Produtor 01 – LTJ Bukem Presents (1993)
Ritmo para a hora da espera
Por Rafi Mercer
São 5 da manhã. O átrio está a zumbir. Algures, uma máquina dá brilho ao chão. Estás a meio caminho entre o sono e a partida — um daqueles espaços liminares em que o mundo parece estar em pausa. Se alguma vez precisaste de uma banda sonora para essa hora, é «Producer 01», de LTJ Bukem.
Lançado em 1993 pela Good Looking Records, «Producer 01» não era um álbum no sentido habitual; era uma declaração de intenções — a página inicial daquilo que viria a ser o liquid drum & bass, ou aquilo a que o próprio Bukem preferia chamar «música atmosférica». Ao longo das suas quatro faixas, definiu uma nova frequência emocional: um ritmo acelerado que, de alguma forma, acalmava a mente.
A época foi determinante. No início da década de 1990, o jungle era cru, volátil, feroz. Os breakbeats eram transformados em armas. As discotecas eram sombrias e intensas. Bukem ouviu algo diferente nesse mesmo caos — uma serenidade escondida na velocidade. Ele eliminou a agressividade, manteve a propulsão e criou paisagens sonoras que pareciam flutuar. O álbum «Producer 01» foi a primeira expressão clara dessa visão.
O álbum abre com «Music» — a faixa-manifesto. O seu breakbeat rola como uma maré, em vez de uma arma, com os pratos a soarem suavemente e a linha de baixo a zumbir profunda e melódica. Depois, surgem os pads: luminosos, em camadas, infinitos. Através deles, repete-se uma amostra: «A música é a chave.» É menos uma letra do que uma filosofia. Ao ouvi-la agora, parece a primeira respiração profunda após uma longa noite.
Segue-se «Demon’s Theme». É difícil exagerar a importância desta faixa para a evolução da música eletrónica britânica. O Amen break, fragmentado e sobreposto, torna-se fluido. O sub-baixo ronrona em vez de retumbar. Os acordes de piano caem como chuva. No seu cerne está uma sensação de contenção — energia retida, emoção suspensa. Dá para dançar ao som desta música, mas também dá para simplesmente contemplar o nascer do sol ao som dela.
Num aeroporto, às 5 da manhã, é quase perfeito. O ritmo imita o movimento, mas a melodia transmite uma sensação de quietude. A música parece existir fora do cansaço — flutuando por cima dele, paciente, discretamente otimista.
O Produtor 01 continuou com «Atlantis (I Need You)», uma faixa que, desde então, se tornou lendária. Aquela linha de baixo — profunda, redonda, orgânica — é uma das mais reconhecíveis da história do drum & bass. Por cima dela, Bukem sobrepõe cordas, fragmentos vocais e uma onda de reverberação que parece expandir o próprio espaço. Não se trata apenas de produção; é arquitetura. O design de som tem uma dimensão física — frequências dispostas como mobiliário, cada elemento com um propósito e uma graciosidade próprios.
A faixa final, «One & Only», fecha o ciclo: acordes profundos, um ritmo elástico, uma sensação de movimento perpétuo. A energia é serena, mas precisa — o som de uma cena a amadurecer, a encontrar a sua voz.
O que torna o «Producer 01» tão importante não é apenas o que ele deu início, mas sim a sensação que transmite. Tornou o drum & bass belo. Introduziu elegância à energia e harmonia ao ritmo. Era música de discoteca que também podia ser contemplativa — música que funcionava tanto a 130 decibéis como a 30.
Através de um sistema de alta qualidade, é extraordinário. Os graves são suaves como veludo, os médios brilham e os detalhes dos agudos — aqueles pratos escovados, aquele silvo atmosférico — transformam-se em textura. É um daqueles discos que provam que a engenharia de som pode ser emoção.
A genialidade de Bukem era espacial. Ele compreendeu que o ritmo podia ser arquitetónico — não apenas um padrão, mas uma proporção. Ouve «Demon’s Theme» numa sala com acústica adequada e vais perceber: o baixo como alicerce, a percussão como estrutura, a melodia como luz. É por isso que a sua música continua a encher bares e estúdios concebidos para a audição, e não para o volume.
Do ponto de vista cultural, o «Producer 01» marca o momento em que as raves underground se tornaram mais reflexivas. É o ponto em que a euforia de alta energia do início dos anos 90 evoluiu para algo mais meditativo. A música começou a evocar espaços mais tranquilos — passeios de carro à noite, voos matinais, salas com luz fraca repletas de conversas. Abriu um caminho que vai do movimento à atenção plena.
Essa mudança parece agora profética. A ideia de que a música eletrónica também poderia ser introspetiva estende-se diretamente da visão de Bukem até ao cenário moderno dos bares de música. A linhagem é clara: do «Producer 01» às compilações atmosféricas que se seguiram, da rádio pirata às listas de reprodução criadas para a tranquilidade. É o som da Grã-Bretanha a aprender a respirar novamente através do ritmo.
O que mais adoro neste álbum é o facto de se manter tão humano. Mesmo com toda a sua precisão, não há nada de estéril nele. Consegue-se sentir o toque na programação, as imperfeições que dão vida ao groove. Os pads não são polidos; são quentes, ligeiramente desgastados, como a luz do sol a atravessar o vidro.
Quando a ouço enquanto viajo — com os auscultadores postos, as luzes baixas, tudo a um ritmo lento —, isso renova-me sempre. Tem uma clareza que dissipa o cansaço. Não é música que combate o ruído do mundo; é música que o reorganiza.
E é essa a magia do Bukem. Ele encontrou a calma no meio da velocidade. Conseguiu fazer com que a velocidade soasse como quietude. Criou um género que consegue avançar a 170 BPM e, mesmo assim, parecer uma meditação.
No aeroporto, ao amanhecer, quando todos estão à espera, com o tempo suspenso, o Produtor 01 dá sentido a tudo isto. O ritmo leva-nos para a frente; a atmosfera mantém-nos imóveis. Entre essas duas forças — o movimento e a calma — reside toda a condição humana.
É isso que este disco representa. Não é apenas um dos primeiros lançamentos de drum & bass, mas sim uma filosofia sonora. A prova de que energia e elegância não são opostas — são parceiras, se soubermos ouvir.
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