Omega — Enrique Morente, Lagartija Nick e o som do flamenco reinventado (1996)
Quando o flamenco se recusou a continuar a ser educado
Por Rafi Mercer
Alguns discos chegam na forma de propostas. O «Omega» chegou como uma recusa.
Lançado em 1996, com autoria conjunta de Enrique Morente e da banda de rock de Granada Lagartija Nick, o álbum «Omega» não pediu permissão ao flamenco para evoluir. Não tentou uma fusão respeitosa, nem uma modernização suave. Em vez disso, reuniu o flamenco, a poesia, a distorção, a dor, a devoção e a eletricidade na mesma sala e deixou que a tensão falasse por si. O que se seguiu não foi um consenso, mas sim a verdade.
Em meados dos anos 90, Morente já era uma figura consagrada — um cantor que passara décadas imerso na tradição, sem se limitar a abordá-la superficialmente. Isso é importante. «Omega» não é um ato de rebelião por parte de alguém alheio à tradição; é um ato de honestidade por parte de alguém que a conhece demasiado bem para a sentimentalizar. A poesia de Federico García Lorca, há muito enraizada na psique andaluza, é aqui tratada não como património, mas como matéria viva. As canções de Leonard Cohen — repletas de fé, erotismo e dúvida — não são tanto reinterpretadas, mas sim revividas.

O próprio som é provocador. Os Lagartija Nick não suavizam as suas guitarras em nome do flamenco, e o flamenco não recua para se adaptar ao rock. As duas formas chocam entre si. Os ritmos rangem. O feedback intromete-se. A voz de Morente — crua, imponente, sem adornos — não flutua acima do ruído. Permanece no meio dele, como uma figura que se recusa a abandonar a praça durante uma tempestade.
Ouvir os Omega é uma experiência física. Sente-se no peito antes mesmo de o cérebro o processar. Este não é um álbum concebido para uma audição casual. Não recompensa a distração. Exige o mesmo que certos espaços exigem a altas horas da noite: atenção, quietude e a disposição para conviver com o desconforto. Só essa qualidade já o coloca firmemente dentro da ideia de «escuta profunda» do Tracks & Tales — música que muda a forma como ocupamos o espaço enquanto é tocada.
A reação na altura diz-nos tudo o que precisamos de saber. O «Omega» foi um álbum que dividiu opiniões, chegando mesmo a ser considerado escandaloso. Para alguns, parecia um sacrilégio. Para outros, uma revelação. Essa divisão não se prendia com o gosto — prendia-se com a identidade. O flamenco sempre carregou o peso da sobrevivência cultural, e Morente compreendeu que a sobrevivência não advém de congelar o tempo. Adveio de deixar que o presente respondesse ao passado.
O que faz com que «Omega» perdure é o facto de não perseguir a modernidade. Aqui não há gestos na moda. Não há tentativas de parecer atual. Em vez disso, o álbum soa como algo necessário. Como se estes poemas, estas canções, estas emoções já não pudessem continuar a existir em segurança apenas dentro das formas tradicionais. A eletricidade não foi uma escolha estética — foi a única resposta honesta.
Para a Andaluzia, «Omega» é um álbum de referência, pois capta algo essencial: a recusa da região em ser simplificada. Sevilha, Granada, Cádis — são locais onde a beleza e a brutalidade coexistem, onde a música é uma verdade social e não apenas uma atuação. «Omega» transmite essa complexidade na íntegra. Não a simplifica para fins de exportação.
Quase três décadas depois, o álbum não se transformou em nostalgia. Não se diluiu numa mera influência. Continua a parecer atual, exigente, vivo. Essa é a marca de uma obra que não pretendia agradar ao seu tempo — mas apenas expressar-se com honestidade no seio desse tempo.
A Omega não explica a Andaluzia.
Permite-nos ouvi-la a discutir consigo mesma — e a sobreviver.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante.
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