Promised Land: Volume Dois – Vários Artistas (Reino Unido, 1995)
O futuro já estava aqui
Por Rafi Mercer
Algumas compilações não se limitam a reunir faixas — captam um momento. «Promised Land: Volume Two», lançado em meados da década de 1990 pela Strictly Underground Records, foi uma dessas compilações que parecia menos um lançamento e mais um artefacto. Três discos de vinil, cada face repleta de novos nomes, novos sons e novas formas de ouvir o ritmo.
Era o som da cena underground britânica a aprender a expressar-se por si própria. O jungle e o drum & bass não eram, naquela altura, géneros musicais — eram reações. Uma geração de jovens de Londres, Birmingham, Bristol e Leeds estava a construir algo a partir do que tinha: gira-discos, samplers e curiosidade. A «terra prometida» não era um lugar; era a ideia de que a liberdade podia ter um ritmo.
Ao ouvir agora, a energia ainda vibra nos sulcos. Cada faixa parece um instantâneo de uma transmissão pirata a altas horas da noite — chiado, compressão, os graves a ecoarem pelos blocos de apartamentos. Mas há também clareza: produtores a levar o equipamento primitivo ao seu limite emocional, fazendo com que a tecnologia pareça humana.
O lado A abre com aquela mistura inconfundível de breakbeats e subgraves — o ritmo cortado, misturado e remontado. O que se destaca não é a agressividade, mas sim a criatividade. O Amen break cortado em padrões fluidos; fragmentos vocais tratados como percussão; linhas de baixo que não se limitam a sustentar o ritmo, mas sim a expressá-lo. Era uma arquitetura construída a partir da improvisação.
Cada lado flui como um set de DJ. «Promised Land: Volume Two» não foi concebido para a rádio; foi feito para as salas de dança. A mistura de ritmos, ambientes e tonalidades cria uma espécie de cartografia — faixas mais sombrias que dão lugar a linhas de sintetizador eufóricas, arestas ásperas que se suavizam na melodia. Quase se conseguem ver os armazéns, o fumo, as luzes estroboscópicas, os corpos a moverem-se não para serem vistos, mas para se sentirem parte do todo.
Para quem se aproximou do drum & bass mais tarde — através de Goldie, Bukem, Roni Size —, este disco parece o caderno de esboços que antecede o museu. Está repleto de ideias que mais tarde seriam aperfeiçoadas: os pads espaciais do jungle atmosférico, o balanço do broken beat, a intensidade do techstep inicial. No entanto, nada aqui parece incompleto. As imperfeições fazem parte do conceito.
O que é notável, mesmo três décadas depois, é o quão comovente tudo isto parece. Por baixo da velocidade esconde-se calor — uma sensação de otimismo que percorre todas as faixas. O título, «Promised Land», não foi por acaso. Eram jovens multiculturais e pós-industriais a sonhar com algo novo a partir do betão. Não estavam à espera de serem contratados; estavam a gravar os seus próprios futuros em acetato.
Através de um bom sistema, o som ganha vida — os médios são nítidos, os graves são imensos, mas com contornos suaves. Este é um vinil feito para fazer o ar vibrar, não para vender exemplares. O ruído de fundo torna-se parte da música. As baixas frequências ressoam como uma infraestrutura — o som como estrutura.
Num bar dedicado à audição, o efeito é transformador. Basta colocar um destes discos a tocar em volume alto para que o ambiente mude instantaneamente. Os graves acumulam-se por baixo das mesas; a percussão espalha-se como faíscas. Não é nostalgia — é presença. Esta é uma música que não envelhece porque nunca fingiu ser intemporal. Foi criada para o presente, e essa imediatez permanece.
É fácil esquecer o quão radical esta compilação foi na sua época. O início da década de 1990 foi dominado pela música de dança importada — house de Chicago, techno de Detroit. «Promised Land» marcou o momento em que a Grã-Bretanha deixou de importar e começou a exportar. O jungle não era imitação; era mutação. Pegou nos breaks do funk americano, no baixo do reggae, nos sintetizadores europeus e na energia crua de Londres — e criou algo inteiramente próprio.
O que é fascinante é a forma como o espírito daquele momento ainda ressoa na música britânica contemporânea. É possível ouvi-lo na nova onda de jazz londrino, nas experiências «half-time» dos produtores de música eletrónica, na forma como o próprio ritmo voltou a tornar-se uma arquitetura. O ADN cultural que tem origem em discos como «Promised Land: Volume Two» está agora presente em todo o lado — invisível, mas inconfundível.
O formato da compilação faz parte da magia. Não há uma visão única, nem um ego dominante — apenas uma comunidade de ideias reunidas. Algumas faixas têm mais impacto, outras vacilam, mas o que importa é o conjunto. É um lembrete de que os grandes movimentos raramente são planeados; eles surgem espontaneamente.
Para os colecionadores, a edição original em três discos de vinil continua a ser muito valorizada — pesada, com um design minimalista da capa, uma promessa gravada no vinil. Mas, para os ouvintes, é mais do que uma relíquia. É uma experiência que ainda funciona — não como algo retro, mas como algo essencial.
Quando a ouço tarde da noite, o efeito é quase físico. As frequências graves preenchem o espaço entre os batimentos cardíacos e o chão. O silvo das frequências agudas dá a sensação de ar a passar pelo betão. É música que nos lembra que a melhor arte surge muitas vezes da limitação — de pessoas que trabalham não com abundância, mas com um propósito.
É isso que esta compilação representa: o som da criatividade transformado em brilho. É a Grã-Bretanha em transição — a sombra de Thatcher a desvanecer-se, os horizontes digitais a abrirem-se, o otimismo reconstruído a partir do baixo e da imaginação.
Há um momento no Lado D — uma daquelas faixas anónimas em que o ritmo se abre de repente, os acordes cintilam e tudo parece flutuar sem peso. Quase se consegue ouvir a esperança que há nisso. Essa é a terra prometida: não um destino, mas a sensação de que a comunidade, a criatividade e o som podem ser suficientes para refazer o mundo, mesmo que seja por alguns minutos.
E quando a agulha se levanta, essa sensação permanece — o zumbido dos graves mais profundos ainda no ar, a sensação de que algo real acabou de passar pela sala.
Rafi Mercer escreve sobre os espaços onde a música é importante. Para ler mais artigos da rubrica «Tracks & Tales», subscreva ou clique aqui para ler mais.