Nightmares on Wax — Echo45 Sound System (2025)
Echo45 Sound System — um álbum acolhedor e envolvente dos Nightmares on Wax que transforma os graves, a memória e a cultura dos sistemas de som num espaço onde se pode viver.
Por Rafi Mercer
Há álbuns que se põem a tocar para fazer companhia e há outros que dominam a sala assim que a agulha toca no sulco. O «Echo45 Sound System» é um desses. Desde o instante em que a primeira pulsação grave percorre o chão, percebe-se que George Evelyn não está a apresentar uma coleção de faixas — está a construir um espaço. Uma pequena arquitetura invisível feita de graves, memória e respiração. Parece menos que se está a ouvir um álbum e mais que se está a entrar num sistema que já está vivo sem a tua presença.
Os Nightmares on Wax sempre tiveram essa capacidade — o calor, o groove profundamente enraizado, a forma como fazem com que o ritmo pareça ao mesmo tempo enraizado e etéreo. Mas aqui, algo mais está a acontecer. Ele voltou à essência da sua história: a cultura dos sound systems em que cresceu, as colunas que o moldaram, as frequências piratas que costumavam percorrer as ruas como fios secretos. É possível ouvir essa linhagem no ritmo, no tom, nos espaços entre as notas. Isto não é nostalgia. É um regresso às origens, mas feito com a facilidade e a elegância de alguém que já viveu o suficiente para saber exatamente o que deixar de fora.

O álbum flui como uma longa expiração, sem necessidade de reviravoltas bruscas ou gestos grandiosos. Yasiin Bey surge não como um convidado, mas como uma presença — uma voz que flutua pela mistura como um sinal levado pelo vento. A contribuição de Greentea Peng integra-se na textura como se o disco a tivesse estado à sua espera, e não a tivesse convidado. Não há ego na sequência das faixas, nem qualquer tentativa de anunciar algo em voz alta. Tudo está sintonizado para privilegiar a sensação em detrimento do espetáculo, a intimidade em detrimento do impacto, a intenção em detrimento do volume. Quanto mais se aprofunda no álbum, mais o espaço parece alargar-se à sua volta.
O que me fica na memória é a sensação de peso — não de pesadão, mas de peso. Aquele que se sente quando um sistema está bem afinado, quando os graves não são volume, mas gravidade. É o tipo de baixo que não grita; que nos envolve. É a energia de um sistema de som traduzida à escala da sala de estar e, de alguma forma, isso torna-a ainda mais poderosa. O álbum tem aquele brilho que se sente quando alguém viveu de tão perto do som durante tempo suficiente para compreender que o mais difícil não é criar algo ousado — é criar algo verdadeiro.
Há aqui momentos, momentos tranquilos, em que a música parece estar a recordar algo por ti. Uma rua da infância, uma sessão tardia, o tom de uma voz num determinado espaço do teu passado. As texturas são quentes e sem pressa, os ritmos são pacientes. É um álbum que te convida a relaxar, a acalmar-te, a ouvir com aquele tipo de atenção que o mundo já raramente te pede.
E isso toca-nos de forma especialmente profunda esta manhã — talvez porque o mundo pareça avançar demasiado depressa, talvez porque grande parte da música atual seja concebida para ser saltada, em vez de ser ouvida com calma. Mas o Echo45 Sound System recusa-se a apressar-se. Relaxa. Leva o seu tempo. Confia que tu também o farás.
Ouve-o num sistema que consiga «respirar» — colunas com calor, uma sala com cantos que captem as baixas frequências na medida certa. Deixa as faixas fundirem-se. Não interrompas a sequência. Deixa a cassete, o vinil, o streaming — o que quer que tenhas — a tocar sem interrupção. Este é um daqueles discos que se transforma num ambiente. E quando termina, o silêncio parece fazer parte do álbum, não a ausência dele.
Este não é apenas um lançamento dos Nightmares on Wax. É uma lembrança de como o som pode transformar um espaço e de como esse espaço, uma vez transformado, pode, silenciosamente, transformar-te a ti.
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Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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