Officium — Jan Garbarek & The Hilliard Ensemble (1994)
Espaço sagrado, sopro moderno
Por Rafi Mercer
Alguns álbuns não começam com som. Começam com o espaço.
«Officium» abre-se como uma porta deixada ligeiramente entreaberta no interior de um edifício de pedra onde não esperávamos entrar. As primeiras notas não chegam propriamente, mas sim emergem, transportadas por um ar que já parece antigo, paciente e atento. Quando Jan Garbarek entra, não se apresenta como solista. Comporta-se como um ouvinte que, por acaso, tem um saxofone nas mãos.
Gravado num mosteiro medieval, *Officium* reúne Garbarek e o The Hilliard Ensemble, cujas vozes estabelecem um diálogo sereno entre séculos de música sacra e a improvisação moderna. O que poderia ter parecido uma experiência conceptual transforma-se, pelo contrário, em algo profundamente humano. O eco da sala não é tratado como um problema a controlar, mas sim como um colaborador — uma quinta voz que completa cada frase.

Isto não é jazz no sentido tradicional, nem é música clássica no sentido formal. Situa-se algures entre os dois — um estado de suspensão em que o tempo se alonga e a hierarquia se dissolve. Garbarek não se sobrepõe às vozes; move-se à volta delas, ora respondendo, ora esperando, ora afastando-se por completo. O resultado parece menos uma atuação e mais uma escuta mútua.
O que me impressiona sempre que volto a ouvir o *Officium* é a sua clareza moral. Cada nota parece ter sido cuidadosamente ponderada. Não há excessos, nem pressa em preencher o espaço. Aqui, o silêncio não é uma ausência — é um elemento estrutural. A música ensina-nos como nos devemos comportar enquanto ouvintes. Exige paciência, recompensa a quietude e recalibra suavemente o nosso sentido de ritmo.
Este é um álbum que faz com que a respiração abrande sem pedir permissão.
Há também algo discretamente radical nisto. Numa época em que a expressão é cada vez mais equiparada ao volume, o Officium insiste na contenção. Lembra-nos que a colaboração não requer compromissos — apenas atenção. As vozes medievais não se modernizam para se adaptarem a Garbarek, e Garbarek não romantiza o passado para se integrar. Encontram-se no momento presente, dentro da sala, deixando que seja a acústica a unir tudo.
Ao ouvir o «Officium» hoje, parece quase profético. Antecipa um futuro em que a música se torna menos uma questão de género e mais uma questão de contexto. Menos uma questão de domínio e mais uma questão de relação. É um álbum que não pede para ser admirado — pede para se confiar nele.
Se ouvires com atenção, vais perceber que aqui nada se apressa a chegar a uma resolução. As peças não atingem o clímax no sentido convencional. Simplesmente surgem, existem e desaparecem. E, de alguma forma, isso parece suficiente. Mais do que suficiente.
Esta é música para os espaços, para a reflexão, para as primeiras horas da manhã e para o fim da noite. Música que compreende que ouvir é um ato ético — uma forma de estar presente sem interrupções.
O Officium não exige a sua atenção. Conquista-a.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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