmitem peso. É uma música que exige paciência, mas que a recompensa com profundidade.

Do ponto de vista cultural, o álbum foi significativo por demonstrar o potencial da música eletrónica para interagir com a linguagem do modernismo clássico. Enquanto muitos produtores eletrónicos utilizavam samples de funk ou soul, Murcof inspirou-se nos «tintinnabuli» de Pärt, nas lamentações de Górecki e nas atmosferas de Ligeti. Ao fazê-lo, redefiniu o minimalismo eletrónico como algo não só funcional, mas também sagrado. «Martes» tornou-se uma referência para quem explora a fronteira entre a discoteca e a sala de concertos, entre a máquina e a oração.

Ao ouvi-lo hoje, o álbum continua a ter um grande impacto. As suas texturas não envelheceram; pelo contrário, parecem ainda mais ressonantes numa era de saturação. Perante o ruído constante da cultura contemporânea, «Martes» oferece um espaço — austero, meditativo, envolvente. Não é música de distração, mas sim de atenção. Convida-nos a abrandar o ritmo, a habitar tanto o silêncio como o som.

Para quem ainda não conhece este mundo, Martes é surpreendentemente acolhedor. Os seus ritmos são constantes, as suas melodias claras e a sua atmosfera envolvente. Não é preciso compreender Pärt nem o minimal techno para o sentir. Fala diretamente, sem adornos. A sua inclusividade reside na sua sinceridade: sem ostentação, sem espetáculo, apenas som arranjado com devoção. Tanto para mulheres como para homens, para ouvidos jovens ou experientes, não oferece exclusão, mas sim um convite.

No vinil, a profundidade dos graves torna-se quase física. As cordas pairam no ar, as batidas pulsam através do chão. O crepitar da gravação funde-se na perfeição com os drones, como se o disco tivesse sido concebido para respirar com a sua imperfeição. A capa — austera, monocromática — reflete a austeridade da música. Não se trata de uma audição casual. É uma cerimónia.

O que perdura em Martes é a sua capacidade de conciliar opostos: o eletrónico e o acústico, o austero e o emocional, o minimalista e o monumental. É uma música de fronteiras, de limiares, de espaços intermédios. Mostra que mesmo a paleta mais reduzida pode conter uma imensa profundidade, que a escuta atenta pode revelar mundos dentro de uma única pulsação de baixo, de um único acorde.

Ouvir Martes é entrar nesse mundo — sombrio, ressonante, paciente. Não é um lugar de espetáculo, mas de reflexão. É música que esculpe um espaço no tempo, te mantém ali e te ensina que menos pode ser infinito.

Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais histórias da rubrica «Tracks & Tales», subscrevaou clique aqui para ler mais.

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